Na Ponta do Disco

Ney Matogrosso, 80 Anos: Um Artista da Música Brasileira a Serviço da Liberdade
por Vinícius Rangel Bertho da Silva

sábado, 30 de outubro de 2021

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Não seria nenhum exagero afirmar que o mês de agosto de 1973 foi um dos períodos mais vibrantes do entretenimento musical no Brasil. Tal fato se explica porque foi naquele momento que um grupo jovem com três rapazes fortemente maquiados se tornou conhecido em todo o país graças à sua aparição em uma revista eletrônica que a Rede Globo estava lançando naquele momento. O programa se chamava Fantástico e o tal grupo era o Secos & Molhados.

Por detrás da máscara, havia uma criatura que surgiu com o intuito de confundir as mentes do Brasil inteiro que atendia pelo nome artístico de Ney Matogrosso. E descobriu-se que não havia nenhum artista da música brasileira que tivesse os seus atributos: um corpo masculino que emitia uma voz feminina e uma presença de palco que desconcertava o público por conta de sua maquiagem pesada (inspirada no Teatro Kabuki) e uma performance altamente sensual. Apesar das reticências dos mais conservadores em relação ao Secos & Molhados, crianças, adultos, idosos, intelectuais e o povão se apaixonou por aqueles três mascarados a tal ponto que fez do grupo o líder de vendagens de LPs entre 1973 e 1974, chegando a vender mais discos do que Roberto Carlos no mesmo período.

Todavia, por culpa dos conflitos de egos entre seus integrantes, o Secos & Molhados se separou logo após o lançamento do seu segundo disco, em agosto de 1974. Apesar da fama, Ney Matogrosso estava repleto de dívidas e decidiu sair em carreira solo, já que possuía uma vontade imensa de cantar o que existia de melhor em matéria de música brasileira. Em seu primeiro disco e show como solista – Água do Céu Pássaro | Homem de Neanderthal (1975) –, Ney gravou “América do Sul” (Paulo Machado), cujos versos “Deus salve a América do Sul / Desperta, ó claro e amado sol” são lembrados até hoje. Além de duas gravações com Astor Piazzola que só foram oficialmente incluídas no disco décadas após o seu lançamento, esse trabalho nos traz canções de João Bosco & Aldir Blanc (“Corsário”), Milton Nascimento & Ruy Guerra (“Bodas”), Sueli Costa & Tite de Lemos (“Açúcar Candy”) e alguns clássicos como “Mãe Preta (Barco Negro”) (Caco Velho & Piratini), do repertório de Amália Rodrigues, o que gerou severas críticas na época por conta da opção ao artista de interpretá-la no feminino.

Foi em seu segundo disco, Bandido (1976), que Ney Matogrosso consolidou sua imagem artística no imaginário coletivo. Liberto da maquiagem pesada e da aura de bicho selvagem, o delinquente encarnado pelo artista não oferecia nenhum tipo de perigo para a ordem pública e conseguiu emplacar seu primeiro sucesso nacional como intérprete solo. Pelo contrário, Ney levava bastante a sério os versos que Rita Lee lhe dedicou e que foram eternizados na voz do ex-vocalista do Secos & Molhados: “Eu já sou um cara meio estranho / Alguém me disse isso uma vez / Meu coração é de cigano / Mas o que salva é a minha insensatez”. 

O segundo show individual de Ney Matogrosso estreou em um palco altamente incomum para a ocasião: a Penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro, por escolha dos próprios detentos, que viam em Ney a personificação da liberdade. Tempos depois, a turnê Bandido passou por várias cidades do país, desafiando a censura e a moral conservadora da Ditadura Militar. O espetáculo não continha apenas canções gravadas no disco – “Gaivota” (Gilberto Gil), “Mulheres de Atenas” (Chico Buarque & Augusto Boal) e “Usina de Prata” (Rosinha de Valença) –, como também obras inéditas na voz de Ney como “San Vicente” (Milton Nascimento & Fernando Brant), “Metamorfose Ambulante” (Raul Seixas) e “Retrato Marrom” (Fausto Nilo & Rodger Rogério), gravadas em Pecado (1977), disco com canções que faziam parte do show e que não tinham sido gravadas até então.

