Tema do Mês

O som dos versos: música brasileira e poesia

sexta, 05 de março de 2021

Compartilhar:

No dia 21 de março é celebrado o Dia Mundial da Poesia. Por isso, o Tema do Mês do IMMuB é justamente a relação da música brasileira com a poesia. Afinal, a interseção dessas duas expressões artísticas vem de longe e possui um histórico de tradição muito forte no Brasil. São diversos os exemplos de grandes poemas que, ao serem musicados, se tornaram clássicos do nosso cancioneiro popular. 

Há também os casos de poetas “de livro” por formação que se tornaram letristas de música popular. Claro que é impossível reunir todos aqui, mas separamos alguns exemplos que se destacam. Confira logo abaixo.

  • Vinicius de Moraes: o “Poetinha” foi um dos primeiros nomes da tradição da poesia na música brasileira. Autor de livros desde a década de 1930, foi nos anos 50 que ele se consagrou como letrista de música popular, sobretudo depois que firmou sua parceria com Tom Jobim, que deu origem à Bossa Nova. Seus versos cheios de informalidade e leveza revolucionaram a forma como se fazia letra de música no Brasil. 
  • Orestes Barbosa: Jornalista e poeta em sua origem, ainda na Era do Rádio se tornou letrista de música. Ao lado de Silvio Caldas, criou aquela que é considerada uma das canções mais bonitas da MPB: “Chão de estrelas”
  • Mário Lago: Multifacetado, era poeta, ator, radialista, jornalista, advogado e compositor. É o autor de clássicos como “Nada além” (com Custódio Mesquita) e “Ah! Que saudade da Amélia” (com Ataulfo Alves). 
  • Cacaso: Poeta, letrista, professor e ensaísta, fez parcerias inesquecíveis com Edu Lobo, Sueli Costa, Djavan, Danilo Caymmi e muitos outros. Para citar apenas alguns clássicos da MPB escritos por ele: “Face a face”, “Dentro de mim mora um anjo” e “Lambada da serpente”. 
  • Antônio Cícero: Filósofo, poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, se tornou um dos compositores essenciais do pop nacional, ao estabelecer no fim dos anos 1970 uma parceria com sua irmã mais jovem, Marina Lima, com quem compôs clássicos como “Fullgás”, “Charme do mundo” e “Acontecimentos”. Ao longo da carreira, também estabeleceu frutíferas parcerias com nomes como Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Waly Salomão e Lulu Santos.


Foto: Chico Cerchiaro (Reprodução/Companhia das Letras) 

  • Waly Salomão: Um dos expoentes da poesia tropicalista e da contracultura no Brasil, fez parcerias com músicos como Jards Macalé (“Anjo exterminado”, “Vapor barato”), Caetano Veloso (“A voz de uma pessoa vitoriosa”, “Mel”) e Adriana Calcanhotto (“Motivos reais banais”, “Remix Século XX”). Além disso, foi o responsável pela idealização de um dos trabalhos mais emblemáticos dos anos 70: o show Fa-tal: Gal a todo vapor, de Gal Costa
  • Torquato Neto: Antes de sua partida trágica e precoce, se estabeleceu como um dos nomes principais da Tropicália e da contracultura. Ao lado de parceiros como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Edu Lobo, escreveu clássicos como “Geléia geral”, “Mamãe, coragem” e “Pra dizer adeus”. 
  • Capinan: Outro poeta ligado à Tropicália, teve uma obra marcada pela consciência política e criou a letra de músicas como “Clarice” (com Caetano Veloso), “Gotham City” (com Jards Macalé) e “Misere Nobis” (com Gilberto Gil). 
  • Ferreira Gullar: Além de ter diversos poemas seus transformados em canções, esse que é considerado um dos maiores poetas da literatura brasileira foi também um letrista de mão cheia. Para citar apenas dois exemplos bem conhecidos, são dele a letra de “Trenzinho do caipira” (de Heitor Villa-Lobos) e a versão de “Borbujas de amor”, de Juan Luis Guerra, que ele transformou em “Borbulhas de amor (tenho um coração)”, um hit estrondoso na voz de Fagner
  • Paulo Leminski: Poeta irreverente e original, sempre circulou muito bem pela turma da música popular. Se tornou parceiro de nomes como Caetano Veloso, Guilherme Arantes e Moraes Moreira, com quem compôs, por exemplo, a conhecidíssima “Promessas demais”, lançada em 1982 por Ney Matogrosso.


