Coisas Nossas

Nas cordas de um genial Garoto
Capítulo 1

segunda, 28 de janeiro de 2019

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“Agora Chiquinho também é meu parceirinho!”1, bradava Vinicius de Moraes, orgulhoso, para Tom Jobim ao telefone. O poetinha não conseguia conter a euforia por ter acabado de compor sua primeira música com o jovem compositor Chico Buarque. A bem da verdade, a incontida alegria também era motivada pelos ciúmes que Vinicius nutria dos seus parceiros musicais. Apesar de ter composto cerca de 50 músicas com Tom Jobim, não se conformava por ainda não ter conseguido fazer sequer uma canção com Chico Buarque. Afinal, Tom e Chico já haviam composto três músicas juntos, e ele, que por ironia apresentara os dois, ainda não era parceiro de Chico.

Mas, a história desta parceria começa bem antes, nos anos 1930, época em que Vinicius conheceu e se tornou amigo do historiador Sérgio Buarque de Holanda. O poeta já contava com 31 anos de idade em 1944, quando Francisco Buarque, filho de Sérgio, nasceu. O menino Chico se lembra de ficar espiando os encontros entre seu pai e Vinicius, quando o compositor ia visitá-los. No entanto, a amizade entre os dois só se daria em 1965, quando a carreira de Chico despontava com seus primeiros sucessos, as músicas “Olê Olá” e “Pedro Pedreiro”. Porém, apesar da amizade, Vinicius e Chico demoraram a compor algo juntos. 

Desde o golpe militar de 1964, a questão política brasileira só vinha piorando. A situação se agravou bastante com a decretação do Ato Institucional n. 5, em 1968. Congresso fechado, políticos cassados, professores universitários afastados. As garantias individuais vinham sendo eliminadas.  Era a ditadura, agora escancarada, como bem escreveu Elio Gaspari. E os artistas não ficaram de fora desta fúria totalitária. Muitos foram presos e outros expulsos do país. Chico Buarque, por exemplo, não chegou a ser preso, foi apenas detido para “esclarecimentos”. Quem quisesse se ausentar do país tinha que pedir autorização aos militares. Como Chico tinha uma turnê agendada na Europa, aproveitou a oportunidade para se auto exilar na Itália.

Quando Vinicius acabou foi afastado de suas funções no Itamaraty, por suas posições políticas não agradarem o regime militar, Chico Buarque, já morando em Roma, convidou o poetinha para ser padrinho de sua filha Silvia, que estava prestes a nascer. Neste compasso de espera que antecedeu a chegada de sua afilhada, depois de muitas garrafas de uísque, Vinicius escreveu e apresentou a letra de uma música ao futuro compadre. Conta a lenda que ele “não conseguia” escrever os últimos versos da canção e com essa desculpa esfarrapada, pediu a Chico que “desse um jeitinho” na letra que acabara de fazer. Chico percebeu o “truque” do poeta e não quis mexer na composição. Alegava que a obra estava pronta, irretocável, e que não precisava dele para finalizá-la. Vencido pela insistência de Vinicius, que queria ter o amigo como parceiro a qualquer custo, Chico sucumbiu ao apelo e escreveu os versos: “Pela varanda, flores tristes e baldias, como a alegria que não tem onde encostar”, imediatamente aproveitados. Ali se refazia “Gente Humilde”.

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Como um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar
 
São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda, flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio peço a Deus por minha gente
Que é gente humilde, que vontade de chorar

A melodia de “Gente Humilde” tinha sido apresentada a Vinicius antes, pelo músico e compositor Baden Powell, entre 1961 e 1962. Vinicius, em depoimento2 no show Poeta, Moça e Violão, realizado no Teatro Castro Alves, em Salvador, em 1973, disse:

“Baden me deu essa música do finado Garoto, esse que ele considerava o grande mestre do violão de sua época. Eu fiquei condicionado pelo título por muito tempo, pois eu não queria trair a ideia do tema de Garoto...”.

Na época, Vinicius e Baden foram convidados a participar do programa O Fino da Bossa e começaram a fazer viagens regulares a São Paulo. Como tinham medo de avião, preferiam viajar de trem, apelidado carinhosamente de “avião dos covardes”. Quando os vagões passavam pelos subúrbios cariocas, a música de Garoto ressoava na cabeça do poeta, que conta: 

“Eu sentia aquele tema tão ligado aquele mundo empoeirado, àquela gente sem vez, aqueles velhinhos de pijama nas varandas. Eu sentia que naquele tema Garoto queria falar daquela gente do subúrbio, e eu só sei que um dia, há três anos, fui à Roma receber minha afilhadinha, a filha de meu compadre e querido amigo Chico Buarque, e nessa ocasião, um dia, em casa de Chico, o tema veio, as palavras saíram, eu chamei meu compadre, a gente juntou as cabeças e a canção saiu”.

A obra e o nome do falecido Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, estava praticamente esquecida até o final dos anos 1960, quando a música “Gente Humilde” foi gravada pela cantora Marcia acompanhada pelo violonista Baden Powell. A gravação acabou sendo usada na trilha sonora da novela Véu de Noiva, exibida pela TV Globo entre 10 de novembro de 1969 e 06 de junho de 1970. Foi a primeira vez que uma novela teve trilha sonora criada especialmente para a sua trama. O disco alcançou grande sucesso, chegando a vender 70 mil cópias, um marco para a época. “Gente Humilde” tocava nas cenas em que aparecia a família da personagem Andréa, interpretada por Regina Duarte, que vivia modestamente em um subúrbio do Rio de Janeiro. A música, no entanto, passou a ser muito mais conhecida a partir de 1970, com a gravação da cantora Ângela Maria. O próprio Chico também a gravou no mesmo ano para o seu disco Chico Buarque de Hollanda, vol. 4. De lá para cá, a canção já foi regravada mais de 160 vezes3.

O mais interessante é que a melodia original de Garoto, composta em 1945, é um pouco diferente da versão que ficou conhecida. A diferença é de apenas alguns compassos, fundamentais para a sua popularização. Baden Powell – que apresentou a música para Vinicius – aprendeu a melodia com o músico Zé Menezes – José Menezes França (1921-2014) –, multi-instrumentista que, por sua vez, recebeu a composição diretamente de seu amigo Garoto. O importante a destacar é que, nesse processo de transmissão oral, a melodia foi modificada. Por conta disso, foi alterada a harmonia de alguns compassos da canção. Alguma coisa se perdeu no caminho do sucesso entre Garoto e Vinicius. Mais surpreendente ainda é que canção original também tinha uma letra original, que provavelmente Vinicius desconhecia. A letra era a seguinte:

Em um subúrbio afastado da cidade
Vive o João e a mulher com quem casou
Em um casebre onde a felicidade
Bateu à porta foi entrando e lá ficou.
E à noitinha alguém que passa pela estrada
Ouve ao longe o gemer de um violão
Que acompanha
A voz da Rita numa canção dolente
É a voz da gente humilde que é feliz. 



1http://literatortura.com/2013/10/historias-tras-cancoes-vinicius-moraes/

2Site www.collectorsstudios.com.br/discos-de-vinil/triplo/vinil-poeta-moca-e-viol-o-vinicius-clara-nunes-e-toquinho.html

3Site www.memoriamusical.com.br


Este foi o primeiro capítulo da série "Garoto". Para ler o segundo capítulo, clique AQUI


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