Em 1978, Ney Matogrosso deixou a gravadora Continental e passou a gravar na Warner, recém-instalada no Brasil. Sob a batuta do produtor Marco Mazzola, Feitiço é resultado de uma superprodução: gravado no Brasil e nos EUA, o álbum nos brindou com uma versão disco de “Não Existe Pecado ao Sul do Equador” (Chico Buarque & Ruy Guerra) e “Bandoleiro”, da dupla Luhli & Lucina, cujos versos “Eu / Bandoleiro / No meu cavalo alado / Na mão direita o fado / Jogando sementes / Nos campos da mente” caíam como uma luva para a persona encarnada por Ney, que sempre carregava um misto de “magia, sonho e fantasia” no corpo e no olhar. Sem deixar de esquecer dos clássicos da música brasileira, o disco nos traz uma belíssima gravação de “Tic Tac do Meu Coração” (Alcyr P. Vermelho & Walfrido Silva), canção originalmente interpretada por uma das maiores referências artísticas de Ney: Carmen Miranda.

Seu Tipo, quinto trabalho solo do artista, foi lançado em 1979 e era o projeto mais ousado de Ney Matogrosso até então, já que ele resolveu incluir uma coleção de canções que celebravam as diversas formas de amor – o prazer carnal, a compaixão pelo próximo, as torrentes de paixão. O repertório inclui canções de Eduardo Dussek, Joyce e Tom Carlos Jobim, além de “Tem Gente com Fome”, poema de Solano Trindade musicado por João Ricardo e que fazia parte do repertório original do Secos & Molhados e que nunca tinha sido gravada por motivos de censura. Seguindo a lógica de trabalhos anteriores, a turnê desse disco gerou Sujeito Estranho, álbum lançado por Ney em 1980 com canções do repertório do show que não tinham sido gravadas no ano anterior.

O ano de 1981 foi crucial para a trajetória musical de Ney Matogrosso. Ele começou a gravar em uma nova gravadora (BMG Ariola) e manteve a parceria com Mazzola, que lhe pediu um novo hit, já que os discos de Ney não vendiam tanto. O forró “Homem com H”, de Antônio Barros, já tinha sido gravado em 1980 pelo trio Os 3 do Nordeste, porém tornou-se conhecido em todo o país na voz do intérprete de “Bandido Corazón”, cuja figura cênica inspirou os versos de Barros, que satirizam a masculinidade tóxica, tão presente nos lares e nas ruas do Brasil: “Nunca vi rastro de cobra / Nem couro de lobisomem / Se correr o bicho pega / Se ficar o bicho come / Porque eu sou é home / (...) / E como sou // Eu sou Homem com H / E com H sou muito home / Se você quer duvidar / Olhe bem pelo meu nome”. A canção foi um dos maiores sucessos do disco Ney Matogrosso, que reuniu outras pérolas da música brasileira do período: “Deixa a Menina” (Chico Buarque), “Folia no Matagal” (Eduardo Dussek & Luiz Carlos Góes), “Viajante” (Thereza Tinoco), “Amor Objeto” (Rita Lee & Roberto de Carvalho) e “Vida Vida” (Guilherme Maia, Moraes Moreira & Zeca Barreto) fizeram bastante sucesso nas rádios e nos palcos.

A partir do ano seguinte, Ney investiu fortemente em trabalhos Pop, que lhe renderam bastante sucesso nas rádios, nos palcos e nos programas de TV. A opção de escolher a produção de artistas mais jovens como Marina Lima & Antônio Cícero, Cazuza & Roberto Frejat, Leoni e Paulo Ricardo (expoente do Rock Brasileiro dos anos 1980), sem deixar de gravar seus contemporâneos da ala da “MPB” ou os clássicos dos anos 1940 e 1950 foi uma decisão bastante acertada. Os álbuns Mato Grosso (1982), ...Pois é (1983), Destino de Aventureiro (1984) e Bugre (1986) se tornaram célebres por conta de gravações como “Tanto Amar” (Chico Buarque), “Uai, Uai” (Rita Lee & Roberto de Carvalho), “Pro Dia Nascer Feliz” (Cazuza & Frejat), “Vereda Tropical” (Gonzalo Curiel) e “Balada do Louco” (Arnaldo Baptista & Rita Lee). Logo após o lançamento de seu 11.º álbum, Ney Matogrosso interrompeu a sequência de sucesso e decidiu buscar novos rumos para a sua carreira musical, cancelando a turnê de Bugre a poucos dias da estreia.

