Música

Mauro Senise lança 'Ilusão à Toa', álbum em homenagem a Johnny Alf
Por Roberto Muggiati

quinta, 08 de outubro de 2020

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A bossa nova – vamos combinar? – era uma turma superbacana de rapazes superliberais da classe média – até mulher entrava – mas um mulato homossexual filho de empregada como Johnny Alf tinha tudo para se sentir, de certa forma, um penetra entrando sorrateiramente pela porta dos fundos do celebrado clube. Isso, porém, simplesmente não aconteceu. Johnny era um músico tão genial (Tom Jobim o chamava de Genialf ) que comandava o respeito de todos aqueles iniciantes que no final dos anos 1950 iriam revolucionar a MPB. Pianista, cantor e compositor de temas criativos e inovadores, ele foi, praticamente sozinho, o precursor daquele movimento coletivo que teria seu marco inicial na gravação de "Chega de saudade", em 1958.  Com seus acordes diferentes, intervalos arrojados, o envolvente ritmo sincopado e sua maneira de encaixar a letra na música, ou vice-versa, repetindo sílabas de um jeito nada ortodoxo, Johnny era já de uma modernidade absurda ainda no tempo do samba-canção. Na lendária "A noite do amor, do sorriso e a flor" na Faculdade de Arquitetura da Praia Vermelha, no Rio, numa sexta-feira de maio de 1960, Ronaldo Bôscoli foi enfático ao anunciá-lo no palco: “Os verdadeiros entendidos na história da Bossa Nova não poderão estar esquecidos deste nome. Faz dez anos que ele toca música bossa-nova e por isto foi chamado muitas vezes de vigarista e de maluco. Johnny Alf!” Ruy Castro, nosso Homero da odisseia da bossa em busca de sua Ítaca-em-Ipanema, afirma categoricamente que Johnny Alf foi o "verdadeiro pai da Bossa Nova".

Foto: Reprodução

O pai de Johnny, um cabo do exército, morreu em combate durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Alfredo José da Silva tinha três anos e sua mãe era empregada doméstica numa casa da Tijuca. A patroa gostava do menino, apreciou seus pendores musicais no piano da casa e contratou uma professora para ele. Piano clássico, mas os ouvidos do infante (começou aos nove anos) eram mais chegados aos standards de Cole Porter e George Gershwin e a professora o incentivou na sua preferência. Bom aluno, foi admitido ao Colégio Pedro II, considerado um dos melhores educandários do Rio, e estudava inglês no Instituto Brasil-Estados Unidos, o IBEU, onde já participava de um grupo artístico. Foi lá que uma colega americana lhe sugeriu o nome de Johnny Alf. Em 1952, aos 23 anos, começou a carreira profissional tocando piano na Cantina do César (de Alencar, o radialista) por indicação de Dick Farney. Em 1952 lançou seu primeiro disco, um 78 rotações, com sua música "Falsete" e o tema de Luiz Bonfá "De cigarro em cigarro".

Alf reinou supremo no Rio até 1955 – principalmente no seu QG na Boate Plaza, em Copacabana – quando iniciou seu exílio paulistano, que duraria cabalísticos sete anos, até sua volta para o Rio em 1962. Foi para Johnny Alf que Vinícius de Moraes disse a frase famosa, numa boate paulistana em que grãfinos ruidosos o impediam de tocar: “Meu irmãozinho, pegue a sua malinha e se mande para o Rio de Janeiro, porque São Paulo é o túmulo do samba.” Depois de sua fase áurea, que ainda ocuparia parte dos anos 1960, Alf seguiu uma carreira de altos e baixos, menos por culpa dele – foram os tempos do rolo compressor do rock pauleira, funk, pagode, axé, sertanejo universitário e outros bichos. E em seus últimos anos apresentou-se pouco, por conta dos problemas de saúde. Sem família, morreu em 2010, aos 80 anos, num asilo de Santo André, em São Paulo. Mas sua memória – bem documentada em discos, filmes e vídeos – permanece viva junto àqueles que, como Senise, valorizam, em suas palavras, “a boa música brasileira.”

Com persistência taurina (70 anos em 18 de maio) Mauro Senise construiu uma obra respeitável com dezenas de discos nas últimas quatro décadas, e vem se tornando uma espécie de IPHAN da MPB, com os álbuns dedicados a Noel Rosa, Edu Lobo, Sueli Costa, Dolores Duran, Gilberto Gil e, agora, Johnny Alf. Mauro escolheu a dedo doze joias, todas compostas por Johnny Alf (excetuando as parcerias com Maurício Einhorn em "Disa" e Ronaldo Bastos em "Olhos negros"). Mauro escolheu também a dedo um elenco estelar para concretizar este difícil projeto em que – apesar do país e da hora adversa que vivemos – deu tudo certo, longa vida aos deuses da música! Um trio básico – Adriano Souza (piano), Bruno Aguilar (baixo) e Ricardo Costa (bateria) – atua em "Seu Chopin, desculpe", "Olhos Negros" (arranjos de Adriano), "Rapaz de bem" e "Céu e Mar" (arranjos de Roberto Araújo). Em "O que é amar", Bruno e Ricardo acompanham Cristóvão Bastos, piano e arranjo. Outro time entra em campo em "Disa", "Ilusão à toa" e "Podem falar": Jota Moraes (piano, vibrafone e arranjo), Jefferson Lescowich (baixo), Danilo Amuedo (bateria), Jaime Alem (violão), os percussionistas Fábio Luna e Mingo Araújo tirando de sua cartola de mágico truques geniais (ou genialfs, vamos adotar a palavra em nosso vocabulário?). Irmão de três décadas de música com Mauro, Gilson Peranzzetta comparece em duo ("Plenilúnio") e trio ("Nós", com o astral Villa-Lobos do seu arranjo reforçado pelo violoncelo de Sir David Chew). Uma última colaboração providencial se deveu à volta ao Rio do saxofonista Raul Mascarenhas, depois de décadas em Paris. Já em 1996 Mauro e Raul selavam sua parceria com o CD "Pressão alta" e sua participação juntos no Free Jazz do ano seguinte. Com arranjo de Roberto Araújo, "Céu e mar" é um tema instigante em que o tenor de Raul e o alto de Mauro encadeiam ideias nos respectivos solos e trocam compassos no final, evocando os tempos gloriosos de Pres e Bird no Jazz at the Philharmonic, a pioneira JATP de Norman Granz.