Música

Girl From a New Rio: Como Anitta descortinou um Rio de Janeiro perfeito

por Mila Ramos e Caio Andrade

quinta, 20 de maio de 2021

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Recentemente, saiu o novo single da cantora Anitta, "Girl From Rio" (do inglês, “garota do Rio”, em uma clara referência à “Garota de Ipanema”), pela gravadora Warner Music. Utilizando um sample do clássico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, a cantora se faz valer da melodia daquela canção para apresentar sua obra com um novo olhar para com os brasileiros. E que fique claro: isso não quer dizer que ela tente negar ou superar a canção original.

Se é para colocarmos em perspectiva a obra musical "Girl From Rio", então vale considerar que a Anitta é uma artista do século XXI. Compará-la com a obra musical composta por Tom e Vinícius no passado é um equívoco. Vejam, a própria Bossa Nova foi pautada no jazz, estamos sempre nesse crossover.

Desde a capa do single, que gerou diversos memes, até a letra, “We don’t look like models” (do inglês, “Nós não parecemos como modelos”), Anitta vem tentando desconstruir aquele imaginário que há muito se tem do Rio de Janeiro (e muitas vezes do Brasil), de uma terra alegre e ensolarada, com samba, futebol, cerveja e muita mulher para apreciar e desejar. Na letra, cita também suas raízes, como o bairro de Honório Gurgel.

Capa do single "Girl From Rio" (Reprodução) 

E daí vem o clipe! Ah, o tão comentado clipe, em que mais uma vez insistem em dizer que "ela não faz parte dessa realidade". Mas metade da população carioca se insere nela! O vídeo mostra a realidade chocando diretamente com a garota de Ipanema versus Piscinão de Ramos. Expandiu a consciência do que é a mulher carioca para o estrangeiro. Isso é brilhante! Mulheres com corpos suburbanos quebrando a realidade da mulher de Ipanema perfeita. O posicionamento dela é a metalinguagem da metalinguagem, ela olha de fora, mas ao mesmo tempo está dentro, abrindo a cortina e mostrando a verdade. O desafio de agora é: volte lá no clipe e procure ver com esse olhar estético e a linguagem visual. Interprete a imagem do Piscinão, mas ao mesmo tempo perceba que não é uma imagem crua, ela dá protagonismo para uma diversidade de corpos e belezas das mulheres cariocas. Mulheres que têm celulite, por exemplo. Inclusive o corpo da própria Anitta não passou por filtro de retoque, algo que também evitou anteriormente no clipe de “Vai Malandra”. Veja o mito da perfeição caindo por terra mais uma vez.

No início do vídeo, é como se ela viesse dos anos 1950 para os dias atuais, e pode-se pensar até uma questão interessante: como os autores de “Garota de Ipanema” iriam compor a canção nos dias de hoje e com uma visão suburbana? 


"Girl From Rio" é uma das muitas maneiras possíveis de manter uma “tradição” trazendo uma nova roupagem. Em momento nenhum ela nega o que já se passou ou trata isso de maneira pejorativa ou debochada. É um tanto equivocado o pensamento de uma heresia ou desrespeito à obra de Tom e Vinícius, já que seria justamente o oposto - entender o single como uma homenagem e uma valorização da nossa cultura.

GIRL FROM RIO NÃO É GIRL FROM IPANEMA, são músicas completamente diferentes. Mas, se ainda assim, condenam e contestam sobre o porquê da "funkeira" trazer esta música, vamos tentar entender o contexto. Primeiro, ela pega referências que já existiam no exterior sobre o Brasil - muitas vezes estereotipadas e desconfortáveis -  e traz de volta uma "Garota de Ipanema" diferente, levantando a bandeira de "eu sou aquela mulher, daquele país que tem o grande clássico da bossa nova que todo mundo conhece" e relembra a nossa história. Isso é resgate. Isso é memória musical.

Ao longo dos anos, diversas situações parecidas já aconteceram: em 2009, no álbum “Canibália”, Daniela Mercury trouxe uma versão completamente diferente do clássico “Tico-tico No Fubá”, gravado por Carmen Miranda nos anos 1940. Entre guitarras, metais, teclados e outras técnicas e instrumentos completamente anacrônicos à Carmen, Daniela deu seu recado e gravou uma versão bastante moderna e diferente.

