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Quem é o autor da música "Cidade Maravilhosa"?

quinta, 15 de agosto de 2019

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A expressão “cidade maravilhosa” não era inédita quando virou título da marcha de Carnaval (e, depois, hino oficial da cidade). Ela foi criada pelo escritor maranhense Coelho Neto no artigo Os sertanejos para o jornal A Notícia, em 1908. Coelho Neto também publicaria um livro de contos chamado A cidade maravilhosa, primeira tiragem em 1928. Apesar de toda a polêmica, “Cidade maravilhosa” foi lançada em 1934 e não fez muito sucesso, passando quase despercebida — só conheceria sua consagração no Carnaval de 1935. Ressalte-se que a primeira parte da música é um plágio de Mimi é una civetta, do terceiro ato da ópera La Bohème, de Puccini. Aliás, a autoria desta marcha é atribuída oficiosamente a Noel Rosa. E a fonte dessa informação é ninguém menos que o irmão do compositor, o psiquiatra Hélio Rosa, que a teria revelado ao primo Jacy Pacheco, primeiro biógrafo de Noel em livro. Não apenas o disse, como pôs por escrito numa folha datilografada. Infelizmente, sem assinatura. Mas o documento foi encontrado quando Jacy vendeu a Carlos Didier o acervo de Noel Rosa, material fundamental com que depois escreveria, com João Máximo, Noel Rosa – uma biografia

Conta-se o seguinte: Jacy Pacheco e Hélio Rosa moravam juntos em Niterói quando o primeiro teve a ideia de colocar a vida de Noel em letra de imprensa. Hélio foi a principal fonte do livro. Por isso, a história parece plausível. Aliás, a marcha tem uma segunda parte ao estilo do Poeta da Vila. Sabe-se, além do mais, que Noel e André Filho eram amigos, tendo sido parceiros no samba “Filosofia”, gravado por Mário Reis em 1933, outra música com letra e melodia típicas de Noel. Um fato frequente, como registrou Jacy Pacheco, cheio de ironia, em seu Noel Rosa e sua época: “Aqui nos lembramos de composições que ele deu e que vendeu. Que foram divulgadas com outros nomes... dentro da cidade maravilhosa, cheia de encantos mil...”

André Filho morou na casa da mãe do músico Oscar Bolão entre o final dos anos 50 até início dos 60. Bolão conta, em depoimento aos autores, que André sofria de problemas psiquiátricos, tendo sido internado no hospital da Ordem do Carmo. Foi ali que, quando soube, tempos depois, por meio de um repórter do Diário da Noite, que “Cidade maravilhosa” tinha sido reconhecida como marcha oficial da cidade do Rio de Janeiro — por meio da Lei n.o 5, de 5 de maio de 1960 —, enfiou a cabeça dentro do vaso sanitário e, dando descarga, gritava: "tô rico, tô rico” .

No entanto, o Rio de Janeiro quase perdeu seu hino oficial no final de 1967, quando um deputado apresentou um projeto de lei à Assembleia Legislativa sugerindo um concurso para escolha de novo hino. Argumentou que a marcha era “música alegre, balanceante, carnavalesca e irreverente para o ritual das solenidades sérias e imponentes, às quais se torna forçoso o comparecimento de autoridades dos três poderes constituídos, bem como de personalidades estrangeiras”. Os cariocas protestaram. No início de 1968, jornalistas dos principais periódicos da cidade escreveram a favor da marchinha. Artistas como a cantora Aracy de Almeida, o compositor Fernando Lobo e o ator Grande Otelo vieram a público manifestar sua indignação. Em agosto daquele ano, o presidente da Assembleia desistiu do concurso. A marcha é cantada até os dias de hoje por foliões de todas as cidades do Brasil. É como se o título de cidade maravilhosa não pertencesse somente ao Rio de Janeiro. Os “encantos mil”, anunciados na marchinha em homenagem à cidade dos cariocas, passaram a adjetivar todas as cidades brasileiras. Quando a orquestra ataca a sua introdução instrumental, avisa a todos que o baile está chegando ao fim.


Fonte da imagem: marchello74/Adobe Stock 

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