Música

Patrícia Ahmaral lança tributo inédito ao poeta piauiense Torquato Neto

segunda, 07 de novembro de 2022

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Brasileiro até o osso! Por Zeca Baleiro
Torquato Neto é pedra fundamental da poesia da canção brasileira moderna (e não só).
Sua obra ´musical´, ainda que constantemente revisitada em coletâneas e tributos, vive dispersa por aí,
atual e influente sempre, mas espalhada no vento tropical do Brasil, confundida com seu mito de gênio trágico.
Nunca dantes havia sido contemplada da forma apaixonada e exclusiva com que Patrícia Ahmaral agora o
faz neste álbum duplo.
Patrícia dividiu o repertório do poeta em um volume mais, digamos, existencial, e outro mais lírico/amoroso,
embora em Torquato tudo se misture e se confunda. Na poesia de Torquato tudo é caos. Por isso também é explosão de beleza. 
Como belo é este tributo feito com fervor devoto, delicado e furioso artesanato, brasileiro até o osso.
Senhoras e senhores, desfrutem com prazer deste 'Torquatotal'! (ZB)


Os fãs do poeta piauiense Torquato Neto (1944-1972), cujo cinquentenário de morte será no próximo dia 10 de novembro, poderão conferir, nesta data, um tributo inédito. A  cantora mineira Patrícia Ahmaral lança nas plataformas digitais  Um Poeta Desfolha A Bandeira, volume 1 do álbum duplo Patrícia Ahmaral Canta Torquato Neto. É o primeiro de uma intérprete no país dedicado às parcerias do artista, que incluem composições com nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico César, Rogério Skylab, entre outros. Personagem singular na cena cultural brasileira e um dos principais mentores do tropicalismo, Torquato cometeu suicídio aos 28 anos de idade, deixando um legado marcante, em poesia, jornalismo, cinema e música.

George Mendes, curador do Acervo Torquato Neto (Teresina-PI), celebra e observa não ter havido ainda uma regravação do letrista “em bloco”:  Faltava (…) Uma grande intérprete para grandes canções, recriadas no verniz do tempo (….) Pois aparece no meu radar uma certa cantora mineira, revelando uma enorme sensibilidade para a poética de Torquato Neto”.

Com direção artística do compositor Zeca Baleiro, a largada do projeto aconteceu em outubro com um single duplo, com participações de Jards Macalé e Chico César. Agora é CD Vol.1. A direção musical é de Rogério Delayon (Belo Horizonte-MG), Marion Lemonnier (Honfleur - FR) e Walter Costa (Petrópolis-RJ).


Participações especiais:

É um álbum aberto, com contribuições marcantes nas canções, explica Patrícia. Jards Macalé cravou violão e dueto de voz e releu seu próprio arranjo, de 1972, para Let´s Play That (Macalé e Torquato), no mesmo violão com o qual registrou a música, em seu 1º LP. Já a Banda de Pau e Corda, do Recife, repaginou Louvação (Gil e Torquato), num delicioso côco de arcoverde. Outros convidados são os paulistanos Maurício Pereira e Tonho Penhasco, em Mamãe Coragem (Caetano e Torquato), a também paulistana dupla Moda de Rock (dos violeiros Ricardo Vignini e Zé Hélder), em Marginália II (Gil e Torquato), além de Chico César em Quero Viver (dele e Torquato). 

Um Torquato não se faz só, brinca Patrícia, que continua: Nesse trabalho ele está compartilhado, ‘esparramado’ em conexões, como imagino que  gostaria!.

A semente desta homenagem surgiu há 20 anos, no espetáculo TorquaTotal, idealizado pelos poetas mineiros Ricardo Aleixo e Marcelo Dolabela (1957/2020) para a 1ª Bienal Internacional de Poesia de Belo Horizonte (1998). Patrícia recebeu e cumpriu a missão de pegar o 'escorpião' vivo, eletrificá-lo e destilar seus venenos em mais veneno, escreveu Dolabela. A mesma banda do show marca presença em duas faixas do álbum, com os arranjos da época.


Dois volumes e  um recorte temático:

O 1º CD, Um Poeta Desfolha A Bandeira,  traz 09 músicas de períodos diferentes, incluindo a Tropicália. Três do poeta com Gil (Geléia Geral, Marginália II e Louvação); duas com Caetano (Ai De Mim Copacabana e Mamãe Coragem); além de Três Da Madrugada (Carlos Pinto e Torquato); Let´s Play That (Macalé e Torquato) e de duas parcerias póstumas, Quero Viver (Chico César e Torquato) e Cogito (Rogério Skylab e Torquato).

No Vol. 02, A Coisa Mais Linda Que Existe, previsto para janeiro de 2023, Patrícia faz um recorte inusitado para a perspectiva normalmente trazida sobre Torquato, cantando suas canções com letras de amor, como a faixa título, parceria com Gil, além de Um Dia Desses Eu Me Caso Com Você (Paulo Diniz e Torquato Neto).