Pescador de Pérolas (1987) foi uma guinada radical na obra de Ney Matogrosso, pois o intérprete se despiu de maquiagem e figurinos chamativos e decidiu cantar um repertório sóbrio com apenas clássicos nacionais e internacionais, sem direito a rebolados ou gestos extravagantes. Para este projeto, Ney escolheu um time extraordinário de músicos para a sua banda: Arthur Moreira Lima (Piano), Paulo Moura (Sax alto e soprano), Chacal (Percussão) e Rapahel Rabello (Violão). O resultado foi um espetáculo sério e requintado, na contracorrente do Pop Rock que se ouvia nas rádios da época. Apesar das críticas negativas de sua gravadora na época (CBS), o artista não abriu mão de sua liberdade de trabalho e não hesitou em lançar o disco com os melhores momentos daquele show. Dentre as 13 canções do álbum, destacam-se “O Mundo é um Moinho” (Cartola), “Dora” (Dorival Caymmi), “Alma Llanera” (B. Coronado & P. E. Gutiérrez), “Besame Mucho” (C. Velasquez), “Mi Par d’udir Ancora” (G. Bizet) e “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso).

Por conta das tensas relações entre os executivos da CBS e Ney Matogrosso, o álbum de inéditas Quem Não Vive tem Medo da Morte foi lançado em 1988 sem uma campanha de promoção por parte da gravadora. O repertório se equilibrou entre o Pop, a “MPB” e autores desconhecidos do grande público: “Vamos pra Lua” (Piska & Ronaldo Bastos) se encontrava com “Dama do Cassino” (Caetano Veloso), “Todo o Sentimento” (Chico Buarque & Cristóvão Bastos) e “Chavão Abre Porta Grande” (Itamar Assumpção & Ricardo Guará), resultando em uma coleção de 10 gravações bastante ousadas para aquela época. Como consequência dos embates entre artista e gravadora, Ney decidiu não contar nenhuma das canções desse disco em seu show de 1989, que era uma celebração dos seus primeiros 15 anos de carreira solo. O disco Ney Ao Vivo, que reuniu os melhores números dessa turnê, resgatou sucessos de outros discos, além de canções inéditas no setlist como “Comida” e “O Beco”, originalmente gravadas pelos grupos Titãs e Paralamas do Sucesso.

Um convite inusitado gerou uma das turnês mais duradouras da carreira de Ney Matogrosso: ao inaugurar uma churrascaria com um show em formato de “Voz e Violão”, o artista decidiu convidar o violonista Raphael Rabello para dividir o palco em 1990, ficando por mais de dois anos em cartaz. O encontro de gigantes resultou em À Flor da Pele (1991), um  recital marcado pela intensidade das interpretações de Ney e pelos solos lancinantes de Raphael para obras antológicas de nosso cancioneiro como “Três Apitos” (Noel Rosa), “Na Baixa do Sapateiro” (Ary Barroso), “Negue” (Adelino Moreira & Enzo de Almeida Passos), “Retrato em Branco e Preto” (Tom Jobim & Chico Buarque), além de “Autonomia” e “As Rosas não Falam” (Cartola). 

No ano de 1993, o artista passou a gravar pelo selo PolyGram (antigamente Philips; hoje, Universal Music), mantendo a longa parceria de trabalho com o produtor Marco Mazzola. O primeiro disco dessa leva foi o belíssimo As Aparências Enganam, parceria de Ney Matogrosso com o grupo instrumental Aquarela Carioca – Lui Coimbra (Violão, violoncelo e charango), Mário Sève (Flauta e saxofones), Paulo Muylaert (Viola e flauta). O repertório desse trabalho inclui uma variedade de estilos da música brasileira, tais como: “FM Rebeldia” (Alceu Valença), “A Tua Presença Morena” (Caetano Veloso), “Pavão Mysteriozo” (Ednardo), “O Vendedor de Bananas” (Jorge Ben), além da faixa-título (Tunai & Sérgio Natureza), composta especialmente para a voz de Elis Regina).

