Na Ponta do Disco

'Outras Viagens': 85 anos de Alaíde Costa
Por Tiago Bosi Concagh

segunda, 30 de novembro de 2020

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“Não existe cantora negra no Brasil que cante o que eu canto”.

E foi com essa frase que se encerrou minha entrevista com Alaíde Costa realizada em outubro desse ano.  

Tive que concordar, pensativo. A colocação contundente de Alaíde calou fundo em mim pelos dias que sucederam. Dias esses em que ouvi novamente a obra completa da cantora. Aos poucos fui compreendendo algo profundo na obra riquíssima de Alaíde Costa que no dia 8 de dezembro desse ano completará 85 anos de vida – e desses anos, quase 67 dedicados à canção brasileira (ainda que oficialmente a artista tenha iniciado a carreira profissional em 1956 quando foi contratada pela casa noturna Dancing Avenida). Esse “algo profundo” que fui percebendo é que Alaíde cantou sempre de um jeito único, muito próprio e característico. Com o perdão da obviedade, Alaíde Costa sempre cantou de um jeito muito Alaíde Costa – sem copiar outros ou repetir estilos prontos. 

Foto: Jefferson Dias

Recentemente, a artista também afirmaria em outra entrevista algo central ao longo de sua trajetória: “até hoje batalho minha carreira, ainda existe preconceito. O tipo de música que resolvi cantar trouxe dificuldades. Muitas vezes ouvi: ‘você tem que cantar uma coisinha mais alegre; samba’. Mas não me sinto à vontade”.

O depoimento de uma das maiores intérpretes brasileiras é bastante revelador. É a chaga de nosso racismo estrutural que se mostra mais uma vez presente em nossa canção popular – uma tecla que outra rainha, Aurea Martins, também vem batendo há tempos. E algo que sem sombra de dúvida afetou em diversos momentos a carreira de Alaíde

Pra entendemos tudo isso é importante irmos lá atrás, nos idos de 1952, quando a jovem de 16 anos Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide, nascida no Meyer, conheceu outro jovem pianista, Alfredo José da Silva, mais conhecido como Johnny Alf. Alf ouviu Alaíde num programa de talentos da Rádio Clube do Brasil e desse encontro o pianista lhe estenderia a mão, reconhecendo seu talento vocal – e mais do que isso: nascia ali uma amizade que só cresceria ao longo do tempo. 

Alaíde Costa e Johnny Alf (Foto: Reprodução)

E veio a Bossa Nova, veio João Gilberto, Tom Jobim, Elizeth Cardoso, Roberto Menescal, Nara Leão e também Johnny Alf e Alaíde Costa em meio a todos esses. E como a própria Alaíde me disse em tom bem humorado: “história da Bossa Nova, cada um tem a sua – e eu também tenho a minha”. 

Segundo ela, a Bossa Nova também é negra e não aconteceu só nos apartamentos da zona sul carioca – nos encontros de violão e voz no apartamento da família Leão. A “Bossa Negra” de Johnny Alf, por exemplo, também nasceu em bares e boates que além das fronteiras da Zona Sul carioca que era, notadamente, branca. E que se misturava naturalmente com o sambalanço da época, sem purismos e fórmulas estritamente minimalistas.  

A partir da versão da história de Alaíde é difícil não se deixar levar pela vontade de imaginar Johnny Alf e Alaíde cantando em alguma boate entre 1959 e 1962, misturando sambalanço, ritmos afro-caribenhos da época e também, claro, Bossa Nova. Exercício puro de imaginação e recriação, mas delicioso em sua potencialidade subversiva. Ainda assim fica a máxima: “história da Bossa Nova, cada um tem a sua”

A história de Alaíde como intérprete poderia parar por aí e já seria algo glorioso, mas em verdade a sua história ainda teria muitos desdobramentos. 

Alaíde Costa foi para São Paulo no início da década de 1960. E, se por um lado, Alaíde não participou diretamente daquela transformação da chamada 2ª geração da Bossa Nova, mais engajada, preocupada com o “Nacional-Popular”, por outro, Alaíde estava agora próxima aos grandes festivais da canção: TV Excelsior, Festivais de Música Popular Brasileira da Record e os Festivais Universitários da TV Tupi. 

