Rolê Musical

"Maria Joana": Há 50 anos Erasmo Carlos lançou música que marcou reinvenção em sua carreira

sexta, 17 de setembro de 2021

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Há 50 anos, o rock brasileiro enveredou por uma trilha alternativa. Nada de iê-iê-iê românticos, como música de fundo pra namorinho de portão. Erasmo Carlos, combatente nas hostes do rock and roll até hoje, em 1971 lançou o que é considerado seu melhor disco, e um dos melhores da década de 70, "Carlos, Erasmo". Com esse LP, o “Tremendão” ficava no passado. Surgia um cantor e compositor sintonizado com seu tempo. Ele próprio concordava que, pela primeira vez, gravava um disco com um repertório que tinham a ver com a sua verdade.

Como raramente o faz, Erasmo revelou quem fez o quê nas seis parcerias dele com Roberto Carlos. Ele escreveu as letras, Roberto a melodia. Com pitacos mútuos em algumas delas. As canções tanto melodicamente quanto nas letras são um avanço para o que ele e o parceiro escreveram entre 1963 e 1969. Erasmo Carlos se reinventava. O álbum "Carlos, Erasmo" já aterrissou nas lojas envolto em uma polêmica, por causa da canção "Maria Joana", antecipada num compacto.  A associação era imediata: Maria Joana/marijuana. Erasmo apressou-se em desfazer a ideia de que fosse apologia velada à cannabis:

“Fiz a música para a filha de Nelson Motta que ia nascer. Isso, há mais de um ano e meio. A menina ia se chamar Maria Joana, mas acabou ficando só Joana. De minha parte não houve intenção, e mesmo que houvesse só seria intencional se eu tivesse no exterior. No Brasil jamais faria uma coisa dessas. Gravei a música apenas porque precisava lançar um disco compacto antes do novo LP e, como não tinha outra, gravei esta mesmo. A letra é minha, a música de Roberto”, comentou , na época, Erasmo Carlos, ao repórter Paulo Stein, da revista Intervalo.

Contextualizando, em 1971, o país vivia o auge da fase mais repressiva do regime militar.  A cultura convivia com a censura prévia. Os censores tinham o privilégio, que a maioria nem usufruía, de antes do público, ler livros, ver filmes, assistir a peças e shows, e conferir letras de música. Só 44 anos mais tarde,  Erasmo revelaria que a censura chegou junto dele por causa de "Maria Joana", mas na época desconversou. No álbum, "Maria Joana" é a faixa final, incluída com descrição, chamou atenção pelo nome, e até pela elaboração da música, que tem o acompanhamento da Caribe Steel Band, um grupo típico de calipso, formado por brasileiros e músicos caribenho.

Numa época em que a crítica musical engatinhava no Brasil, as opiniões de jurados de programa de TV, radialistas famosos davam as cartas sobre o que o público devia ou não ouvir. Acrescente-se que boa parte desta turma era simpática ao regime, a família,  a moral, religião, contavam para o julgamento de uma obra de arte. Curiosamente "Maria Joana" foi elogiada por Barros Alencar , cantor e radialista então bastante popular.  Alencar gravaria um composição de Dom (da dupla com Ravel), intitulada "Canção Anti-Tóxico".

TÓXICOS

"Maria Joana" chegou às lojas, exatamente quando o regime militar, enquadrava hippies e drogas como inimigos a combater. A juventude queria mudar o mundo, e começou por mudar a si mesma, com novas atitudes, hábitos, modo de viver. Hippies se tornaram alvo da repressão país afora. Publicações como Intervalo, revista de programação de TV, com matérias sobre os ídolos da época, entrou em sintonia com o governo. Acentuou no noticiário mortes por overdose de astros do rock,  Brian Jones, Jimi Hendrix ou Janis Joplin, ou de prisões por posse de drogas, caso do artista plástico Antonio Peticov, supostamente o primeiro detido no Brasil por posse de LSD.



Paradoxalmente, enquanto Erasmo Carlos cantava uma apologia sutil à maconha, seu amigo de fé, irmão, camarada, participava de campanhas do governo Medici para combater o uso de tóxicos ou entorpecentes (outra termo recorrente. A Polícia Federal anunciava, em outubro de1970, que Roberto Carlos aceitou participar de uma campanha, que usaria sua voz para combater o uso de entorpecentes pelos jovens. A campanha começou em novembro de 1970, quando um filme curto foi distribuído para 37 emissoras. Uma mensagem contra as drogas, com a música de Roberto Carlos ao fundo. Em 1971, Pelé juntou-se a Roberto Carlos para participar de um reforço da campanha, produzida pelo Ministério da Educação. Aliás, Roberto estava tão animado que se propôs a fazer, com Wilson Simonal, um show beneficente , no Canecão, a fim de levantar recursos para pagar o resgate, de 5 milhões de cruzeiros, exigido pelos Tupamaros, para libertar o embaixador brasileiro, no Uruguai, Aloísio Dias Guedes.

"Carlos, Erasmo" é cultuado pela geração nascida nos anos 90, que pouco conheciam sobre o cantor. Maria Joana não é a preferida desse pessoal, que prefere canções como "Dois Animais na Selva Suja da Rua" (Taiguara), ou "Preciso dar um Jeito Meu Amigo" (com Roberto Carlos). Em 2015, Erasmo Carlos voltou a cantar "Maria Joana", no DVD "Os Meus Lados B". A estas alturas do campeonato, aos 73 anos, em entrevista à revista Época, ele revelou que a música não tinha a ver coma filha de Nelson Motta: “Era a época do desbunde, eu queria seguir a filosofia hippie”.  Confirmou também que foi vítima da censura por causa da música: “Eu não podia cantá-la em shows, não podia tocar no rádio. A censura não deixava. Eu a havia escolhido para ser a música de trabalho do disco”.

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