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“É de Tororó”: a estreia fonográfica de Capiba no reinado do maracatu

Por Luiz Ribeiro Fonseca

sexta, 12 de agosto de 2022

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No Recife, em 1935, sob a direção do político e jornalista Mário Melo, foi criada a Federação Carnavalesca Pernambucana. Representando, por um lado, interesses comerciais de empresas estrangeiras como a Electric Bond and Share, e, por outro, um braço cultural do governo de Getúlio Vargas, o órgão registrava agremiações de frevo e maracatu e promovia inúmeros concursos de música em parceria com o Diário de Pernambuco, premiando e gravando obras que, de acordo com o júri, se destacariam no período de Momo.

Nascido no ano de 1904 em Surubim, agreste de Pernambuco, Capiba – também conhecido como Lourenço Barbosa –, filho de Severino Atanásio Barbosa, célebre compositor e mestre de fanfarra, cresceu rodeado por música. Ao longo de sua carreira, tornou-se um nome consagrado no carnaval do estado, compondo mais de 200 canções que passaram por gêneros como a valsa e o frevo-canção, a exemplo de “Maria Bethânia” (1945) e “É de amargar” (1934). Além disso, ao longo dos anos 1930, escreveria, quase sempre ao piano, uma série de maracatus: o primeiro deles, “É de Tororó”, musicado a partir de um poema de Ascenso Ferreira, terminaria vencendo o segundo lugar no concurso da Federação, realizado no ano de sua fundação.

Com um arranjo regido por Zuzinha, maestro pernambucano, e executado pela Orquestra Jazz Acadêmica de Pernambuco, que viajara ao Rio de Janeiro para a gravação, “É de Tororó” foi lançado em um compacto 78 RPM pela gravadora RCA-Victor. A letra, interpretada pela pernambucana Leda Baltar e pelo crooner da Acadêmica, contava a história de dois amantes através de expressões que evocavam uma prosódia quase percussiva e citavam instrumentos musicais do maracatu, como o ingongo – também chamado de gonguê. 

“O amor tem sido para mim Liamba
Um côco eterno numa corda bamba!
Camba praqui para acolá descamba!
Deus me livre mais de amar…
[...]
Se não pretendo me encantar no samba
Na umbigada me acabar
Meu coração não tem dono
O meu senhor é o ingongo
[...]”

Capiba e seu piano

A obra era resultado de diversos fatores: dentre eles, a Semana de Arte Moderna de 1922, cujos ecos pautavam as musicalidades negras e indígenas como fontes de riqueza estética. Com o Golpe de 1930, o movimento seria instrumentalizado por um nacionalismo varguista, que, através de seu arsenal propagandístico, divulgava canções populares em programas de rádio como a Hora do Brasil. Dentre músicas como “Lalá”, de João de Barros, e “Casa de Caboclo”, de Hekel Tavares e Luiz Peixoto, figurava “É de Tororó”. Desse modo, o disco e o rádio marcaram uma mudança afetiva e tecnológica no modo de consumo de música e delinearam o avanço de um mercado cultural atravessado por questões políticas e raciais. 

Assim, “É de Tororó” (que seria regravado em 1956 pelo Conjunto Farroupilha), pode ser visto como um dos primeiros encontros que germinaram, durante a década de 1930, entre a música do maracatu e compositores de formação clássica. Desde a primeira gravação do gênero, em 1929, esses compositores procuravam misturar a potência da alfaia e do gonguê com a melodia do piano e do violino, numa alquimia que Ariano Suassuna chamou de “transposição do popular”. Embora nem sempre harmônica, a convergência se mostrou frutífera, vindo a desembocar no termo sintomático de “maracatu estilizado”, que teve na figura de Capiba um de seus principais expoentes. 

Confira a versão de 1935 aqui e a de 1956 aqui.



Luiz Ribeiro Fonseca é jornalista e mestrando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF). Pesquisa fonogramas de maracatu gravados na primeira metade do século XX. 



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