E por volta dessa época da TV Tupi, Alaíde encontraria dois artistas que seriam decisivos por toda sua trajetória. O primeiro foi José Miguel Wisnik. Esse, um jovem universitário da Maria Antônia, ainda dedilhando os primeiros acordes da carreira artística propriamente dita, também participou dos Festivais da Canção. Wisnik entrou no Festival Universitário da extinta TV Tupi de 1968 com a canção, “Outra Viagem”. O jovem estudante, sem pestanejar, escolheu Alaíde Costa para defender sua canção pois já nutria grande admiração pela artista. A canção ficou classificada em 5º lugar – injustiça histórica que até hoje Alaíde se queixa. De todo modo “Outra Viagem” seria o início de uma longa e bonita amizade que ainda daria muitos frutos.

Já o segundo artista seria ninguém menos que Milton Nascimento. Entre a TV Tupi e um bar frequentado por novos artistas da época, o João Sebastião Bar, Alaíde manteve contato entre 1965 e 1968 com um jovem Milton de vinte e poucos anos que ouviu Alaíde Costa cantar e teve certeza que ela deveria participar do disco de estreia do “Clube da Esquina”: nome esse que ainda só remetia à esquina em que garotos do bairros de Santa Tereza dedilhavam Beatles no violão. Esse convite, que Alaíde Costa jurava que Milton já havia esquecido, se concretizaria alguns anos depois em 1971 com uma ligação da gravadora Odeon pedindo pra Alaíde arrumar as malas e ir para Belo Horizonte. 

Alaíde Costa e Milton Nascimento (Foto: Reprodução) 

O resultado dessa viagem foi a canção “Me Deixa em Paz” de Ayrton Amorim e Monsueto. Um samba jazz bem cadenciado, aboleirado até, em que Alaíde faz um dueto vocal verdadeiramente comovente com Milton. A canção ainda tem o acompanhamento luxuoso de Nelson Angelo na guitarra, Robertinho da Silva na bateria e boa parte do Clube em outros instrumentos. A canção, assim como todo álbum, é verdadeiramente sublime. E Alaíde não faz concessões: não força o vocal de forma desnaturalizada, não “dramatiza” e alonga demasiadamente as sílabas com carga emotiva exagerada. Alaíde canta como ela entende a canção: Alaíde Costa por Alaíde Costa

Quem já notava isso há tempos e disse isso mais de uma vez em entrevista é o “quarto mosqueteiro” de Alaíde: depois de Alf, Wisnik e Milton, Alaíde conheceu Hermínio Bello de Carvalho – outro encontro para a vida. Perguntei em nossa entrevista se Alaíde teria encontrado Hermínio pelas noitadas cariocas na Casa dos Andradas, nas Boates de Copacabana ou mesmo no Zicartola – “Nada disso”, disse ela, “conheci o Hermínio já em São Paulo nos tempos gloriosos da Jogral”. A mítica boate de Luís Carlos Paraná funcionou em São Paulo entre meados da década de 1960 até o início da década de 1970 e os tempos áureos duraram até o falecimento precoce do compositor de “Maria, Carnaval e Cinzas”. Nele se tocava o melhor da MPB, samba e choro, e Hermínio batia carteira na boate em suas viagens à terra da garoa – normalmente acompanhado de nomes como Sérgio Cabral e Aracy de Almeida.  

Ali Hermínio e Alaíde desenvolveram uma “amizade à primeira vista”. E pelos anos seguintes passaram a trocar cartas e telefonemas com frequência. Mais de uma vez Hermínio falou no programa Água Viva da forma única de interpretar de Alaíde. Segundo Hermínio, Alaíde entendia a canção. Entendia profundamente a relação entre letra e melodia e a partir daí criava uma interpretação sua – absolutamente singular e potente. Aí talvez estaria um ponto central de toda obra de Alaíde: um respeito absoluto à canção na sua intenção poética e musical original e, ao mesmo tempo, uma forma muito própria e característica de cantar – conferindo uma verdadeira subjetividade interpretativa inconfundível para cada canção por Alaíde interpretada. Talvez aí resida o mistério sublime de Alaíde Costa.

