Música

Paulo César Pinheiro: Acumulando parceiros na vida e nas canções

domingo, 28 de abril de 2019

Compartilhar:

Dizem os versos seus, musicados por Wilson das Neves: “O samba é meu dom/Aprendi a fazer samba/Com quem sempre fez samba bom.” Pelo visto, aprendeu com as próprias ferramentas, no desempenho incansável do ofício. Paulo César Pinheiro fez o próprio caminho em mais de 40 anos de caminhada, na mais perfeita vereda já aberta na MPB, em qualidade, quantidade, variedade e grandeza. Paulinho é velho no samba, mas jovem na idade: nasceu no dia 28 de abril de 1949.

Como a justiça tarda mais não falha, o grande poeta recebeu em 2003 o cobiçado Prêmio Shell de Música Brasileira, passando a fazer parte de uma galeria que ostenta, entre outros, os nomes de Tom Jobim, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Braguinha, Milton Nascimento, Herivelto Martins, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Zé Keti, Élton Medeiros, Carlos Lyra e a dupla de craques João Bosco/Aldir Blanc. A entrega do prêmio foi uma festa bonita e emocionante, quando o poeta cantou, contou histórias e comoveu os presentes com sua voz rouca e poderosa.

Quem gosta de música brasileira tem todas as razões para gostar do compositor Paulo César Pinheiro. Em termos numéricos, pelas mais de mil lindas canções que esse criador imbatível tem, sozinho ou com os parceiros mais diversos – prova de sua imensa generosidade. Em termos simbólicos, porque Paulinho é mesmo um sujeito amável, em todos os sentidos. Aquilo que, no tempo em que Dondon jogava no Andaraí, nós chamávamos de “coração de ouro”.

Conheço a obra de Paulinho Pinheiro desde que me entendo por gente e ele por gênio. Desde as primeiríssimas. Ainda corria atrás de bola de meia e de gude, no interior da Bahia, e já ouvia abilolado um samba assim: “Quando eu morrer, me enterre na Lapinha/Calça culote, paletó e almofadinha”, parceria com Baden Powell e vencedor da I Bienal de Samba da TV Record. Fizemos uma versão na escola, de pura sacanagem: “Quando eu morrer, me enterre na latrina/De lá de baixo eu vejo a bunda das meninas.”

Além da maior obra da MPB, Paulo César Pinheiro é poeta em livro, desses bastante premiados. Pelo menos quatro eu tenho: “Poesia quando estala/Deixo pronta a minha mala/Porque eu sou seu menino/ E do jeito que ela fala/ Sempre tem festa de gala/ Pra mudar o meu destino.” Não é pouco.

De Baden para cá, o poeta foi acumulando parceiros na vida e nas canções. Todos o amam e o admiram. Dá pra citar, entre os que já foram e os que ficaram, João Nogueira, Mauro Duarte, Eduardo Gudim, Francis Hime, Raphael Rabello, Edu Lobo, Tom Jobim, Dori Caymmi, Maurício Carrilho, Moacyr Luz, Aldir Blanc e mais tantos, tantos e tantos. Intérpretes de suas canções? Além do próprio, que quando cria coragem desembucha a voz rouca e potente como se estivesse na sala de jantar, podemos lembrar de Elza Soares, Cristina Buarque, Clara Nunes, Elis Regina, Beth Carvalho, Alcione, Simone, Quarteto em Cy, Nana Caymmi, Dorina...

Para usar uma gíria moderna, Paulo César Pinheiro é tudo de bom. Para usar uma mais antiguinha, vinda lá de Irajá, por um amigo do Nei Lopes, Paulinho é meu e o boi não lambe. E se o boi lamber eu mato o boi.



Texto extraído do livro "Com esses eu vou - De A a Z, crônicas e perfis da MPB", de Luís Pimentel.

Referência: Pimentel, Luís, 1953 - Com esses eu vou: de A a Z, crônicas e perfis da MPB / Luís Pimentel
Ilustrações Amorim. - Rio de Janeiro: Zit, 2006.


Comentários

Divulgue seu lançamento