Colunista Convidado

O primeiro boom feminino de vozes

sábado, 18 de maio de 2019

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A década de 1950 foi a de maior número de vozes femininas em nosso rádio e disco. Além das que vinham das décadas passadas, como Linda, Dircinha, Isaurinha, Aracy, Ademilde e ainda Heleninha Costa, lançadora do samba “Barracão” (“Vai barracão, pendurado no morro...”) e Violeta Cavalcanti, se consagraram muitas outras. Algumas eram especialistas em cantar em vários idiomas, como Lana Bittencourt e Leny Eversong, com vozeirões portentosos. A primeira foi de samba-canção (“Se alguém telefonar”) a calypso-rock (“Little darlin’”, recordista em vendas) e a segunda, também com êxito retumbante em Las Vegas, gravando em Paris e Nova York, da canção americana “Jezebel” à afro-cubana “El cumbanchero”

Especialista também em cantar em várias línguas por ser uma das mais prestigiadas crooners da noite carioca, Dolores Duran teve alguns poucos sucessos como cantora de rádio, como “Canção da volta” (Ismael Netto/ Antonio Maria), mas se tornou imortal pelo talento de extraordinária compositora e letrista nos últimos três anos de vida (“Castigo”, “Por causa de você” – com Tom Jobim –, “A noite do meu bem”), morrendo prematuramente aos 29 anos, em 1959. Com Maysa já ocorreu o inverso, começou como grande compositora, gravando o primeiro LP autoral de uma mulher no país, “Convite para ouvir Maysa” (1956) e aos poucos se converteu numa grande intérprete de vários autores, inclusive da bossa nova nascente, de estilo diametralmente oposto ao que a consagrou: os sambas-canção de dor-de-cotovelo, como “Ouça” e “Meu mundo caiu”. Além de autoras pioneiras a terem uma obra de peso, Dolores e Maysa foram mulheres independentes que só faziam de suas vidas o que queriam, não se curvando aos caprichos dos homens. 

Falando em mulheres fortes, no segmento folclórico e da música caipira/sertaneja ninguém foi mais importante que a paulista Inezita Barroso, com a moda de viola “Marvada pinga (Moda da pinga)” e a toada “Lampião de gás”, sendo fiel ao estilo até morrer aos 90 anos, em 2015. Assim como Maysa, ela foi cantora de rádio, mas também das pioneiras de sucesso na TV.

No samba, nossa primeira grande cantora negra importante, que gravava desde o fim dos anos 1930 com o parceiro Henricão, começa uma nova fase, na década de 1950. Era Carmen Costa, com seu canto lamentoso e confidente, entoando samba-canção (“Quase”, “Eu sou a outra”), samba (“Obsessão”) e marchinhas (“Cachaça”). Houve ainda algumas outras vozes suaves que não chegaram a estourar, como Zezé Gonzaga, Vera Lúcia, Neusa Maria e Mary Gonçalves – todas podem ser consideradas algo precursoras da bossa nova pelo estilo cool, sobretudo esta última, lançadora de Johnny Alf. Mas nesse gênero mais suave e sem vibrato, mais sorte teve Dóris Monteiro, especialista em sambas-canção, como “Se você se importasse” e “Do ré mi”, e que a partir de 1956, com a gravação de “Mocinho bonito” (Billy Blanco), descobriu-se ótima também no sambalanço sincopado (e mais tarde na bossa nova e no samba-rock). 

Outra que também se embrenhou por melodias sofisticadas foi Nora Ney, num canto mais falado e denso, com repertório mais sofrido, ideal para as dores de cotovelo do período em ritmo de samba-canção, imortalizando “Ninguém me ama”, “De cigarro em cigarro” e “Bar da noite”, e lançando o cronista e radialista Antonio Maria como compositor, com “Menino grande”. Cantora igualmente de prestígio foi Elizeth Cardoso, que estourou relativamente tarde, após inúmeras tentativas, com o samba-canção “Canção de amor”, aos 30 anos, em 1950. Munida de belo timbre de contralto, com fluência nos agudos, foi a preferida dos músicos e intelectuais, e não por acaso a escolhida para gravar o LP cult “Canção do amor demais” (1958), com canções da iniciante parceria de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que marcaria a estreia do violão de João Gilberto. Embora tendo lançado sambas como “É luxo só” (Ary Barroso/ Luiz Peixoto), em 1957, teve sua grande explosão somente na década de 1960, inclusive na televisão.

Algumas de repertório mais versátil, como Lenita Bruno, Julie Joy e Ellen de Lima, atuaram muito no rádio, gravaram vários discos, mas sem o sucesso comercial de suas colegas. Merece destaque também Rosita Gonzales, especialista em canções latinas, e grandes fadistas que fizeram carreira no país, como a carioca Olivinha Carvalho e as irmãs portuguesas Gilda Valença (também atriz) e Ester de Abreu – esta última, a mais famosa das três.





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