Palulo Leminski e Alice Ruiz nos anos 70 (Foto: Dico Kremer) 

  • Alice Ruiz: Esposa de Paulo Leminski e igualmente interessada por música popular, foi musicada por compositores como Itamar Assumpção e Zeca Baleiro, e se tornou parceira de nomes como Luiz Tatit, Alzira E e Arnaldo Antunes, com quem compôs o grande sucesso “Socorro”, por exemplo. 
  • Arnaldo Antunes: Além de nome essencial do rock nacional e da MPB, ele possui também uma carreira consagrada como poeta, cuja obra é pautada pelo concretismo e o experimentalismo, com muitas referências que respingam em sua produção musical. 
  • Patativa do Assaré: Nascido no Ceará, foi poeta popular, improvisador e cantador. Entre os anos 1970 e 1980 lançou alguns álbuns reunindo seus poemas e cantigas, e o poema “Vaca estrela e do boi fubá” se tornou sucesso nas vozes da dupla sertaneja Pena Branca e Xavantinho.



Além desses, há também o caso de músicos e letristas que sempre tiveram interesse por poesia e se utilizaram dessa referência em seus trabalhos, inclusive firmando parcerias com poetas. Veja só alguns exemplos: 

  • Adriana Calcanhotto: A relação entre música e poesia é uma das grandes marcas do seu trabalho, e ela chegou a firmar longas parcerias com nomes como Antônio Cícero (“Água perrier”, “Inverno”), Waly Salomão e Arnaldo Antunes, além de ter musicado inúmeros poemas, como “O outro”, de Mario Sá Carneiro, e “Definição de moça”, de Ferreira Gullar
  • Fagner: Além de sua parceria com Ferreira Gullar, que também rendeu o clássico “Traduzir-se”, Fagner já adaptou poemas de Florbela Espanca (“Fanatismo”, “Fumo”, “Tortura”) e García Lorca (“Verde” e “La Leyenda Del Tempo”). 
  • Maria Bethânia: Marcada pela performance teatral, uma das marcas de Maria Bethânia são os textos e poemas que ela declama em seus shows e, muitas vezes, em seus discos de estúdio, costurando uma ligação entre autores como Fernando Pessoa e Clarice Lispector com os mais diversos compositores da música nacional. 
  • Chico Buarque: Além de ser ele próprio considerado um poeta por letras altamente sofisticadas e complexas, como a de “Construção”, Chico já adaptou poemas como “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, na música “Funeral de um lavrador”, e “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, do qual extraiu um trecho para a música “Tema de Os Inconfidentes”. 
  • Caetano Veloso: Outro letrista também considerado poeta por muitos, Caetano Veloso já adaptou diversos poemas em forma de canção, como “Onde Andarás” (Ferreira Gullar), “Triste Bahia” (Gregório de Matos), “Verdura” (Paulo Leminski) e “Circuladô de Fulô” (Haroldo de Campos). 



  • Secos & Molhados: O grupo conhecido pela performance libertária e transgressora também possuía forte relação com a poesia. Na verdade, a ideia de transformar poemas em canções foi justamente o que motivou João Ricardo a criar o conjunto. Alguns poemas cantados por eles são “Rosa de Hiroshima” (Vinicius de Moraes), “Mulher barriguda” (Solano Trindade), “Rondó do capitão” (Manuel Bandeira), “Não não digas nada” (Fernando Pessoa) e “O hierofante” (Oswald de Andrade). 
  • Arthur Nogueira: O jovem cantor e compositor paraense sempre revelou a influência da poesia em seu trabalho. Se tornou parceiro de poetas como Marina Wisnik (“Vaga”), Omar Salomão (“Volta”), Eucanaã Ferraz (“Papel tesoura e cola”), e sobretudo Antônio Cícero, com quem compôs diversas canções, como “Truques”, “Simbiose”, “A hora certa” e “Sem medo nem esperança”, lançada na voz de Gal Costa. 
  • Fátima Guedes: A cantora e compositora já realizou uma série de projetos pautados por seu amor à poesia, como “Cânticos”, em que musicou poemas de Cecília Meireles, e o show “Tanto que aprendi a amar”, baseado na obra de Manuel Bandeira. 
  • Milton Nascimento: Além de diversas parcerias com Ferreira Gullar (“Bela bela”, “Meu veneno” e “Minha cidade suja”), transformou em uma famosa música o poema “Canção amiga”, que Carlos Drummond de Andrade, gravada no álbum “Clube da Esquina 2”. 



É possível citar ainda muitos outros exemplos, como Lenine, que musicou o poema “Marco marciano”, de Bráulio Tavares, e Renato Russo, que utilizou na música “Monte Castelo” trechos da Bíblia e do Soneto 11 do poeta Luiz Vaz de Camões. Há ainda diversos projetos especiais, como “Estrela da Vida Inteira”, disco de Olivia Hime dedicado à obra de Manuel Bandeira, ou “As Várias Caras de Drummond”, álbum em que Belchior musicou nada menos do que 31 poemas de Carlos Drummond de Andrade. 

Se você se lembrou de mais algum exemplo, não deixe de compartilhar com a gente. E aproveite para celebrar a poesia e a memória musical brasileira. 


Texto por: Tito Guedes


Comentários

Divulgue seu lançamento