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Música

Itamar Assumpção 70 anos

A força impetuosa de Beleléu, vulgo Nego Dito

Sexta, 13 de setembro de 2019

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Um bandido romântico, briguento, que bota inimigo ou desafeto pra correr, que  mata a cobra e mostra o pau pra quem quiser ver. Nascido no Tietê, se está de lua é melhor não provocar: ele se manda pra rua, destranca porta a pontapé e, se tiver tomado umas e outras, arranca até o rabo de satã. E se chamar a polícia, vira onça e quer matar!

De quem estamos falando? Do personagem Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito. O criador? Francisco José Itamar Assumpção, vulgo Itamar Assumpção, cantor e compositor brasileiro falecido em 2003, que estaria completando 70 anos no dia 13 de setembro de 2019

Integrante da lista dos “malditos da MPB”, Itamar criou o personagem Nego Dito já para o seu conceitual disco de estreia, Beleléu, Leléu, Eu, em 1980. No disco, assim como o protagonista de uma peça, Nego Dito entra e sai de cena diversas vezes entre uma faixa e outra, e se tornou personagem recorrente na obra de Itamar ao longo de toda a sua carreira. Com biografias semelhantes, o criador acabou ficando muito associado ao personagem, e pouco ou nada fez para dissociar-se dele. Afinal, ambos nasceram no Tietê, eram orgulhosamente negros e ligados à marginalidade (Nego Dito à marginalidade social e Itamar, à cultural). Há, no entanto, uma diferença primordial entre os dois: se Nego Dito usava a força para quebrar portas a pontapés, Itamar a usava para fazer música. Uma música impetuosa, irreverente e de personalidade única. 


Filho da contracultura, Itamar Assumpção fez parte do movimento que ficou conhecido como Vanguarda Paulista. Trata-se de movimento cultural nascido entre as décadas de 70 e 80, cujo ideal político-estético partia de uma produção independente, isto é, distante das regras ditadas pela indústria musical e dos modismos reducionistas do mainstream cultural. Assim, os integrantes do grupo fizeram do Teatro Lira Paulistana, em São Paulo, o palco principal de suas inquietudes, a partir da montagem de espetáculos teatrais e musicais que davam vida aos projetos heterogêneos - porém igualmente potentes - de nomes como os de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Língua de Trapo, Premeditando o Breque e, claro, Itamar Assumpção.

Ao longo de toda a carreira, Itamar permaneceu fiel a esse espírito, tendo lançado grande parte de seus discos por selos independentes. Sua produção musical foi marcada pela mistura de ingredientes do funk, reggae, rock e MPB, além do samba, grande paixão desde os cultos afro-religiosos presenciados na infância e explicitada em seu disco em homenagem a Ataulfo Alves, Pra sempre e agora, de 1996. 

Some-se a essa sonoridade miscigenada uma poesia contundente e discursiva, de frases curtas e rimas inusitadas, privilegiando sempre o ritmo, soberano incontestável de sua produção musical. Poesias feitas quase sempre sob a ótica de deliciosa irreverência, passando ora por letras bem humoradas, ora por assuntos tão universais quanto o amor ou temas tão tristes e brasileiros quanto as injustiças sociais e o racismo. Essas canções, muitas feitas em parceria com Alice Ruiz, Alzira Espíndola e Ná Ozzetti (parceiras mais recorrentes), estão espalhadas tanto por discos inesquecíveis de Itamar, como Às próprias custas, Sampa Midnight e Bicho de Sete Cabeças (volumes I, II e III), quanto pela obra de alguns intérpretes atentos à força arrebatadora desse artista que foi chamado de “Hendrix da Vila Madalena” mesmo sem tocar guitarra. 


Em pouco mais de vinte anos, Itamar Assumpção construiu uma obra vigorosa e cheia de vitalidade, porém (e talvez por isso) sem concessões aos ditames comerciais da indústria cultural brasileira. Para sempre iconoclasta e inconformado, morreu “maldito” e desgostoso com os rumos da cultura nacional, como explicitou na letra de Cultura Lira Paulistana, lançada em 1998 no álbum Pretobrás

Pobre cultura como pode se segura
Mesmo assim mais um pouquinho
E seu nome será amargura ruptura sepultura
Também pudera coitada representada
Como se fosse piada
Deus meu por cada figura e compostura
Onde era ataulfo tropicália
Monsueto dona ivone lara campo em flor
Ficou tiririca pura...

Mas hoje, mesmo depois de sete décadas de seu nascimento e mais de dez anos de sua morte, a música de Itamar Assumpção continua ressoando e resistindo através de vozes como as de Zélia Duncan e Ney Matogrosso, intérpretes fundamentais de sua obra, e de Anelis Assumpção, sua filha, também cantora e compositora, que não esconde suas raízes na hora de fazer música. 

Afinal, Itamar não precisa estar aqui fisicamente para ser ouvido. Está aí Benedito João dos Santos Silva Beleléu, quebrando vidraças e arrombando portas, berrando para ser escutado. 

Neste caso, é melhor não contrariar: escute Beleléu, vulgo Nego Dito, vulgo...Itamar Assumpção


Texto por: Tito Guedes 


Referências: 

  • ITAMAR Assumpção. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12536/itamar-assumpcao>. Acesso em: 27 de Ago. 2019. Verbete da Enciclopédia.

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