Amigo ao Peito

Manhãs de Setembro

domingo, 15 de novembro de 2020

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A Rádio Relógio ficava tiquetaqueando e passando informações fundamentais:

-Você sabia? A formiga consegue carregar até 50 vezes o seu próprio peso. Você sabia? Depois do sol, quem ilumina seu lar é a galeria Silvestre. Galeria Silvestre, a galeria da luz.

E tome tique taque. Faltando exatamente 1 minuto para as sete da manhã, havia o alerta:

-Atenção, senhores afinadores de piano. Em alguns segundos emitiremos o Lá fundamental de 440 Hz.

E apitavam um Lá nos nossos ouvidos. As raras vezes em que o ouvia era motivo de enorme alegria: significava que havia perdido a hora. O Walter, chefe de disciplina, não tolerava atraso.

Meu pai me levava de carro para o colégio. Morávamos na Tijuca, meu Pedro II ficava em Botafogo, e íamos, eu sonado e ele também, mas um pouco menos, pois estava dirigindo. Naquele tempo, em que os dinossauros ainda passeavam sobre a terra, esse trajeto demorava uns 10, 15 minutos. O trânsito era leve, poucos carros, o fusquinha – dito “foscão”, pois não pegava mais brilho – ia pererecando pela rua.

Aquele carrinho merece um capítulo só seu. Meu pai o alugara algumas vezes, até decidir comprá-lo. Sua placa era 21-72-60, com a chegada do código alfanumérico virou CB-7260. Um ano mais novo que eu, estava decididamente em pior estado. Meu pai mantinha dois pitocos de madeira dentro para quando chovesse. O passageiro pisaria neles, mode não molhar os pés, dados os buracos no chão. Havia as gracinhas:

-Tira o velocímetro e bota um calendário!

-Vende pra Kibon pra ela derreter e fazer o sorvete Ki Merda!

Mas íamos, impávidos, pelas estradas da vida. A São Paulo fomos diversas vezes, sempre saindo às 4 da manhã do sábado e voltando no final do domingo. Numa dessas vezes, numa chuva torrencial, o limpador de para-brisas quebrou. Amarraram um barbante e minha mãe ficava puxando para ele mais ou menos limpar o vidro. Em dado momento, meu pai resolveu seguir um caminhão, pois só conseguia enxergar suas luzes. Se o caminhoneiro rolasse por uma ribanceira iríamos junto. Quase isso: paramos na porta da casa dele que, intrigado, veio checar que perseguição era aquela.

Mas estamos indo para o colégio, e o rádio ainda estava sintonizado na Tamoio. Só mudaríamos para a Relógio quando começasse o noticiário, com “Ramos Calhelha reportando”. Significava que faltavam 5 para as 7, e o acelerador seria pisado ao ritmo do tique taque da outra rádio.

Mas a Tamoio tinha uma programação musical bacana, músicas de sucesso da época. Eles davam nomes às músicas, de cores ou flores, e a música de maior sucesso no momento era chamada de “Música Ciclamem”. Naquele ano a música que mais vezes ocupou o honroso posto foi “Manhãs de Setembro”, interpretada pela Vanusa, que acaba de nos deixar. Ela se vai no dia do aniversário do seu amado Antonio Marcos, coisa que parece ser comum, morrer em dias significativos de pessoas que amamos. Amar não mata, mas ajuda a libertar.

Ainda hoje escuto essa canção, e ela sempre me devolve ao tempo em que eu e meu pai tínhamos cabelos pretos e íamos sacolejando no bravo fusquinha grená, numa época em que, como diria Pessoa, ninguém estava morto e a felicidade era uma coisa certa como uma religião qualquer.

Vai com Deus, Vanusa, obrigado.


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