Colunista Convidado

Fabiana Cozza, enfim sem censura, celebra D. Ivone Lara

quinta, 13 de junho de 2019

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Descredenciada do papel principal do musical sobre D. Ivone Lara por causa da coloração clara da pele (isso não é racismo?), embora escolhida pela própria homenageada (a sambista superlativa não entendia de negritude?) a cantora Fabiana Cozza finalmente presta sua homenagem no CD “Canto da noite na boca do vento” (Biscoito Fino). É uma volta por cima em grande estilo: minimalista, sutil e refinada – a altura da autora do repertório, a carioca Yvonne da Silva Lara (1923-2018), uma das maiores compositoras do país, digna representante da nobreza do samba.  

Fabiana Cozza (dos Santos) é paulistana, filha de mãe branca e Oswaldo dos Santos, sambista negro, puxador dos enredos da escola Camisa Verde e Branco. É acompanhada pelo extraordinário violão 7 cordas do piracicabano Alessandro (dos Santos) Penezzi. Ele é também o diretor musical do disco, cujo embrião nasceu em 2005, quando a dupla visitou a obra de D. Ivone, no SESC Santo André, e no ano seguinte, teve a própria homenageada como anfitriã na série “Quebrada Cultural”. Não há percussão retumbante. Às vezes, rola apenas a cadencia das cordas ou o canto à capella da afinadíssima cantora. Como na faixa de abertura, “Meu samba é luz, é céu, é mar” (parceria com Delcio Carvalho), uma flechada nos detratores: “Quero soltar, enfim, a alegria que mora em mim/ que querem sufocar/ com tanta maldade, covarde”.  O repertório meticulosamente escolhido por Fabiana e Alessandro não sonega os pontos altos da carreira da celebrada. Como o pioneiro samba enredo “Os cinco bailes da história do Rio” (com Silas de Oliveira e Bacalhau), “Alguém me avisou”, em dueto luxuoso com Maria Bethânia e “Liberdade” (com Delcio Carvalho): “Confiante sempre na felicidade/ eu cantava, sentia/ tudo que sonhei/ mas depois surpreendeu-me a solidão/ foi o fim da ilusão”

Fabiana faz singrar a voz cariciosa nas sinuosas melodias requintadas da ex-aluna de canto da mulher do erudito Villa-Lobos em “Nasci pra sonhar e cantar” (outra com Delcio) e “Mas quem disse que eu te esqueço” (com Hermínio Bello de Carvalho). Encampado com autoridade pela “soul woman” Sandra de Sá, “Enredo do meu samba” (com Jorge Aragão) tem releitura em clima de choro, palhetada pelo cavaco de Henrique Araújo, e a letra ganha conotação farpada: “E agora sei/ desfilei sob aplausos da ilusão/ e hoje tenho esse samba de amor por comissão”. O roteiro expõe outros parceiros de D. Ivone como Mano Décio, no repicado “Sem cavaquinho não”, sob percussão de Douglas Alonso; Paulo Cesar Pinheiro, no definidor “Bodas de ouro” (“Com o samba eu casei tanto tempo faz/ com ele eu vivi minha vida em paz”) e Arlindo Cruz em “Adeus timidez”: “Eu amei em silêncio aquela criatura/ o meu sentimento por ela não foi aventura”.

Há ainda um pot-pourri aberto à capella pelo hino imperiano “Não me perguntes” (parceria com Darcy de Souza e Fuleiro) e desatado em partidos de outros autores até o fecho no inaugural “Tiê”, de D. Ivone, Fuleiro e Helio. O sax alto de Nailor Proveta injeta líricos improvisos em “A dama dourada”, celebração de Vidal Assis e Hermínio Bello de Carvalho, que arremata o precioso disco. Os versos não podiam ser mais eloquentes: “Moldou de um jeito a minha voz/ que mesmo cantando a sós/ canto a dor de cada voz silenciada”.


(Tárik de Souza)  


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