Ainda sobre Carmen Miranda, em 2010 foi lançado o álbum “Hoje”, pela Biscoito Fino, com remixagens de grandes sucessos da artista, como “Uva de Caminhão”, “Adeus Batucada” e vários outros. Com novos instrumentos tocados por cima, incorporados às faixas originais, Henrique Cazes conta que a ideia era tocar sem nenhum “pudor”, não vendo problema em modificar as faixas originais. Remixar essas faixas foi justamente trazer a artista para os tempos atuais e mostrar como Carmen é “atemporal”, como diz Ruy Castro, biógrafo da artista.

A internet veio pra mudar a própria forma como o artista trabalha com conteúdo e possibilita entrar diretamente em contato como seu público. A concorrência é grande e a Anitta é on demand, ela lida com todas as plataformas. O Emicida faz isso muito bem, parece uma onipresença. Está em varias plataformas ao mesmo tempo. A “garota do Rio” está se posicionando como artista e preenchendo todos os espaços. Ela é uma espécie de Carmen Miranda do momento. Ambas criaram uma marca. E Anitta está conseguindo aparecer cada vez mais. 

Anitta no clipe de "Girl From Rio" (Reprodução) 

Entre diversas opiniões a respeito desse trabalho, há quem a defenda, quem a critique, mas fato é: Anitta hoje em dia é uma realidade, uma cantora já firmada na indústria musical e uma das principais porta-vozes da música brasileira na atualidade. Portanto, ela tem todo crédito e bagagem para produzir tal tipo de obra. Não por acaso, ela se encontra em uma gravadora do tamanho da Warner e já coleciona parcerias internacionais com artistas como Madonna e The Black Eyed Peas. Esses fatos só comprovam a afirmação dela no nosso cenário musical.

Além disso, junto com sua equipe, Anitta é uma das maiores estrategistas do mercado da música brasileira. Ela conseguiu estar no hype (algo que está sendo muito repercutido) e entra cada vez mais no mercado internacional preenchendo a lacuna de cantoras como Shakira e Ariana Grande. 

O foco é claro: ganhar todos os territórios à sua disposição. Anitta não está presa a uma identidade única, num idioma único. A garota é um camaleão como Madonna e David Bowie, um case e tanto, muito bem posicionado, porque entendeu essa inteligência de mercado na música.

Não se deve, por outro lado, reduzir “Girl From Rio” apenas a uma estratégia de marketing. Isso seria reduzir demais um grande trabalho idealizado pela artista, equipe, produtor, gravadora. Afinal, quantas músicas de um tempo para cá estão isentas de quaisquer estratégias de marketing e vendagens?

R&B pode ser uma estratégia de crescimento que está muito aclamado no momento, já que o funk tem a ver com a sua realidade, e já é um território conquistado por ela, que não está restrita a se congelar numa posição musical só. E como a inovação tem um pouco de risco sempre, Anitta não dá ponto sem nó, os dados de mercado são seu maior aliado. 

 Então lembrando, "Garota de Ipanema" não foi alterado, ok?

Sendo assim, Anitta fazer referência à “Garota de Ipanema” só mostra como ela conhece a nossa música e a valoriza, por mais que algumas pessoas ainda olhem esse trabalho como uma grande piada de mal gosto. Ela trouxe apenas uma visão nova e bastante pessoal daquilo que já se conhece e aproximou da realidade da juventude e periferia com a qual vem se comunicando com a sua música há algum tempo. Não é errado, é simplesmente genial.

Anitta e família no clipe de "Girl From Rio", gravado no Piscinão de Ramos (Reprodução) 

A curiosidade é saber como fica isso pro gringo, o que será que eles entenderam? Se alguém souber, conta aí!



Mila Ramos é fascinada por música e foi em seu trabalho com bandas cover em 2012 que encontrou uma nova paixão: o Music Business. Especializou-se em Marketing e Design Digital pela ESPM-RJ e somou seus conhecimentos ao mundo musical como Produtora Artística. Em 2017, entrou para o Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB). Lá chegou ao cargo de Coordenadora de Comunicação e, sob sua gestão, conquistaram o Prêmio Profissionais da Música 2019, e o Programa Aprendiz esteve entre os finalistas de 2021.

Caio Andrade é graduando de História da Arte na Escola de Belas Artes (EBA/UFRJ) e Assistente de Pesquisa e Comunicação no Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB) desde 2020Grande apaixonado por samba, pesquisa sobre o gênero há mais de uma década, além de tocar em rodas e serestas no Rio de Janeiro.

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