Na Ponta do Disco

Gonzaguinha, saudades da sensível inquietude do 'moleque'
Por: Cláudia Pereira Vasconcelos

domingo, 25 de abril de 2021

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Nós podemos tudo
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será


Em meio a catástrofe Brasil 2021, uma saudade aporta em nós. A saudade de um Brasil Gonzaguinha, uma referência de afeto e verdade que deixou uma marca em nós. A voz suave de um dizer intenso partiu há 30 anos, no dia 29 de abril de 1991, menos de dois anos da partida do pai, Luiz Gonzaga. Teria ele se apressado para curtir a companhia do velho Lua, que no final da vida se aconchegou no colo do filho? Quem sabe... O fato é que Gonzaga Júnior partiu cedo, aos 45 anos de idade, mas deixou de presente uma obra que emociona e inquieta os corações de diversas gerações, é quase impossível não se deixar afetar ao escutar esse cantor e compositor tão necessário para o Brasil. 

Se fosse possível eleger uma obra ou pessoa que sintetize os fios dispersos desse “gigante adoecido” chamado Brasil, penso que um desses personagens poderia ser Gonzaguinha. Pois sendo filho da diáspora nordestina e neto da diáspora africana, traz em seu corpo, memória e obra a grandeza das culturas de reinvenção. 

Foto: Reprodução (Antonio Nery / Agência O Globo)

O “neto de Exu” no duplo sentido - Exu: pequeno município do estado de Pernambuco, de onde veio seu pai Luiz Gonzaga e tantos outros migrantes e Exu-Elegbara: o dono da força e dos caminhos cruzados que rege o Universo pela dinâmica da dialética -, encarnou no berço do samba urbano carioca, Morro de São Carlos/Estácio, no centro do Rio de Janeiro. Uma comunidade de trabalhadores pobres que reunia tanto os descendentes de africanos/as nascidos/as no Rio de Janeiro (como sua mãe Odaléia Guedes) ou vindos/as da região Nordeste (como seus dois pais Luiz Gonzaga e Henrique Xavier), quanto imigrantes italianos, portugueses (como sua mãe/madrinha Leopoldina de Castro, a Dina), além de ciganos, judeus, etc. 

Nesse território símbolo da encruzilhada brasileira, Gonzaguinha cresceu escutando de tudo: fado, samba, baião, tango, bolero, Lupicínio Rodrigues e Libertah Lamarque. Durante a adolescência encontrou-se circundado por dois universos bastante diferentes: o “planeta favela”, o morro, a comunidade, a quebrada, um espaço complexo, multifacetado e engenhoso que lhe ensinou a criatividade na escassez, e os espaços da educação formal, no colégio interno privado conviveu com pessoas de outras realidades e classes sociais, além de estar inserido no mundo das letras. Esses dois ambientes lhes trouxeram conteúdos e oportunidades distintas e muito ricas, que são reveladas na diversificada e densa produção musical.

Na juventude, o acesso a universidade (promovido pela insistência e custeio do pai) e a passagem por coletivos libertários, a exemplo do Grupo de Teatro de Arena da Ilha do Governador e do M.A.U. - Movimento Artístico Universitário, encorajou a afirmação de um artista insubmisso, politizado e indignado, que não negociava suas convicções.

Apesar disso, Gonzaguinha fez parte de uma geração de artistas que, mesmo crítica ao papel do mercado cultural, se beneficiou dele, tendo em vista que o principal público consumidor da “arte engajada” era a juventude universitária da classe média, que frequentava os festivais musicais e consumia música “de protesto”. O que o diferenciava da “turma da MPB” dos anos 1970, era a origem popular negro-mestiça e sertânico-favelada. Ainda que a maioria dos/as cantores/as abordasse em suas obras temas referentes ao cotidiano do povo brasileiro e incômodos ao Estado autoritário, Gonzaguinha falava de dentro, do vivido e pensado, do visto e ouvido, da dor e da beleza. Não romantizou a pobreza, denunciou suas mazelas e exaltou a potência da luta e das culturas comunitárias presentes no morro. Por tudo isso, seus colegas de profissão e a própria imprensa o respeitavam e admiravam tanto.  


Todas as experiências vividas desembocaram numa obra apaixonada, política e eclética, na qual os dilemas autobiográficos se misturam com os dilemas de um projeto autoritário e excludente de nação. Como se sabe, grande parte da obra de Gonzaguinha foi concebida em um contexto político marcado pela repressão e autoritarismo, edificado pela regime militar que tentou de todas as maneiras silenciar as vozes dissonantes do “Pra frente Brasil”, como a voz de Gonzaguinha

Apesar da forte censura à sua obra e de todas as dificuldade que enfrentou na vida, Gonzaguinha não se deixou esmagar. Herdeiro das culturas gingadas, se auto intitulou “moleque” e acionou estratégias gingadas para garantir um espaço no cenário cultural, a visibilidade do seu pensamento e o eco do seu grito de alerta. E entre enfrentamentos e recuos, cantou insistentemente o Brasil, o Brasil dos “de baixo” e com a calma nos olhos de quem aprendeu a reinventar a vida pelas brechas, driblou a censura e até o final da vida gravou todas as canções que desejou. Como bem demarca na música "Geraldinos e Arquebaldos": “melhor se cuidar, no jogo do adversário é bom jogar com muita calma, procurando pela brecha pra poder ganhar”. E o moleque do morro sabia muito bem o que significava atuar pelas brechas. 


Além do amor rasgado e das canções de protesto, tematizou a infância, a esperança, a paternidade ativa, os desafios da masculinidade, a natureza, os dilemas e alegrias da própria vida, além de composições que falam sobre ou entoam ritmos nordestino, algumas delas em parceria com o pai. Seja no ritmo dançante das Frenéticas ou na voz inconfundível de Maria Bethânia, seus versos continuam a ser assobiados e regravados por uma nova geração de artistas que enxergam em Gonzaguinha uma fonte inesgotável de poética política e utópica.

Sim meu querido Gonzaguinha, “esse tempo vai passar”!


Cláudia Pereira Vasconcelos é professora de História na Universidade do Estado da Bahia, pesquisadora de sertões, música e brasilidades. Doutoranda em Estudos de Cultura (Universidade de Lisboa / UFBA) onde pesquisa a obra e a vida de Gonzagão e Gonzaguinha e sua relação com as brasilidades.

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