Patrícia Ahmaral por Kika Antunes

Patrícia comenta sobre direção de Zeca Baleiro:

Era importante contar com uma interlocução que compreendesse a dimensão de Torquato na história da cultura brasileira e suas conexões no presente. Além de compositor extraordinário, com um raro arrojo criativo, Zeca tem um faro para conectar pessoas e gestar as coisas. Foi um privilégio dos grandes. Ela conta que manteve também diálogos essenciais com os poetas Ricardo Aleixo e Marcelo  Dolabela na construção subjetiva do projeto. Acho que o nome de Torquato, com seu espírito libertário, cai como uma luva no momento, em contraponto ao obscurantismo na sociedade, finaliza. 


Encarte digital:

A partir do lançamento nas plataformas, o público poderá conferir letras, fichas técnicas, fotos e textos de apresentação em um encarte digital, com projeto gráfico do artista plástico Chico Amaral (Barcelona) e fotografias de Kika Antunes (Belo Horizonte-MG).


Sobre Patrícia Ahmaral: 

Patrícia Ahmaral iniciou carreira nos anos 1990, na efervescente cena musical belo-horizontina, que revelaria gente como Vander Lee (1966-2016). Seu CD de estréia, Ah! (1999), foi produzido por Zeca Baleiro. Depois vieram Vitrola Alquimista (2004) e Superpoder (2011), produzidos por Fernando Nunes e Renato Villaça. Em  arranjos personalíssimos, ela reverencia obras de autores como Walter Franco, Sérgio Sampaio e Alceu Valença, além de expoentes de sua geração, como Chico César, Zeca Baleiro e nomes  da cena independente, como Edvaldo Santana e Suely Mesquita. E faz leituras de clássicos, como A Volta Do Boêmio (Adelino Moreira) e Não Creio Em Mais Nada (Totó). É formada em canto lírico pela UFMG. Em seu trabalho de maior visibilidade, gravou na primeira exibição da novela Xica Da Silva (Rede Manchete) os temas de abertura e do personagem principal, na trilha sonora de Marcus Viana. 

Torquato Neto (anos 70)

Sobre Torquato Neto:

O poeta, letrista, jornalista, cineasta e ator Torquato Neto nasceu em 09/11/1944, em Teresina (PI). Após seu aniversário de 28 anos, cometeu suicídio, na madrugada de 10/11/1972, na sua casa no Rio de Janeiro, onde morava, desde 1962.

Parceiro de Gilberto Gil e Caetano Veloso, amigo de gente como o artista plástico Hélio Oiticica, o poeta Décio Pignatari e o cineasta Ivan Cardoso, por exemplo. Era defensor das artes de vanguarda como o cinema marginal e a poesia concreta. Considerado um dos principais pensadores do tropicalismo, segundo Gilberto Gil: Ele, Capinam e Caetano formavam um tripé. Torquato está na capa do LP-manifesto Tropicália Ou Panis Et Circense (1968) e assina duas faixas, Geléia Geral, com Gil e Mamãe Coragem, com Caetano.

Entre 1967 e 1972, escreveu  colunas culturais, dentre elas, a mais conhecida foi Geléia Geral, que manteve entre 1971 e 1972, no Jornal Última Hora (Rio de Janeiro), inaugurando um estilo, que abordava a revolução que acontecia na música e na cultura brasileira no período.

Torquato deixou um legado breve e plural, em jornalismo, poesia, cinema e composições, cada vez mais reverenciado em teses acadêmicas, documentários e compilações. Segundo o poeta e pesquisador Marcelo Dolabela, Torquato Neto é um dos poucos que se insere no seletíssimo grupo de artistas que, após a morte, tiveram mais obras lançadas do que quando em vida. Está ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Leminski e Vinícius de Morais.


Gilberto Gil em Torquato Neto - o vôo de fogo do poeta terminal, Tarik de Souza, 1984.

(Torquato) foi uma das pessoas mais influentes no sentido do levantamento ideológico da postura tropicalista. Ele, Capinam e Caetano formavam um tripé (...) .


Cláudio Portella, no prefácio de Melhores Poemas , 2018:

Conforme (afirma) José Miguel Wisnik, ele é o primeiro a unificar a densidade entre a poesia escrita e a cantada.


Paulo Leminski, em Folha De São Paulo, Folhetim, 7/11/1982:

Torquato marca uma mudança radical, um salto quantitativo, na história disso que se chama, na falta de termo melhor, poesia brasileira. Poesia que, hoje, não apenas se lê nos livros, mas se escuta nas canções, nos discos, nos rádios, na TV, na vida, enfim. Torquato tem muito que ver com isso (...) Porque, com Torquato, começa a existir essa estranha estirpe de poetas: os letristas. 


Ouça o único registro da voz de Torquato Neto,  áudio recuperado em 2014 pelo radialista Vanderlei Malta, que o entrevistou no festival da Record de 1968.



 


Lançamento do álbum: Um Poeta Desfolha A Bandeira 
Patrícia Ahmaral Canta Torquato Neto - vol.1

Data: 10/11 - nas plataformas digitais de áudio
9 faixas - Independente
Direção Artística: Zeca Baleiro
Direção Musical: Rogério Delayon, Marion Lemonnier  e Walter Costa.
Projeto gráfico: Chico Amaral
Fotografia: Kika Antunes/ assistente: Ester Antunes 
Distribuição digital: Tratore
Projeto gravado com recursos da Lei Aldir Blanc (2020) e através de campanha crowdfunding


Encaminhado por Tambores Comunicações

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