Colunista Convidado

O Que Te Assombra?
Por: Felipe Gaoners

quinta, 15 de novembro de 2018

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Aristóteles chegou à conclusão que a possibilidade que o homem tem de se assombrar diante das coisas que acontecem no mundo é o que faz surgir a Filosofia.

Quando nos surpreendemos com alguma coisa é o momento em que a vida realmente vale a pena. Desta forma, através do sobressalto é que buscamos explicações para o que simplesmente nos emociona, nos comove. E essa nossa capacidade de surpresa com algo é também o que nos resguarda da loucura. Por isso, quase sem a nossa própria consciência é que o nosso cérebro luta para não nos deixar cair no blasé, no lugar comum. Neste viés, podemos entender que a nossa própria capacidade de surpresa é o caminho mais natural para a nossa sanidade.

A pergunta agora é: E na música? O que te surpreende? O que lhe assombra musicalmente? Vamos ainda mais. E na música brasileira? O que mexe com você, ou, o que te faz mexer? Pra mim é o funk.

A influência do funk norte-americano na música popular brasileira é realmente gigantesca. Chegou tão forte que até hoje soa bastante alto em terras tupiniquins, exatamente como o "boom" bastante grave das diversas equipes de som que faziam as festas nos anos 1970 em diferentes estados. Lugares para esses encontros chamados como baile soul, baile black, baile charme ou até mesmo baile funk, surgiram exatamente com a chegada do som de James Brown aos subúrbios e periferias cariocas.

Alguns destes termos de bailes foram criados no Rio de Janeiro e muitas vezes reconhecidos nacionalmente pelo país a dentro, até mesmo como um estilo de música bem definido. Afinal, quando falamos de "Charme" já sabemos ao que estamos no referindo, não é Sr. R&B?

Com o funk carioca podemos citar o mesmo exemplo, mas com uma diferença: de que a essência do Funk que conhecemos hoje em dia é nada mais, nada menos, que o próprio funk. Sim! O Miami Bass foi o seu embrião, ok, mas antes as principais equipes e dj's da cena funk que se formou nas periferias do estado da Guanabara nos anos 1980, cresceram com o funk de Brown, Funkadelic, Wilson Picket, Ohio Players, Earth, Wind & Fire, Jackson 5 entre outros na cabeça, para depois se tornarem equipes de funk carioca. A Furacão 2000 tocou muito funk americano para depois ajudar a estabelecer o “funk carioca” como uma cultura musical também oriunda das favelas e periferias. Ou seja, o mesmo fenômeno periférico aconteceu no Rio de Janeiro entre as décadas citadas. Um povo em busca de uma expressão genuína em torno da própria cultura.

Os bailes que se formaram através destes estilos, serviram à formação e elevação de uma autoestima mais positiva sobre a beleza do negro no Brasil, como também chamaram bastante atenção da sociedade dentro de um período de ditadura. Na época dos bailes de soul o motivo era a quantidade de negros reunidos em um determinado clube e depois no período do funk carioca, a violência dos bailes funk também serviram como destaque aos meios de comunicação. Esses lugares foram capazes de reunir milhares de pessoas, sendo negros periféricos na sua grande parte. Um verdadeiro fenômeno de massa. Tudo isso aconteceu no final da década de 1960, início da década de 1970, com o funk "Brownlino" e seus desdobramentos políticos no Brasil, como também aconteceu com o funk carioca em meados dos anos 1980 e todo o genocídio cultural contra um estilo musical oriundo dos subúrbios e favelas cariocas. Todo esse movimento surgido através da música negra americana revolucionou o mercado da cultura e da música praticada até então no Brasil.

A força do funk americano influenciou grupos a criarem algumas músicas com o impressionismo de uma pintura de Andy Warhol e Jean-Michel Basquiat. Realmente pintaram um quadro, uma obra de arte através de suas composições. A Banda Black Rio não deixou dúvida do poder desta influência com a nossa cultura. Uniu o samba com funk e fez história pelo mundo com essa conexão. Cassiano e Tim Maia deixaram um grande legado black ao país de uma forma ímpar. Jorge Ben, Djavan, Luiz Melodia também beberam desta fonte do soul. Nomes como Tony Bizarro, Carlos Dafé, Toni Tornado, Gerson King Combo e diversos outros artistas brasileiros de menor destaque, mas que também bastante mergulharam no universo negro norte-americano. Hoje alguns destes lp’s são bastante disputados e valorizados pelos garimpeiros de sebos de vinis. Aliás, um universo gigantesco do soul brasileiro tem sido descoberto por pesquisadores e dj’s mais apurados. Diversos artistas com muita qualidade sonora são obscuros e desconhecidos até os dias atuais. Ficaram, injustamente, no esquecimento.

Falamos um pouco das décadas de 1970 e 1980 no Brasil, mas este movimento não foi esquecido a partir dos anos 1990 em diante. Passou por alguns desdobramentos sim, nós sabemos, mas a influência Black é bem assimilada e bastante respeitada até hoje. O hip-hop e alguns dos afrobeats expressados atualmente no Brasil entendem bem de funk e muito disso se alimentam. Vale salientar os trabalhos de bandas como Charlie e os Marretas e Big Pacha. O balanço é garantido.

Para alguns pode ser difícil achar ou até mesmo perceber a presença do soul na atual música brasileira, mas basta procurar ou simplesmente perceber um pouco mais para entender que o estilo que surgiu através de uma forma dos negros cantarem nas igrejas norte-americanas, já está na nossa cultura há muito tempo e muitas vezes não nos damos conta. Isto é a riqueza da música negra brasileira que aos poucos vem ganhando notoriedade ao ser descoberta.

Luiz Felipe de Lima Peixoto
Jornalista e Produtor cultural










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