A década de 1990 foi marcada pela AIDS, uma das epidemias mais avassaladoras da história da humanidade. Ney Matogrosso foi marcado por perdas pessoais irreparáveis para o vírus HIV: a de Cazuza (seu amigo e ex-namorado), a de Luiz Clericuzzi (seu secretário e fiel escudeiro) e a de Marco de Maria (seu companheiro por 13 anos), para não citar outras. Em 1993, Ney tinha sido convidado para dirigir o Prêmio Sharp daquele ano, que estava homenageando  ngela Maria e Cauby Peixoto. Impressionado pela beleza do repertório da eterna Sapoti e ferido pelas perdas no plano pessoal, o disco lançado pelo artista em 1994 não apenas é um tributo a uma das maiores vozes de nosso país, como também é uma discreta homenagem a quem tanto amou. 

O álbum Estava Escrito (1994) trouxe 13 releituras do repertório de Ângela Maria e rendeu um dos espetáculos mais belos de toda a carreira de Ney Matogrosso. No entanto, o intérprete decidiu inserir as canções passionais que ganharam o mundo por meio da voz da Sapoti com uma roupagem cool, dando uma estética típica de filme noir, contrastando com a sonoridade das canções que se ouviam nas rádios dos anos 1950 e 1960. As contribuições musicais de Leandro Braga (Piano), Márcio Montarroyos (Sopros), Bruce Henry (Baixo acústico), Zero (Percussão) e Fábio Nin (Violão) foram bastante significativas para que o projeto não soasse datado. As interpretações de Ney para "Babalú" (Margarita Lecuona), “Recusa” (Herivelto Martins), “Escuta” (Ivon Cury) e “Beijo Roubado” (Adelino Moreira) – essa, apenas no show – demonstram como ele conseguiu se revelar como um artista singular, dosando as emoções de forma certeira e eficiente.

Os dois projetos seguintes de Ney Matogrosso se basearam em tributos a três grandes compositores da música brasileira: Chico Buarque, Tom Jobim e Heitor Villa-Lobos. Um Brasileiro foi lançado em 1996 e deu origem a um dos espetáculos mais aclamados da carreira do artista, que surgia com vestimentas de malandro na primeira parte do show. Esse trabalho foi o último disco de Ney que foi produzido por Marco Mazzola, encerrando uma parceria de trabalho que durou quase duas décadas. O disco e o show trouxeram várias criações essenciais do cancioneiro buarqueano (“A Banda”, “Construção”, “Cala a Boca, Bárbara”) e outras menos óbvias (“Corrente”, “Até o Fim”, “Almanaque”, “Bom Conselho”) e é um dos trabalhos preferidos de muitos fãs do intérprete.

O Cair da Tarde (1997) colocou as obras de Jobim e Villa-Lobos, dois dos maiores maestros de nosso país, lado a lado. Ney resgatou canções importantes do repertório de Villa como “Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-Lobos, com poema de Ferreira Gullar), “Veleiros” e “Melodia Sentimental” (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos) e resgatou obras menos conhecidas do maestro soberano como “Pato Preto” (Tom Jobim) e “Canção em Modo Menor” (Tom Jobim & Vinícius de Moraes). Além disso, convidou alguns dos músicos que tocaram nas turnês mais recentes (Leandro Braga, Márcio Montarroyos, Zero e Bruce Henry), além de Ricardo Silveira (Guitarra e violões), Zé Nogueira (Flautas e sax) e o grupo instrumental Uakti para tocar em algumas faixas. Diante da impossibilidade de custear os cenários para a turnê – havia a ousada previsão de incluir um lago no centro do palco, que separaria duas bandas diferentes –, Ney Matogrosso optou por não excursionar com esse trabalho, para decepção de seus admiradores.

