Coisas Nossas

O maldito e imoral maxixe

sábado, 26 de outubro de 2019

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A história do maxixe começa no Rio de Janeiro por volta de 1880. É a nossa primeira dança urbana típica. Segundo o historiador José Ramos Tinhorão, “era da descida da polca dos pianos para a música dos choros, à base de flauta e violão (...) que iria nascer a novidade do maxixe". Na verdade, como explicou o escritor português João Chagas no livro De Bond, o maxixe era a mesma música dos “tangos”, porém, tocada para dançar, em um novo ritmo. Podia ser dançado ao som de valsas, da própria polca, marchas, árias. Assim, “o maxixe era o ato de dançar e não a própria dança”, como definiria o escritor. Acontece que o maxixe era dançado em locais que não atendiam à moral e aos bons costumes da época, como forrós, gafieiras da Cidade Nova e cabarés da Lapa, estendendo-se, mais tarde, aos clubes  Carnavalescos e aos palcos dos teatros de revista. Os homens de classes mais privilegiadas frequentavam esses bailes e gafieiras em busca da sensualidade das danças africanas. Se o maxixe enlouquecia algumas pessoas mais abastadas, era realmente o povão que arrastava o pé nas festas.

A dança de par entrelaçado, sensual, provocativa, sem comedimentos nas suas figurações, desbancava a dançante polca, fazendo muito mais sucesso. Os pares enlaçam-se pelas pernas e braços, apoiando-se pela testa, e essa maneira de dançar lhe valeu o título de dança escandalosa e excomungada. Foi perseguida pela polícia, igreja, chefes de família e educadores. Para que pudessem ser tocadas em casa de família, ludibriando os bons costumes, as partituras de maxixe trocavam o nome do gênero para “tango brasileiro”.

O “Maxixe aristocrático”, composto pelo maestro José Nunes para a espetáculo de revista Cá e Lá, cantado pela dupla de atores Pepa Delgado e Marzulo e gravado no início do século XX, deixa muito clara a rendição da classe média àquele tipo de música e dança considerado impróprio.

Até o futuro presidente da República, na época ministro da Guerra, Marechal Hermes da Fonseca, ficaria em maus lençóis por causa do maxixe. Por volta de 1906, o ministro alemão Von Reichau e sua delegação desembarcaram no Brasil. Em visita a Santa Cruz, no Rio de Janeiro, a Banda do Exército recepcionou a comitiva executando marchas e dobrados. No final da apresentação, o ministro alemão pediu ao maestro que tocasse uma música tipicamente brasileira. A batuta do regente passou a comandar o maior sucesso do carnaval daquele ano, ouvido em bares, teatros, festas populares e clubes, o maxixe “Vem cá, mulata!”, de Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre:

Vem cá, mulata!
Não vou lá, não!
Sou democrata,
Sou democrata,
Sou democrata
De coração.

Hermes da Fonseca enrubesceu de raiva. Nem mesmo a alegria incontida do visitante alemão fez diminuir a ira do militar brasileiro. Dias depois, baixava-se uma portaria proibindo as bandas militares de tocar maxixe.

Apesar de proibido nas cerimônias militares, o maxixe tocado pelos chorões era presença garantida nos bailes populares entre 1910 e 1920, seu período culminante. Com a explosão do samba em 1916 e do foxtrote em 1919, o maxixe foi perdendo gradativamente sua força. Assim, deixamos de gravitar em torno da França, passando a sofrer forte influência musical dos Estados Unidos.

O espúrio maxixe deu o ar da graça em Paris, por volta de 1911, pelos pés do dentista Duque. Certa noite, em um cabaré de lá, resolveu dançar o maxixe com uma amiga, a atriz brasileira Maria Lina, provavelmente ao ritmo de uma polca. Duque, que era exímio conhecedor da dança, começou a executar seus passos típicos: saca-rolha, parafuso, balão caindo, carrapeta, corta-jaca, corta-capim, cobrinha, miudinho, cruzado. Sucesso imediato, ali mesmo no salão.

Foi contratado na hora pelo dono da casa. Estilizou a dança, tornando-a ainda mais sofisticada e exótica, desbancando o famoso cancã. Com isso, fez uma trajetória artística espetacular, exibiu-se em Nova York, no Teatro Palace, para o rei da Inglaterra e para o presidente da França.


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