Música

"Lágrimas", de Paulo César Feital e Lucas Bueno

quarta, 10 de julho de 2019

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Lágrimas e beijo de um Brasil denso, por Fábio Fabato:

Certa feita, alguém proclamou que o Brasil deu certo justamente porque havia sido pensado para dar errado. Sim, como grande projeto forjado a partir do erro humanitário primordial...  Dera certo até em demasia, ora, pois! Ou seja, certo porque tinha sido o errado de propósito e pra cacete, repartido na régua, em capitanias de pais brancos para os filhos também clarinhos, oligarca nas entranhas, nas vísceras, na alma. E foi assim o passo a passo, este certo a partir do massacrante destino errôneo aos seus. Aliás, uma saga de tal modo construída desde as naus cabralinas. Estas, aliás – contam-nos de modo mal contado no colégio –, chegaram aqui por acaso. Como se terra rica fosse descoberta num mero sopro descuidado, em meio ao perfume financeiro de açúcares que bailavam com as velas no mar bravio... 

Bem, venceram os que decodificaram como certa a história errada. Ocorre que quando posicionamos a lente de aumento sob a tapeçaria continental que Joãosinho Trinta definiu como coração ou bunda – a depender do ângulo de visão – percebemos que, nas misturas, sabores e olores, o Brasil também deu muito errado na construção do tal (suposto) certo de poucos donos. E é aí que está certo barato de nossas inversões e certezas erráticas. Viver aqui é, antes de tudo, um auto de revolução. Ora, ao contrário do que nos impuseram pela via da força e como vergonha, miscigenamos e, autofágica e antropofagicamente... “Fizemos o carnaval”. Erramos à beça – e que bom! – no seio da lógica dos encastelados opressores. Acertamos ao preencher de alma e percussão o Brasil denso. Viva! 

Certo Feital (aqui, certo é adjetivo e – de fato – irmão gêmeo de correto), o Paulo César poeta e sabedor das coisas nossas, e o fabuloso Lucas Bueno, de musicalidade apaixonantemente vigorosa, derramam lágrimas que mais parecem encontro etéreo entre o Amazonas e o Velho Chico. E que, então, se enamoram do Doce ainda transparente, do Guaíba e seu pôr do Sol indefinível, para uma cinematográfica desembocadura na Guanabara – porta de entrada e boca de cena da outrora capital. Este trabalho é brasilidade como grito político e transgressão. Se o poder ora nos invade com reformas castradoras, se os aparelhos estatais impõem ideologias que enganam os humildes, neste ATO – e cá reclassifico a obra – os autores se armam de encantaria e vasculham o que de mais errado nós, o povo, fizemos aos olhos dos certinhos engomados dos castelos. A bem da verdade, acertamos foi muito e não nos deixaram revelar. 

A dupla mira e atinge o alvo ao dizer sem pudores que o país pode e deve se orgulhar das suas colombinas mimosas, das lições do eterno Darcy, do jongo, dos cabarés, das tribos, dos unguentos que sequestram a dor de feridas e fendas. Eis um disco para provar o tesão que representa o batuque, dilacerar das algemas castradoras nos corpos dominados, evocando sujeitos altíssimos que, seja de braços abertos sobre a colina do Corcovado, seja no terreiro, no mato, seja fevereiro ou janeiro, Tupã ou Iansã, protegem este torrão multiétnico. Somos realmente fodas. E urremos alto porque está foda viver num país que tanto assassina. A arte existe porque a vida não basta. E sobre nosso chão, ela, a vida, custa um preço irrisório. 

Em “Lágrimas”, há sambas, choro, marcha, baião, toada. Até pão com goiabada. Feital e Bueno não economizam em Brasil. Convidam até o mestre João Nogueira, morador do infinito, para a roda. Águas que rolam face abaixo de forma dolorosa em alguns acordes, redentora em outros, e até com gosto de utopia, vá saber. Lágrimas de rebatismo, ressignificação, o grito selvagem primordial do dono da terra, que entendia a alma dos saguis, tinha pai entre os Tupis, mas perdeu o trono da nação para os fuzis. Enquanto nossos museus inda pegam fogo, que os fluidos subam e se espalhem, despertando do sono o Gigante. Sintam o poder incendiário da criação livre do cancioneiro popular brasileiro. 

Selo com um beijo, nada mais.


"Lágrimas", por Hugo Sukman:

“Lágrimas” saem dos olhos que miram e veem o Brasil, como pedia Riobaldo a seu interlocutor (que somos todos nós, seus ouvintes). 

Pois o senhor, seu ouvinte... mire e veja: as dez canções que como lágrimas brotam dos olhos (e das mãos, e do peito, e do pau, e da cabeça) de Lucas Bueno e Paulo César Feital nascem dessa secreção tão liquida e lírica, a lágrima, mas são compostas de tantas secreções do Brasil. 