Depois de uma década sem fazer discos Pop, Ney Matogrosso lançou um de seus melhores trabalhos no final da década de 1990. Olhos de Farol (1999) trouxe apenas canções inéditas, além de compositores que o artista nunca tinha gravado – Pedro Luís, Celso Viáfora, Luiz Tatit, Paulinho Moska, Fred Martins, Lenine, Samuel Rosa. Dentre as gravações que se destacaram, há uma letra inédita de Cazuza (dedicada para a avó e escrita quando o compositor tinha apenas 17 anos de idade) que foi musicada por seu parceiro musical, Roberto Frejat. “Poema” se tornou um dos maiores sucessos da carreira de Ney e é sempre aplaudida com entusiasmo quando tocada em shows: “Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo / Eu acordei com medo e procurei no escuro alguém com seu carinho / E lembrei de um tempo / Porque o passado me traz uma lembrança / Do tempo que eu era criança / E o medo era motivo de choro / Desculpa pra um abraço ou um consolo (...)”. A turnê desse disco foi a primeira que recebeu lançamento simultâneo em CD e DVD – Vivo (2000) – e reuniu sucessos que iam de 1973 a 1999 como “O Vira”, “Rosa de Hiroshima”, “Com a Boca no Mundo”, “Homem com H”, “Balada do Louco”, além das inéditas do álbum Olhos de Farol.

O primeiro trabalho lançado por Ney Matogrosso no terceiro milênio foi uma das mudanças mais radicais do artista em relação ao seu repertório. Disposto a resgatar obras do cancioneiro nacional que fazem parte das memórias sentimentais dos brasileiros desde os anos 1930 e 1940. Batuque (2001) nasceu de uma proposta de um tributo à Carmen Miranda (“Tico Tico no Fubá”, “Adeus, Batucada”, “Coração”), porém se transformou em uma bela coleção de canções daquele período – “Urubu Malandro”, “De Papo pro Ar”, “Maria Boa”, “Bamboleô”. O espetáculo baseado nesse disco trouxe um Rio de Janeiro da malandragem, da inocência e que cantava canções de duplo sentido. Ao cantar sob um cenário de uma Capital Federal que não existe mais, Ney encantou plateias de todo o Brasil com um dos trabalhos mais alegres de toda a sua discografia. 

Nos dois anos seguintes, graças a um CD que seria um bônus do livro Ousar Ser, que reunia fotos de Luiz Fernando Borges da Fonseca, textos de Bené Fontelles e depoimentos do próprio homenageado, Ney Matogrosso se dedicou à obra de Angenor de Oliveira, o Cartola. Os discos Ney Matogrosso interpreta Cartola (2002) e Ney Matogrosso interpreta Cartola Ao Vivo (2003) resgataram não apenas canções que o artista já tinha cantado em Pescador de Pérolas e À Flor da Pele (“O Mundo é um Moinho”, “Autonomia”, “As Rosas Não Falam”), como também nos brindou com canções que nunca tinham recebido a sua voz – “Basta de Clamares Inocência”, “Cordas de Aço”, “Senões”, “Desfigurado”. A incursão de Ney pela obra do ilustre mangueirense lhe trouxe admiradores mais jovens e resultou em um dos tributos mais bem-sucedidos à obra de um dos nossos maiores compositores.

Em 2004, Ney Matogrosso se juntou a Pedro Luís & A Parede (Pedro Luís - Voz e violão; Mário Moura - Baixo; C.A. Ferrari - Zabumba; Celso Alvim - Caixa; Sidon Silva - Reco-reco) para uma parceria musical. O intérprete já tinha gravado duas músicas de Pedro em Olhos de Farol e chegou a participar de alguns shows como convidado especial. Por isso, o encontro do ex-vocalista do Secos & Molhados com esse bando de músicos mais jovens foi altamente enriquecedor, resultando em Vagabundo, um dos trabalhos mais interessantes de Ney na década de 2000. O repertório trouxe canções de Pedro Luís – “Seres Tupy”, Inspiração (parceria com Gilberto Mendonça Telles) e Interesse (parceria com Suely Mesquita) –, Itamar Assumpção – “Transpiração” (parceria com Alzira Espíndola) e “Finalmente” (parceria com Alzira Espíndola e Paulo Salles) –, além de alguns clássicos e criações que já tinham feito sucesso na voz de Ney – “Assim Assado” (João Ricardo) e Napoleão (Luhli & Lucina). Vagabundo Ao Vivo (2006) foi lançado em CD e DVD e trouxe algumas canções do show que não tinham entrado no disco de estúdio – “Fé Cega, Faca Amolada” (Milton Nascimento & Ronaldo Bastos) e “Caio no Suingue” (Pedro Luís).

