Almanaque do Rock Brasileiro

RPM Ao Vivo - Luz, Câmera, Ação

quarta, 23 de fevereiro de 2022

Compartilhar:

Ainda faltavam algumas coisas para os anos 80 serem de fato os anos 80, ao menos na música. A primeira é a onda da New Wave que por volta de 1985 já começava a dar seus últimos suspiros, entretanto ainda tinha uma grande força, pois foi neste ano que tivemos “Take On Me”, do A-HA, e o Menudo também começava a fazer sucesso no Brasil. Ainda assim, por aqui a New Wave ainda era um movimento que não havia conquistado o grande público. Tínhamos, sim, bandas que faziam esse som, no entanto, poucas aconteceram ou fizeram um estrondoso sucesso apenas neste estilo. Ele circulava em algumas canções e músicas internacionais que por aqui chegavam, alguns artistas até se arriscaram a entrar nessa "nova onda" em uma música ou outra, não muito mais do que isso.A segunda coisa que faltava era uma super banda, uma beatlemania, porém ainda mais curta, e mais “Sexo, Drogas e Rock Roll’n”.

Tudo isso aconteceria com a chegada do RPM, uma banda lotada de sintetizadores, com um frontman que conquistaria todas as garotas da sua geração e com um sucesso nunca antes visto no Brasil. Com Revelações por Minuto, tudo o que faltava para o Rock Brasileiro, já não faltava mais.


Prólogo

Sabe aquele banda onde a visibilidade vem, mas o dinheiro não entra assim tão bem, os shows não são muito legais e tudo o que se tem é somente a fama? Esse era mais ou menos o RPM no começo de sua carreira. O dinheiro até entrou quando assinaram com a CBS, já que ganharam um adiantamento da gravadora e ainda tiveram um álbum garantido por contrato. Sucesso também havia, pois o CPS “Louras Geladas/Revoluções por Minuto” (1984) foi bem sucedido, ainda que de forma tardia, mas o compacto gerou o primeiro problema financeiro para a banda que mais tarde voltaria a assombrar. Louras Geladas foi explosão total, o que só aconteceu devido aos remixes por cima da música, fosse em casas noturnas ou nas rádios. Como os próprios integrantes diziam: era comum encontrar várias versões para a música. E com o sucesso da canção nas boates, os shows da banda eram quase todos em casas noturnas, fazendo deles populares neste circuito.

A parceria com o empresário Manoel Poladian foi o que, de fato, fez a banda popularizar e mudar exatamente tudo o que precisava ser mudado. Com sua entrada, o RPM ganhou grande aporte financeiro e investimento pesado em marketing e na produção de shows. As apresentações saltaram de boates para ginásios e badaladas casas noturnas, e, o principal, a banda agora contava com a direção artística de Ney Matogrosso, um divisor de águas.


Rádio Pirata Ao Vivo o disco de uma música

Agora pense em uma banda, ou artista, com apenas um álbum de estúdio ganhar um disco ao vivo. Hoje em dia isso acontece com mais frequência, mas nos anos 80 isso não era comum. Entretanto, com o RPM isso aconteceu, tudo por conta de uma música apenas: “London London” - sucesso nas paradas, porém sem nenhum lançamento oficial da banda. Há quem diga que houve uma sugestão de lançar a música em um compacto, mas o que vingou foi a ideia de um novo álbum.

O disco Rádio Pirata Ao Vivo” (1986) divide opiniões pela falta de um repertório e pelo fato de ser tão precoce, mas ele traz, mais uma vez, o sucesso e refaz o que não havia sido bem sucedido. O resultado final foi triunfal e avassalador. Talvez esse tenha sido um retrato fiel dos anos 80, uma geração descontraída porém séria e engajada. Esse disco é lotado de sintetizadores, a tal ponto que, se alguém quiser saber como soava a música naquela década, esse acetato é uma boa pedida. Prova disso é a faixa inédita “Naja”, onde Luiz Schiavon pode brilhar totalmente em seus teclados. Nela, também podemos ver que a grande proeza do grupo, que era ser uma banda New Wave que toca os instrumentos, e não um emaranhado de sons sintetizados.

Os teclados soam perfeitos em quase tudo, a única “crítica” que faço é por conta de “Revoluções por Minuto” e “Alvorada Voraz” serem músicas muito alto astral para falar de um assunto sério, mas ainda assim mostra que o som não é apenas para divertir. O que surpreende no disco é como ele soa bem, mesmo com toda a produção e overdubs que podem ter sido feitos, ele é um disco bem produzido e bem gravado para o seu tempo. E essa produção ajuda em outras faixas inéditas como a já citada “London London”. A versão do grupo para a música é como eu chamo “versão Broadway”, aquele momento do espetáculo onde o protagonista canta, dança, sorri e neste momento chora, o piano nesta música dá esse tom de melancolia e tristeza para a música, mas ela tem uma beleza que mostra que o grupo não é apenas um rosto bonito.

Outro grande cover fica por conta de “Flores Astrais” em uma versão eletrônica que deixa o clássico dos Secos e Molhados com uma outra cara, mais jovial e mais anos 80. Mas nada se compara com o final estrondoso de “Rádio Pirata”, começar um show é fácil, agora terminar deixando um sabor de quero mais é muito difícil, e eles conseguiram isso, essa música nessa versão faz o LP ou CD rodar em looping.

Por fim, esse disco bateu recorde de vendas, sendo ao todo 3,7 milhões de cópias vendidas na época, sendo o maior acontecimento comercial da história do Brasil até então. O resultado foi tão bem sucedido que o show gerou um VHS, em uma época que ele ainda era um artigo de luxo para a música. E com esse disco, a banda conseguiu ter um “Globo Repórter" dedicado a ela, em uma época que esse era o maior programa da televisão brasileira, especializado a explicar os assuntos em alta.



Comentários

Divulgue seu lançamento