A Palo Seco

Nilson Chaves, uma viagem musical amazônica

quinta, 08 de julho de 2021

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Há dois anos, eu havia acabado de terminar a escrita de minha dissertação de mestrado quando me deparei com o anúncio de uma vaga de emprego para trabalhar por um mês no Pará. O timing era perfeito: daria tempo de ir, trabalhar por um mês e voltar para defender a dissertação, cumprindo o ritual acadêmico.

Mais especificamente, tratava-se do recrutamento de um fotógrafo para passar algumas semanas em um barco, visitando comunidades ribeirinhas habitantes dos rios da cidade de Portel, no Pará. Me inscrevi e, menos de uma semana depois, embarquei em um avião para Belém, de onde se pode pegar uma barca e, após uma viagem de 16 horas rio acima, chegar em Portel.

Com a viagem que, de repente, se tornou urgente, não tive tempo de reunir mais que meia dúzia de roupas, equipamentos fotográficos e pensar em algum tipo de entretenimento para o trajeto. De antemão, sabendo que não haveria acesso à internet durante parte da viagem, coloquei na mala um livro e fiz o download de um alguns álbuns do paraense Nilson Chaves, a quem uma namorada, fã do cantor, havia me apresentado há alguns anos.

Como esperado, conhecer a Amazônia pelos seus rios foi inesquecível, mas foi na viagem de volta que tive uma experiência musical inesperada com a obra do cantor Nilson Chaves.

Pôr do sol no Rio Anapu (Foto: Heitor Zaghetto).

Com o passar dos dias, ficou cada vez mais claro que não haveria tempo para se ocupar com algo que não fosse a pescaria, o trabalho ou as conversas. Assim, foi apenas nas horas da viagem de volta que eu me dediquei a ouvir o repertório que havia levado no celular.

Ao ouvir seus álbuns (em especial a coletânea “Em Dez Anos”, em suas duas edições), passei a experienciar um enlace definitivo com a obra de Nilson Chaves. É sempre uma experiência estranha entrar em contato com uma grande obra, afinal, nunca sabemos bem o que fazer nesses momentos. A sensação é que o corpo age, mesmo, com a necessidade de alguma resposta física, algum tipo de resposta corporal primitiva, talvez.

Apesar do biologismo ingênuo, adotei a explicação: nosso sistema nervoso, condicionado a respostas agressivas de reação ou fuga diante de acontecimentos impactantes, reage ao ser afetado por obras de arte, buscando ações que possam oferecer respostas a esse momento. Talvez seja esse impasse, a necessidade visceral de uma ação física diante de algo de natureza impalpável como a música, que cria reações apaixonadas e grandiloquentes a elas: a vontade de fazer com que todos conheçam a obra do  cantor, o anseio em fazer elogios e homenagens ou, ainda, de criticar os que não conhecem ou não entendem a sua obra, com o tom repreensivo que caracteriza os sabichões.

Eu, particularmente, passei aproximadamente 90 dias aficionado pela obra do autor, sem vontade de acessar qualquer outro repertório senão o dele, sem saber como havia vivido tantos anos sem conhecê-lo - uma experiência, em certo sentido, fantasmagórica, afinal, de volta ao Rio de Janeiro, o mês transcorrido no barco ganhava um tom quase ficcional, sendo reavivado a cada canção em que Nilson Chaves descreve a vida dos povos amazônicos.

Anoitecer na floresta que se revela atrás da vila ribeirinha da Glória, em Portel - PA (Foto: Heitor Zaghetto).

Meus anseios grandiosos de reagir à obra de Nilson Chaves, na ocasião, se direcionaram para o álbum “Amazônia Brasileira”, de Nilson Chaves e Sebastião Tapajós. A empreitada de um cantautor que direciona a sua criatividade para cantar a vida amazônica aliado a um virtuoso do violão brasileiro, consiste, talvez, na experiência na música brasileira que melhor condensa, em uma obra sintética, música popular, tradições musicais étnicas e música instrumental em um só álbum.

O disco é um verdadeiro manual de vitalização das de tradições musicais, com os arranjos feitos para temas folclóricos, que valorizam e potencializam as letras, ou com as peças de violão instrumental tocadas por Sebastião Tapajós que se apropriam de forma profunda das guitarradas paraenses. Em todas as faixas, o que se encontra é uma capacidade de condensar, em um trabalho de música popular, diversas tradições musicais, em uma proposta clara, e, antes de tudo, gostosa de se ouvir, como poucos são capazes de fazer.

Pode ser um arroubo apaixonado, mas não é exagero dizer que a obra de Nilson Chaves é, poeticamente, para a música paraense, um acontecimento de profundidade análoga ao que Dorival Caymmi foi para a Bahia. No mínimo, é referência obrigatória para quem ama as músicas do Norte.

Heitor Zaghetto

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