No final de 2004, um convite para um especial de final do ano comemorando o aniversário Canal Brasil rendeu uma oportunidade inédita para Ney Matogrosso: fazer um recital no qual ele interpretava canções de livre escolha, com leveza, elegância, informalidade e o acompanhamento de quatro instrumentistas – Ricardo Silveira (Guitarra e violão), Marcelo Gonçalves (Violão de 7 cordas), Zé Paulo Becker  (Viola e violão) e Pedro Jóia (Alaúde e violão). Canto em Qualquer Canto, parceria de Itamar Assumpção e Ná Ozzetti, foi o nome escolhido para o projeto lançado em 2005 e era composto por canções de várias fases da carreira de Ney – do Secos & Molhados (“O Doce e O Amargo”), à sua fase mais romântica e popular (“Ardente”, “Bandoleiro”, “Tanto Amar”) e clássicos (“Bamboleô”, “Amendoim Torradinho”, “Dos Cruces” – além de canções que nunca tinha cantado ao vivo, como “Oriente” (Gilberto Gil), “Já te Falei” (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte & Dadi Carvalho), “Uma Canção por Acaso” e “Duas Nuvens” (Pedro Jóia & Tiago Torres da Silva). Lançado em CD e DVD, esse projeto rendeu uma turnê longa, obrigando a Ney a excursionar com duas turnês simultaneamente, Vagabundo e Canto em Qualquer Canto.  

A partir de 2007, Ney Matogrosso passou a adotar uma prática bastante incomum entre seus colegas do ramo musical: ao invés de fazer turnês baseadas em álbuns de estúdio, ele passou a entrar com seus espetáculos em cartaz antes de começar a gravar um álbum de inéditas. Inclassificáveis (2008) é o primeiro fruto desse tipo de experiência: as 16 faixas do disco ora mesclam números inéditos em sua voz – “O Tempo Não Para” (Cazuza & Arnaldo Brandão), “Ouca-me” (Itamar Assumpção & Alice Ruiz), “Um Pouco de Calor” (Dan Nakagawa), “Fraterno” (Pedro Luís), “Lema” (Carlos Rennó & Lokua Kanza), dentre outras –, ora rebobinam sucessos de outros trabalhos – “Mal Necessário” (Mauro Kwitko, 1978), “Por que que a gente é assim?” (Cazuza, Ezequiel Neves & Frejat, 1984) e “Mente, Mente” (Robinson Borba, 1986). Para a banda que o acompanhou, o artista escolheu como diretor musical um velho amigo dos tempos de Secos & Molhados, o pianista e tecladista Emílio Carreira, que tocou com o grupo entre os anos de 1973 e 1974. O espetáculo soube aliar altas doses de crítica política ao Brasil da época, demonstrando a pluralidade da Cultura Brasileira, sem deixar de exibir as altas doses de erotismo que vislumbramos em uma apresentação ao vivo de Ney Matogrosso. Conforme esperado, o projeto que sucedeu Inclassificáveis seria o seu extremo oposto. Beijo Bandido foi lançado em 2009 e partiu de uma demanda do próprio Ney Matogrosso. Camaleão foi a caixa que reuniu pela a primeira metade de sua discografia acrescido de um CD com sobras de estúdio e faixas gravadas em trabalhos de outros artistas, porém, como Ney dificilmente recusa convites para prestigiar seus colegas, era simplesmente impossível para Rodrigo Faour – o curador do projeto –  reunir todas as gravações que se encontravam fora da discografia do artista. 

