Cultura

Samba: suas várias formas e designações

quarta, 27 de março de 2019

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Apesar de nascido após a modinha e o choro, o samba é, incontestavelmente, a forma que mais se impôs no país, podendo mesmo ser qualificado de alma brasileira. Como lembra o pesquisador José Ramos Tinhorão, o samba corresponde à manifestação musical mais representativa das novas camadas de trabalhadores urbanos, tal como a modinha representava anteriormente o espírito refinado das elites burguesas, e o choro, a criatividade da heterogênea classe média composta da mistura de brancos e mestiços (o que não impediu que o maior chorão de todos os tempos fosse um negro ébano, o saudoso e imortal Pixinguinha). Assim sendo, não deixa de ser coerente o fato de o instrumento típico da modinha de salão do século XIX ter sido o piano, enquanto o choro se fixou no terno de pau e corda (a flauta de ébano, o violão e o cavaquinho), ficando para o samba, inicialmente, a percussão de adufes, surdos e pandeiros, instrumentos, por um lado, indicadores de sua vinculação à origem negro-escrava dos batuques, por outro, de fácil possibilidade de acesso pelas classes menos favorecidas. Ao longo de, pelo menos, sete décadas de existência oficial, o samba evoluiu para várias formas, assumindo distintas designações, tais como: 

  • Samba-raiado: primeira designação que Caninha, um tradicional sambista, declarou ouvir na casa de tia Dadá, uma das promotoras das tradicionais e animadas reuniões musicais do começo do século no bairro carioca da Saúde, e logo substituída por outra.


  • Samba de partido alto: que se consagraria pela melodia ampla aliada à riqueza percussiva, com os partideiros improvisando sobre o tema dado. 


  • Samba de morro: termo nascido na década de 30 para designar a forma mais autenticamente popular e carioca, no estilo dos compositores do velho bairro do Estácio.


  • Samba de terreiro ou de meio-de-ano: designação que assume, nas escolas de samba, as composições desvinculadas do carnaval.


  • Samba-canção: forma musical oficialmente lançada por Aracy Cortes em 1928 num teatro de revista carioca, cantando Ai, Ioio, de Henrique Vogeler. Desde logo, esta variação despertou o interesse das novas camadas da classe média, que lhe aportaram sofisticação e requinte, como é o caso dos compositores Noel Rosa, Lamartine Babo, Ari Barroso.


  • Samba-enredo: composto exclusivamente para o desfile das escolas de samba e produzido de encomenda sobre um tema histórico e brasileiro, o gênero começou a ter sucesso comercial nos anos 70, tornando-se música obrigatória também no carnaval de salão, em todo o país. 


  • Samba-choro: desde a bem sucedida experiência do samba-canção, surge mais esta variação, logo seguida de outras, ainda no começo dos anos 30. Apareceu expressamente em seio de disco com a gravação de Amor de Parceria, de Noel Rosa, em 1935.


  • Samba de breque: variante do samba-choro, caracterizado por paradas bruscas para o encaixe de frases faladas (como passaria a fazer o cantor Luiz Barbosa; Moreira da Silva, a partir de 1936, difundiu tal recurso com o samba Jogo Proibido, de Tancredo Silva, forma também adotada por Cyro Monteiro e outros grandes sambistas).


  • Sambolero e sambalada: formas surgidas nas décadas de 40 e 50, vistas pela crítica como produtos da manipulação consciente e oportunista das possibilidades de adaptação do gênero (samba) a outros estilos (no caso, o bolero e a balada americana), com objetivo massificador e comercial.


  • Samba sessions: reuniões produzidas por um grupo de jovens músicos cariocas de uma classe média ascendente que, em meados dos anos 50, inconformados com o desprestígio das formas sambistas apócrifas, tocavam samba com o emprego do estilo improvisativo do jazz norte-americano, numa busca e inquietação que conduziriam ao movimento que se consagrou como Bossa Nova.


  • Sambalanço: uma espécie de meio do caminho entre o samba tradicional e a bossa nova, sendo cultivado pelo inrotulável Jorge Ben.


  • Samba jazzificado: movimento liderado por Carlos Lyra e Nélson Luís e Barros e seguido por outros compositores da bossa nova, os quais buscavam uma solução de massa para o caráter excessivamente intimista proposto por João Gilberto. Esta iniciativa permitiu o surgimento de tendências expressas pelos festivais de MPB nos anos 60 e 70.


  • Samba de moderno partido: corrente contemporânea liderada por Martinho da Vila e que se caracteriza por uma linha viva e irônica, mantendo, porém, a tradicional riqueza de percussão sambística.


  • Sambão: utilização da criação popular do autêntico samba que, nascida na década de 70, ampliou-se na década de 80, sempre com fins de conquista do mercado fonográfico, obedecendo aos ditames puramente comerciais.



Texto extraído de: 
Souza, Tárik de – Vasconcelos, Ary – Moura, Roberto M. – Máximo, João – Muggiati, Roberto – Mansur, Luiz Carlos – Santos, Turibio – Sant’Anna, Affonso R. – Cáurio, Rita. Brasil Musical/Musical Brazil – Rio de Janeiro: Art Bureau Representações e Edições de Arte, 1988 – 304 pág., Il. – Resumos em Inglês.
1. Música popular – História – Brasil
2. Título


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