Música

Quando a síntese de João Donato se mistura ao lance de Jards Macalé
Dupla lançou álbum pela nova gravadora Rocinante em 22 de outubro

sábado, 06 de novembro de 2021

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Um nasceu no Acre, em 1934. O outro, no Rio de Janeiro, em 1943. Um foi expoente da bossa nova com o plus das fusões jazzísticas. O outro, um farol sempre na vanguarda, com talentos múltiplos e muitas histórias para contar. De 1960 para cá, os dois cruzaram acordes com quase todos os grandes nomes da nossa música popular e lançaram discos essenciais. Curiosamente, as trajetórias fluíram em paralelo. Até SÍNTESE DO LANCE (Rocinante), o álbum que chegou às plataformas no dia 22 de outubro, com amostras da amizade recente de João Donato e Jards Macalé.

É como se esses dez temas, entre cantados e instrumentais, fossem o suprassumo de tudo o que escutaram e tocaram por aí no arco do tempo. SÍNTESE DO LANCE vibra para cima. "É um caleidoscópio sonoro que alivia as tensões. A cada audição, aparecem outros detalhes. Estou feliz", afirma Macalé. Feliz é um bom adjetivo para a bolacha, a terceira lançada pela Rocinante este ano, o terceiro de atividade da nova gravadora que está calibrando as engrenagens para inaugurar fábrica própria de elepês.

"Queríamos gravar um disco com o Donato e tínhamos acabado de gravar um com o Jards interpretando Zé Kéti, que lançaremos em breve. Um dia deu um estalo e imaginei os dois compondo, tocando e cantando juntos: eles toparam na hora! Um sonho", comemora o poeta e músico Sylvio Fraga, co-produtor do disco com o sócio Pepê Monnerat e o trombonista Marlon Sette, que também fez os arranjos de metais. Esse convite foi uma dádiva. "Desde muito jovem, quando comecei a gostar de música, sou fã incondicional de João Donato. Era um dos quatro músicos que mais ouvia, ao lado de Johnny Alf, João Gilberto e Tom Jobim. Fui muito amigo desses três e Donato era quem faltava na minha coleção de amizades", pontua Macalé. 

"Estar perto do Macalé é uma coisa maravilhosa! Fica sempre esse clima de alegria. O nosso encontro é pura bem-aventurança", exulta Donato. 

Um balanço latinoamericano

"Côco Táxi" é a primeira parceria destes senhores com alma de criança e foi um dos singles lançados para anunciar o álbum. Em diferentes momentos, eles já andaram no Côco Táxi, um triciclo envolto por um grande côco, pitoresco meio de transporte usado por turistas em Havana, Cuba. "O João me mandou um tema para finalizar: veio o 'côco táxi, côco louco' e uma segunda parte bem a cara dele. O que fiz foi entrar na dança, completar o tema e caprichar na letra", conta o carioca da Tijuca. "Lembrei das andanças no Malecon, uma avenida enorme que cruza Havana, entre o mar verde e um azul profundo no céu. É um veículo inseguro. A cada esquina parece que ele vai virar", diverte-se Macalé, para quem a música que inaugurou para valer a parceria com Donato traz um saboroso "balanço cubano latinoamericano". As outras nove faixas nasceram individualmente - Macalé compôs "João Duke" e "Lídice" (feita abraçado ao violão, numa rede, na pequena cidade homônima, no interior do Rio, quando o casal visitava uma amiga) - e com outros parceiros, caso de "Um abraço do João" (Macalé e Joyce), "Ontem e hoje" (Macalé e Sylvio Fraga), "Caruru" (Sylvio e Marlon Sette) e "Açafrão" (Donato, Sylvio e Marlon).Chama a atenção o carinho que os músicos fazem em suas companheiras. "Dona Castorina", a segunda faixa do disco, o pianista dedica à Ivone Belém, com quem está casado há 22 anos. "O amor vem da paz" (primeira parceria a ser gravada de Macalé e Ronaldo Bastos,letrista de imensa delicadeza) sela a década de união do violonista com Rejane Zilles.

A música corre fácil

João Donato conta que estava folheando um caderno de composições e encontrou uns rabiscos com o título "Síntese do Lance" e trechos de partitura que apontavam para um ponto de umbanda. Donato chamou o Marlon Sette para completar o esboço. "Marlon escreveu uma segunda parte muito bonita e ficamos muito alegres com essa música. Tudo o que nos alegra é mais do que bem vindo!", exulta. A certa altura, um coro não planejado entra em ação. "Foi espontâneo. Todas as pessoas que estavam no estúdio, os instrumentistas, Rejane e Ivone, foram chamados a cantar. Virou um congraçamento, já que foi a nossa última sessão no estúdio da Rocinante, em Araras", rebobina Macalé.

Ao falar sobre a música que batiza o álbum, ele define muito bem o lançamento como um todo: "O que é a síntese do lance? Extrair o néctar, o âmago das coisas. É ir direto ao ponto. A música corre fácil, fazendo a vida ficar mais simples e foi inspirada na entidade do Zé Pelintra". Salve essa novíssima dupla da nossa MPB!


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