Das que saem das “vulvas traquinas de Vila Mimosa”, seus “sexos banhados com leite de rosas”, e a dos “Severinos, Josés, Agripinos/Que gozam a quinzena que ganham na obra”. É o tal “esperma de tupiniquim”, ou de lusos ou de negros, deixados no ventre da “quenga mais gentil”, a mátria amada, “a doce puta que os pariu”. Bem como o sangue e os líquidos que saem nos partos naturais quando a doce puta que é o Brasil dá à luz seus filhos, “Arlequins/Cartola, Nelson e Jacob do Bandolim/Meus Darcys, meus Zumbis/Donga, Ismael, Noel e Pizindim”, ou suas filhas, “Minha menina que nasceu no Gantois/Beth, Bethânia, Clementina, Elis, Fafá/A Divina, Áurea Martins...”. É “a água de icaraí, e irapuan” com a qual nos consagra Raoni, secreção da própria terra de Pindorama. É o cuspe de desprezo da freira no pequeno ladrão que se transforma em saliva de extrema-unção e transborda do olho da criança com fome de pão com goiabada (e é também o beijo materno de batom, o melado do beijo, em sua bochecha de vida abandonada, linchada, sangrada no meio da rua). É a secreção que brota da pele queimada no circo que arde. Ou as vísceras expelidas do ventre do pai “que ficou no gume/De uma peixeira num tapume/No chão de um puteiro em Quixadá”. É, enfim, o “sangue, o suor brasileiro”. Ou, ainda, “é lágrima que inunda o sertão”

Velho malandro da música brasileira, Feital percebeu nas exuberantes melodias do muito jovem Lucas Bueno – todas feitas sobre ritmos e gêneros brasileiros, sambas, choro, baião, marcha-rancho, jongo – essa qualidade de água de rio caudaloso, aquela que rasga terra, ignora barreiras até chegar no mar, só para continuar na metáfora do jorro, do pranto como do gozo, tão apropriada a este disco.

De gerações distintas – Feital daquela que a consagrou, Lucas da que vem percebendo nela uma força de expressão contemporânea – ambos notaram que a linguagem multifacetada da moderna canção brasileira ainda (ou já) é a ideal para se redimensionar as tais identidades brasileiras em tempos tão difíceis como os que correm. Não por acaso, abre o disco o “Samba pra Darcy Ribeiro”, um samba exaltação de feitio clássico, que usa o nome e as ideias de um dos grandes intérpretes (ou inventores) do Brasil para defender um país popular (“Mais Chalaça que Pedro I/Mais cachaça, mais moela/Mais costela no braseiro”), combativo (“Índios, gays, mulheres, negros/Sob o céu desse cruzeiro/É preciso resistência em solo brasileiro”), sincrético (“É Jesus braços abertos/Sobre os Exus catimbeiros/Que vivem dando risada/Apesar do desespero”) e orgulhoso (“Se a Europa é tão bela/O Brasil é do caralho”). É como um manifesto.

Vem no mesmo espírito, de se imiscuir nas vísceras do Brasil imaginado, a marcha-rancho “Colombinas de Vila Mimosa”, em que putas e clientes são na verdade brasileiros personagens de Guimarães Rosa (pois “Mire veja”), Ariano Suassuna, Jorge Amado, outros inventores de um país novamente plasmado pela canção popular. 

Seja no jongo “Setembrina” (criado a partir de um refrão deixado por João Nogueira); no samba-choro “Cambucá” que os mestres do gênero Claudionor Cruz e Pedro Caetano assinariam e Orlando Silva gravaria não fosse aqui tão lindamente cantado por Nina Wirtti; na valsa brasileira “Camaçari”; no trágico baião “Pão com goiabada”; na moderna e dissonante canção “Anjo torto”, ou mesmo na canção mais clássica e grandiosa “Palhaços”, tudo que se busca aqui são cacos de um país aparentemente estraçalhado e que sua música popular tem a nada simplória ambição de reconstruir. 

O samba, linguagem preferencial dos compositores que vivem o Brasil no Rio, aparece sempre de forma urgente, seja na denúncia do país que deixa “Extinguir/Toda a memória nacional” em “Dom Pedro das Flores”, ao puro e direto samba de protesto “É foda”, a música brasileira, como também é de seu feitio, testemunha de seu tempo, dizendo das incertezas deste 2019.

Tocado e arranjado por muito jovens músicos da cena carioca, com participação de cantores contemporâneos perfeitos como Nina Wirtti, Soraya Ravenle, Moyseis Marques e Claudio Nucci, mesmo assim o que chama a atenção neste disco é o canto sentido, emotivo, cheio de lágrimas, a voz como querendo agarrar a canção do velho Paulo César Feital e do jovem Lucas Bueno, que parecem irmãos quando cantam. Ou, como aquele beija-flor verde amarelo de “Cambucá”, quando cantam eles parecem sugar com volúpia por entre as coxas do Brasil a sua flor de manacá. 


P.S.: Notem a coragem que é, hoje em dia, em que essa expressão anda tão desgastada, começar um disco com o verso “Sou brasileiro”. E terminar com “Do amor brasileiro”. Pois é disso que se trata, e daí que se vem. Mire e veja. 



Imagens: foto Divulgação

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