Na Ponta do Disco

Elifas Andreato: Poeta dos Traços, Anjo Cromático

Por Tiago Bosi

segunda, 18 de abril de 2022

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“é proibido pecar contra a esperança”
Para Samir Salman

O Na Ponta do Disco, hoje, troca o disco pela ponta do lápis de Elifas Andreato (1946-2022) que nos deixou recentemente, dia 29 de março. Conheci Elifas de forma despretensiosa, num Café. Pedi um autógrafo, ele concedeu gentilmente com sorriso discreto por baixo da sua boina característica e alinhada com seu estilo inequívoco de artista – boina, jaqueta e sapato bicolor cromaticamente sincrônicos. Não se diria que Elifas se vestia como artista, mas que por ser artista se vestia assim. Ponto. 

Elifas fez centenas de capas de álbuns (363 para ser exato), livros e ilustrações – sua obra completa merece artigos, livros e palestras. Elifas foi um artista brasileiro maior: gênio da raça. Seus desenhos detém o poder transcendental da arte: “Adoniran palhaço” (preterido nos anos 1970 por uma ilustração mais “sóbria” do sambista paulista pelo diretor artístico da Odeon – o original ficou com o produtor Fernando Faro), – é a tragicomédia de Adoniran em seu âmago; Paulinho da Viola em “Nervos de Aço” (EMI/1973) é algo que sublime; Noel Rosa é a incorporação do “boêmio da madrugada” (RGE/ 1997); O minimalismo do traço e da cor no limite entre Kandinsky, Picasso e Miró da capa de “Espiral de Ilusão” (Oloko Records/ 2017) de Criolo, entre tantas outras obras-primas que seria possível citar aqui, mas que o tamanho deste modesto artigo não comportaria. Entretanto, quando tive a oportunidade de entrevistá-lo com mais calma, percebi que Elifas tinha predileção em falar de duas de suas obras maiores: as ilustrações de Clara Nunes e Clementina de Jesus, capa e contracapa dos álbuns de “Nação” (Odeon/ 1982) e “Clementina e Convidados” (EMI/1979), respectivamente.

Confesso que as duas obras já estavam entre as minhas favoritas dentre as ilustrações de Elifas, mas após ouvir o próprio criador falar de sua criação com seu brilho característico nos olhos, redescobri ambas com novo frescor. E desde então tenho certo de que essas duas obras primas têm algo de transcendental – são obras encantadas.

A primeira obra, a ilustração de Clara Nunes do álbum “Nação”, durante minha entrevista com Elifas, estava muito presente nele. Isso porque era dezembro de 2018 e Clara Nunes seria homenageada no enredo da Portela de 2019, “Na Madureira Moderníssima, hei sempre de ouvir cantar uma Sabiá”. Elifas havia sido convidado para desfilar com a escola de Madureira e um dos carros alegóricos, o abre-alas teria araras inspiradas na arara presente na capa do álbum icônico de 1982. 

Elifas estava eufórico, lembro dele segurando um art-book seu com a sua ilustração de Clara em excelente resolução imaginando, provavelmente, o carro alegórico que fariam com base em sua criação. No fim, as araras da Portela acabaram ficando modestas e mais modestas ainda perto da águia gigante que a escola de samba carrega como símbolo em seu abre-alas.  

Mas isso não tira em nada a magistralidade da capa de “Nação”. Começando pelo contraste primoroso entre azul, vermelho e branco. Elifas nos dá uma aula de cores primárias (substituindo parcialmente o preto das vanguardas russas, alemãs e holandesas – Kandinsky, El Lissitzky e Mondrian – pelo azul da Portela!) e contrastes. Os lábios de Clara saltam de sua face, quase nos beijando, tamanha é a capacidade de Elifas de criar texturas sutis apenas com seus traços de poeta. Seus olhos e nariz são impávidos, sublimes e esculpidos, tais quais o de uma esfinge egípcia. E seu cabelo é mar contradizendo a definição perfeita de sua face; suas mechas são o infinito da utopia cósmica – terminando inclusive em um mar de estrelas explosivas e cadentes (no melhor estilos dos anos 1980) – como em “Ijexá”, terceira faixa do álbum: “Seu brilho parece um sol derramado, um céu prateado, um mar de estrelas”. Já a Lua, em seu brinco (de Oyá ou de Oxum), reconecta “Clara cósmica” com “Clara terrena”. Assim os tons de azul nos levam do mar de estrelas aos céus, aos mares, rios e cachoeiras. Clara  cósmica, lunar e ao mesmo tempo feminina, humana e terrena conectada ao cosmos e a si própria em plena harmonia com a lua como entreposto. A natureza aqui também é representada pela bela arara de Elifas no ombro de Clara.

E por fim o termo “nação”. Nação aqui pensada tanto no sentido plural do termo como coletivo cultural, étnico etc, mas também em nosso país, sendo a arara um de nossos símbolos nacionais por excelência. 


E não é por menos, Clara Nunes talvez representasse algo de fato imensurável para o Brasil naquele fim dos anos 1970, início dos anos 1980 – pela sua força como mulher, artista, intérprete, mas também como verdadeira entidade. Em um momento de tanta esperança como aquele momento de reabertura e redemocratização que o Brasil vivia. E sua morte prematura em 1983 deixou o país inteiro aos prantos. Mas como verdadeira entidade, Clara muito provavelmente encantou-se e não me surpreenderia se tivesse voltado nos ventos de Oyá como uma das araras de Elifas no desfile da Portela de 2019: “Epahey Oyá, Epahey!/ Sopra o vento, me faz sonhar/ Deixa o povo se emocionar/ Sua filha voltou minha mãe”. E Elifas Andreato captou, em sua obra, o encanto de Clara.

