Resenha de Samba

Livro Faz Justiça à Grandeza de Cuiqueiros dos Primórdios

segunda, 22 de abril de 2024

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J. Muniz Jr. e Paulinho Bicolor lançam obra originalíssima sobre sambistas do início do sec. XX

Já está à venda o aguardado livro “Cuícas Imortais - De João Mina à Boca de Ouro - vol. 1”, que reúne perfis biográficos de cuiqueiros e cuiqueiras pioneiros do início do século XX. Escrito a 4 mãos por J. Muniz Jr. (“Do Batuque à Escola de Samba”, 1978) e Paulinho Bicolor (“Mapeamento das Informações Relativas à Cuíca (IRCs) Disponíveis em Fontes Bibliográficas”, 2016), a obra é uma imersão nos primórdios do Samba. O lançamento será dia 27/04 na Livraria Realejo, em Santos e no dia 04/05 na Livraria Folha Seca, no Rio. Esta obra-prima é um lançamento da Mórula Editorial e pode ser adquirida em seu site clicando aqui.

Obra compila perfis biográficos de 12 cuiqueiros pioneiros | Mórula Editorial

Pertencente à enorme família dos tambores de fricção, a cuíca é um instrumento musical que produz efeitos encantadores. No Brasil, a partir da escravização de homens e mulheres oriundos da África, alguns desses tambores, como o “vu” e a puíta (antepassados da cuíca), passaram a imperar em diversos tipos de batuques afro-brasileiros, ganhando um novo contexto: era o lamento lânguido e sofrido do negro, era a saudade de seu torrão, de seus ancestrais.

Com o fim da escravização e o advento da República no Brasil, o Samba passou a ser um espaço sociocultural da negritude que se enriquecia simbolicamente cada vez mais nas grandes cidades. Embora perseguido e marginalizado, o Samba sempre foi um meio festivo, uma reconexão ancestral espiritual. E lá estava a cuíca, fazendo o centro desses memoráveis encontros com seus roncos marcantes e inigualáveis.

Cuíca faz o centro do Samba | Ilustração de Monteiro Filho, 1933

Ao longo dos séculos de sua formação, o Brasil se constituiu numa sociedade altamente racista. Nesse cenário, o povo negro soube resistir e métodos passaram a ser adotados a fim de que suas práticas socioculturais tivessem continuidade e a sua ancestralidade fosse fortalecida. 

A trajetória de transformação da cuíca é um retrato histórico exemplar de como o povo negro soube triunfar perante a esta sociedade repressora e hostil. Em Cuícas Imortais - Volume 1, por meio de perfis biográficos de seus instrumentistas, os pesquisadores e cuiqueiros J. Muniz Jr. e Paulinho Bicolor apresentam um aspecto exato desse racismo que acabou se estruturando.  

Nesta obra, os autores documentam as diversas transformações nas quais a cuíca passou ao longo de sua história pelas mãos de seus artífices. Isso só foi possível graças a um conjunto de estratégias para que ela pudesse permanecer sendo tocada nas rodas de Samba. Ao reunir perfis biográficos dos protagonistas pioneiros dessa saga como Bide, Dalila, Deovirgilio, Manoel Quirino e outros magos da cuíca, Muniz e Bicolor propõem ao leitor uma viagem no tempo. 

Dalila da E. S. Vê Se Pode do Morro de São Carlos representa as mulheres cuiqueiras na obra de Muniz e Bicolor  | A Noite Illustrada, 1932

A cuíca que conhecemos hoje não nasceu pronta, foi se moldando ao toque de cada cuiqueiro e cuiqueira, a cada esquentar de couro de João Mina, a cada molhada de pano de Oliveira, a cada tipo de fraseado de Boca de Ouro, a cada fricção de gambito de Ministrinho, a cada acarinhada em seu couro de Generoso. São esses cuiqueiros outrora esquecidos no limbo da história que hoje finalmente têm a sua trajetória de glórias, mas também de sofrimento, narrada pelos abnegados cuiqueiros e pesquisadores.

Entretanto, é preciso pensar a cuíca para além de todos esses aspectos socioculturais. A bem da verdade, o poder da cuíca transcende a emissão de seu som e a originalidade dos fraseados dos cuiqueiros e cuiqueiras imortais. É preciso pensar a cuíca também como um instrumento de sociabilidade. Nada mais representativo nesse contexto do que a forma como os autores do presente livro se conheceram. 

Paulinho Bicolor, jovem músico, cuiqueiro apaixonado e pesquisador profundo do tema, em conversa com o sambista Osvaldinho da Cuíca, foi alertado que não poderia deixar de conhecer o cuiqueiro emérito e consagrado historiador do Samba, J. Muniz Jr., autor do pioneiro ensaio “Estudo da Cuíca” (1976). Desde então, ao longo de mais de uma década, Paulinho e Muniz firmaram sólida amizade. 

Autor da obra junto com Paulinho Bicolor, J. Muniz Jr. é cuiqueiro de antigos Carnavais | Acervo J. Muniz Jr.

Por essa razão, Muniz e Bicolor, com elevada gratidão, dedicam este livro a Osvaldinho, que apadrinhou esta amizade de frutos literários, sob as bênçãos da cuíca. Isso comprova que a cuíca é um instrumento de sociabilidade formidável, capaz de criar laços afetivos entre pessoas, o que fica mais que evidente com a produção desta ilustríssima obra, de originalidade pujante. 

No universo do Samba, é comum que ganhem fama o compositor, intérprete, casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, diretores de Escolas de Samba e alguns passistas. Porém, os operários do Samba, isto é, aqueles que garantem o seu ritmo, na maior parte das vezes, padecem na sombra do esquecimento da história. É preciso colocar o presente livro em perspectiva, afinal, ele não é apenas original pelo fato de se propor a traçar perfis biográficos de cuiqueiros e cuiqueiras. A obra de Muniz e Bicolor é original também porque homenageia os anônimos do ritmo Samba.