E o mistério perdura.

Assim, Alaíde nunca deixou de cantar e interpretar as canções da sua forma única e original. Nunca cedeu àquilo que muitas vezes se torna uma imposição e uma verdadeira pressão da indústria fonográfica para cantar o que ela mesmo colocaria como uma “coisinha mais alegre; ou samba’.” Alaíde não se sentia à vontade de cantar um repertório que não fazia sentido para ela e isso, muitas vezes, como já foi falado, teve seu preço. 

Independente disso, Alaíde realizou brilhantemente seu projeto autoral. Cantou o que sentia na alma, sem concessões. 

Isso se revela, obviamente, na força de sua obra, mas também em seu jeito de ser e nas pessoas que a rodeiam: uma alma musical toca a outra. E a alma musical de Alaíde tocou muita gente. Essa mesma alma, agraciada com os encontros, generosa com aqueles que também com ela foram tão generosos, nunca deixou de homenagear e prestar tributos aos velhos amigos. 

Lá em 1952, será que quando Johnny Alf perguntou se a garota franzina Alaíde gostaria de acompanhá-lo em “piano e voz”, ele jamais poderia imaginar que 68 anos depois, em 2020, receberia uma linda homenagem de Alaíde por uma Live promovida pelo Museu Afro-Brasil e com o nome pra lá de sugestivo e provocativo, “Negra Bossa Nova”?  E as homenagens aos amigos não param por aí. Hermínio Bello de Carvalho teve sua vez em “Águas Vivas - Alaíde Canta Herminio Bello de Carvalho” (Vento de Raio/1982); depois Milton Nascimento “Alaíde Costa Canta Milton – Amor Amigo” (Lua Discos/ 2008); e novamente uma homenagem ao amigo recém falecido em 2010 e mais antigo: “Alaíde Canta Johnny – Em Tom de Canção” (Lua Music/ 2011). 

Na Live desse ano em homenagem a Johnny Alf pelo Museu Afro-Brasil, Alaíde parece ter cativado mais um amigo – ou amigos. Após a Live, surgiram comentários da própria Alaíde que o renomado produtor Marcus Preto iria auxiliar a cantora num álbum para 2021 e que possivelmente o rapper Emicida também estivesse junto no projeto. Não bastasse isso, o álbum já estaria mobilizando uma série de artistas de peso: Joyce, Ivan Lins, Francis Hime e Guinga que teriam, em um curto período de tempo (entre agosto e outubro), enviado músicas para apreciação de Alaíde Costa. O álbum ainda nem foi lançado e já promete ser uma verdadeira “joia moderna”. 

Foto: Reprodução 

As surpresas não pararam por aí. Além desse álbum que promete muito e tudo indica que será lançado no ano que vem, Alaíde foi contactada novamente por um velho amigo. Ninguém menos que José Miguel Wisnik, ou aquele jovem estudante de Letras que pediu há 52 anos atrás pra Alaíde defender a primeira canção que havia composto num festival universitário. A conclusão é que Alaíde voltará a homenagear um amigo em um álbum de canções de autoria de Wisnik e que tem previsão ainda para esse ano próximo quem sabe no dia de aniversário de 85 anos da artista. “Outra Viagem” será uma das faixas, junto com outras tantas canções que Wisnik compôs entre o tempo de Maria Antônia e hoje. 

É como se a vida e obra de Alaíde fossem esse extraordinário caleidoscópio musical de amizades e afetos em que a música é o fio condutor de encontros que resistem ao tempo e à distância. Aos 85 anos, com mais de 20 álbuns lançados, e um rol de amigos pra lá de especiais, Alaíde continua sendo Alaíde, cantando como Alaíde, encantando como Alaíde e principalmente, nos tocando profundamente como Alaíde. E pronta para muitas “outras viagens”. 

Tiago Bosi


Imagem da capa, Foto de Maurício Nahas (Glamurama)


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