A outra obra que não poderíamos deixar de falar é a “Clementina de Elifas”, ou como batizou Hermínio Bello de Carvalho,  a “Mona Lisa brasileira”. E não é por menos. Tive a chance de vê-la ao vivo, em 2019, na exposição “A Arte de Elifas Andreato na Música Brasileira” com curadoria primorosa de Emanoel Araújo. 

Lembrei à época que Elifas havia me revelado em nossa entrevista que havia se arrependido de duas coisas em relação à ilustração de Clementina. A primeira é que a ilustração não foi utilizada para a capa do álbum de 1979 (mas, sim, no álbum “Clementina, Cadê Você?” [MIS/1988] com tiragem de mil cópias em 1988), e a capa – que também ficou a sua própria forma canônica – dos pés encravados no barro (que aliás também não são de Clementina, fato este “denunciado” por Hermínio Bello de Carvalho e corrigido por Elifas em outra ocasião); a segunda, é que Elifas vendeu a ilustração original para um colecionador particular de Curitiba e talvez por um preço não tão alto pensando na magnitude que a obra acabou ganhando – mas não era pelo preço. Durante a entrevista lembro que o olhar de Elifas, às vezes meio baixo, parecia revelar um artista que já não necessariamente fazia suas obras pela compensação material – algumas obras pra Elifas eram como filhas e filhos: a ilustração da Rainha Quelé era definitivamente uma delas. 


A ilustração de Elifas é de beleza rara. Traz um tom de melancolia – ou seria um sorriso discreto e resignado de Clementina? – e uma feição enigmática e misteriosa que fez Hermínio Bello de Carvalho chamar a obra de nossa “Mona Lisa”. Mas tem muito mais. São as cores e traços que Elifas, nosso poeta dos traços e anjo cromático, escolheu para a face de Clementina que trazem peso e leveza, sombra e luz, brandura e severidade, docilidade e aspereza. Traços e cores, em amálgama de tons, emoções e gestos de uma vida inteira contidos em um segundo. A escuridão de seu perfil que dá espaço para a clareza de sua face e seus traços tão marcantes escondem por trás a noite representada também pela claridade das estrelas e da lua – pois a Rainha Quelé foi feita para a madrugada, pois foi feita para vadiar. Mas aqui está o mistério sublime: a técnica tão perfeccionista quase fotográfica que Elifas imprime na obra dá lugar ao simbolismo ou surrealismo de um Klimt ou Chagall tanto nos motifs de flores que acompanham o perfil de Clementina à esquerda, como o motif de seu ombro à direita (trazendo padrões florais nipônicos). Aqui o concreto, fotográfico e academicista encontra o onírico, surreal e simbólico – com absoluta leveza – como apenas o traço do poeta em transição harmoniosa. E a “nossa Mona Lisa”, deixa de ser a nobre renascentista florentina, Lisa Del Giocondo, para transcender em uma Rainha Quelé – “Quelémentina, cadê você?” – vão cantar por séculos a vir em rodas de samba e uma das respostas é: encantou-se! Encantou-se na obra de Elifas. E se você olhar bem no fundo do olho de Clementina, talvez consiga ver a lágrima que separa o mundo dos sonhos do artista do mundo concreto/real. 

E não para por aí. Elifas me contou em nossa entrevista, quando fez uma exposição no Rio de Janeiro – se não me falha a memória no MIS – sobre Clementina de Jesus. Na exposição havia a ilustração de Clementina assim como a capa original do álbum “Clementina e Convidados” de 1979: a dos pés no barro. 

Foram incluídos na exposição um tanque com água e um vaso grande com terra. A ideia original era mostrar como a capa do álbum fora concebida por Elifas. Porém, ele me contou que na época assistiu uma cena incrível: um grupo de meninas negras de escola pública do Rio, que visitavam a exposição, olharam para a ilustração de Clementina e então uma por uma mergulharam os pés na água e, logo depois, pisaram na terra deixando, assim, impressos seus pés ali na frente dos olhos da matriarca do samba. Sem saber o que fazer, os funcionários do museu deixaram o ritual ter prosseguimento. O que Elifas me disse é que, o que talvez ninguém entendesse na época, é que naquele momento dezenas de meninas negras estavam, convidadas pelos olhos ancestrais de Clementina, também se tornando Princesas e Rainhas Quelés.


Certa vez li uma história de um menino que tinha um pincel mágico e que tudo que ele desenhava se encantava e ganhava vida. Elifas tinha poder semelhante com sua arte. E o poder de seu lápis mágico foi tamanho que ainda seremos testemunhas dos feitiços e encantos desse poeta dos traços e anjo cromático que desceu à terra e nos a agraciou com seu divino toque de artista por gerações e gerações ainda por vir.



Tiago Bosi Concagh é historiador, professor e produtor cultural. Mestre em História Social pela USP e bacharel em produção cultural pela FAAP.  Idealizador do canal Na Ponta do Disco e do III Encontro de Música Brasileira: Sons da Diáspora, além de editor da Revista Lamella. 



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