Sendo assim, Ney Matogrosso escolheu gravar em Beijo Bandido algumas canções que já tinha gravado com outros artistas: “De Cigarro em Cigarro” (Luiz Bonfá) já tinha recebido a voz do artista em um trabalho de Thereza Tinoco. “Fascinação” (F. D. Marchetti & M. de Feraudy - versão de Armando Louzada), por sua vez, foi gravada com as amigas e comadres Luhli & Lucina em um disco que elas fizeram em tributo a Elis Regina. As demais faixas do álbum consistem em canções que Ney sempre quis gravar ou de inéditas, como “À Distância” (Roberto Carlos & Erasmo Carlos), “Nada por Mim” (Herbert Vianna & Paula Toller) e “A Cor do Desejo” (Ricardo Guima & Junior Almeida). A musicalidade desse trabalho buscou uma sonoridade mais próxima da música de câmara e, para tal, Ney convocou um quarteto bastante competente para os palcos: Leandro Braga (Piano e teclados), Lui Coimbra (Violoncelo e violão), Ricardo Amado (Violino e bandolim) e Felipe Roseno (Percussão). Para alegria de seus admiradores e satisfação dos críticos, o espetáculo recebeu um registro ao vivo em CD e DVD: Beijo Bandido Ao Vivo (2011) foi gravado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e trouxe o intérprete em um de seus momentos mais marcantes em toda a sua carreira.

No início de 2013, Ney Matogrosso fez seu retorno aos palcos para mais um trabalho Pop. Todavia, esse seria o trabalho ao qual ele dedicaria mais tempo em toda a sua carreira. Atento aos Sinais estreou em março daquele ano e trouxe em seu repertório um número maior de compositores jovens, alguns autores recorrentes em sua discografia e uma surpresa: Criolo, Dani Black, Rafael Rocha e Vitor Pirralho se juntam a Itamar Assumpção, Vitor Ramil, Dan Nakagawa e Paulinho da Viola, autor que nunca tinha sido gravado anteriormente por Ney. Para o bis do espetáculo, o eterno vocalista do Secos & Molhados resgatou uma das canções mais alegres do primeiro álbum do grupo, “Amor” (João Ricardo & João Apolinário), que foi devidamente registrada no DVD de Atento aos Sinais - Ao Vivo (2014).

Como Atento aos Sinais foi recorde de público, o artista decidiu manter o sotaque Pop, a postura de palco irreverente e sexy, além das críticas à sociedade brasileira em Bloco na Rua (2019). Neste espetáculo, cujo disco foi lançado no final da década de 2010, houve o resgate de clássicos da música brasileira – “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua” (Sérgio Sampaio), “Jardins da Babilônia” (Rita Lee & Lee Marcucci) – e de produções mais recentes – “Tua Cantiga” (Chico Buarque & Cristóvão Bastos) e “O Último Dia” (Billy Brandão & Paulinho Moska). Pela primeira vez em sua carreira, Ney Matogrosso gravou um trabalho autoral em um CD duplo e em um teatro sem a presença de público pagante, já prevendo os tempos que viriam a partir de março de 2020. Quando a turnê estava em andamento, o mundo foi surpreendido com a pandemia da COVID-19, obrigando Ney a interromper a turnê para ficar em isolamento, tendo em vista o fato de pertencer ao grupo de risco de infecção pelo novo coronavírus. 

Diante da abertura lenta do mundo para eventos presenciais como shows em teatros e casas noturnas e da comemoração de seu 80.º aniversário, Ney Matogrosso decidiu escrever mais um capítulo de sua história na Música Brasileira ao lançar no final de 2021 mais um álbum de gravações inéditas. Nu com a Minha Música reúne 12 faixas gravadas durante a pandemia como um antídoto para o isolamento obrigatório, que impossibilitou o calor humano que caracteriza a chamada “arte do encontro”. Os versos “Vejo uma trilha clara pro meu Brasil / Apesar da dor”, cunhados por Caetano Veloso há mais de quatro décadas atrás, não apenas soam um remédio para um país altamente ferido pela instabilidade democrática, como também demonstram a persistência de um artista que fez e ainda faz da liberdade sua viga mestra para contar a história de um país por meio de sua carreira musical.




Vinicíus Rangel Bertho da Silva é Mestre em Letras pela Universidade Federal Fluminense (RJ), pesquisador de MPB e autor do livro “O Doce & O Amargo Em Secos & Molhados”. 


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