Na Ponta do Disco

'Se Oriente, rapaz!' Gil na USP e uma outra perspectiva de Brasil
Por Lara Tannus

segunda, 22 de fevereiro de 2021

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"Oriente" foi uma das composições mais marcantes e simbólicas da carreira de Gilberto Gil. Integrando "Expresso 2222" (Phillips/1972), álbum lançado alguns meses após o artista retornar do exílio, a música que coloca em diálogo o pensamento Ocidental e Oriental propõe uma lembrança de um Brasil não eurocêntrico, construído também por uma perspectiva de suas origens orientais, árabes e africanas. Ao se apresentar ao vivo na Universidade de São Paulo (USP), em 1973, em plena Ditadura Militar no país, Gil adicionou mais elementos à música, como improvisações e diálogos, que nos possibilitam mergulhar ainda mais na atmosfera que propunha com a composição.

O show foi realizado a convite dos estudantes que se mobilizavam após o assassinato do estudante de geologia Alexandre Vanucchi Leme, conhecido como Minhoca, visto pela última vez nas dependências do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). O público consistia basicamente na presença de jovens ligados ao movimento contracultural e dos estudantes vinculados aos movimentos de esquerda. 

Praticamente clandestino, o show foi registrado em um gravador de rolo de um dos estudantes de engenharia, o Guido. Resgatado apenas anos depois, cópias em fita cassete foram feitas e começaram a circular. Passado por remasterização, hoje, graças à gravação do estudante, temos acesso a esse momento histórico e podemos escutá-lo nas principais plataformas de música. 

Legenda: Show de Gilberto Gil na Escola Politécnica, USP. (Imagem: cartacapital.com)

Recém chegado do exílio (1972), Gil apresentou um repertório diverso, fruto de uma bagagem cultural adquirida nos anos fora do Brasil. O artista aflorava uma riqueza musical com influências do rock, reggae jamaicano, da música oriental, e ainda carregando traços tropicalistas. Apresentou faixas de "Expresso 2222", como "Oriente", "Expresso 2222" e "O Sonho Acabou". Também resgatou conhecidas de sua carreira como "Domingo no Parque", canção que ganhou segunda colocação no Festival da Canção de 1967. Tocou uma variedade de sambas e celebrou músicas de artistas como Germano Mathias, Almira Castilho e João Gilberto. Com muitos pedidos do público, cantou "Cálice", composição sua com Chico Buarque, que foi censurada na Mostra promovida pela Phonogram, em maio de 1973 — algumas semanas antes do show na USP, ocorrido no dia 26 de maio. No evento, os microfones de Gil e Chico foram interrompidos durante a apresentação da canção. 


Diante das 24 músicas apresentadas no dia do show, "Oriente" nos chama a atenção pela grande gama de símbolos que nos apontam tanto para um momento da vida de Gil, quanto para a necessidade de se compreender uma outra perspectiva de Brasil. 

A música foi composta em 1971, quando Gil estava exilado em Ibiza, uma das ilhas baleares localizadas na Espanha e considerada por ele como o “refúgio dos hippies e paraíso da contracultura”. Numa noite, Gil avistou uma estrela que, em sua mente, simbolizou um aviso para que se “orientasse”. 

 “Eu estava à porta do chalé, fitando a transmissão do céu azul para o céu noturno; começavam a surgir as primeiras estrelas. Sandra [sua esposa na época], lá dentro, preparando alguma coisa, e eu ali, quieto. De repente eu vi uma estrela cadente e aquilo me deu interiormente a sensação de uma voz. ‘Se oriente!’”

Essa orientação inspirada pela estrela, que logo se fez em forma de meditação, marcava um período importante em sua trajetória profissional, pessoal e espiritual, e se tornou uma música de grande importância na época. 

No show ao vivo na USP, o espírito de "Oriente" estava latente. Foi a primeira música da apresentação e teve duração de 8' 53'', quase o dobro da gravação original do disco. Iniciando com o violão, que marcava um baixo contínuo similar aos mantras relacionados à música oriental, a harmonia se encontrava tanto na escala modal (comum no Oriente), quanto na tonal (comum no Ocidente). Gil brincou com essas escalas, construindo um diálogo flexível entre elas. 

Esse jogo de duplo sentido pode ser observado do mesmo jeito na letra da canção. “Se oriente” pode significar um termo imperativo, um conselho para que alguém encontre uma direção e um caminho a seguir. No caso da letra, a orientação para a busca do “curso de pós-graduação” simbolizaria uma decisão de Gil, pela recusa da pós-graduação na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. 

No entanto, o termo também aponta para o sentido do substantivo Oriente, que, segundo o Dicionário Online de Português, é “Um dos quatro pontos cardeais que corresponde ao Leste (lado do horizonte onde nasce o sol)”. Oriente também pode ser considerada a região da Ásia e de alguns países do Leste Europeu. 

Gilberto Gil já vinha se banhando das influências orientais atreladas ao movimento da contracultura, que referenciava o I Ching, Hare Krishna e toda uma razão que justificaria parte não apenas de sua obra, como a dos demais tropicalistas. No exílio, aprofundou-se ainda mais em práticas ligadas ao pensamento oriental como a meditação e a dieta macrobiótica, além de entregar-se às sensações psicodélicas pelo uso de muitos alucinógenos, como maconha e LSD. 

Gil em Londres em 1969

Quando escutamos "Oriente" cantado no show da USP, deparamo-nos, a partir dos 2’ 11’’, com uma atmosfera de improviso. Gil inicia um canto que se assemelha muito a cantos de escala árabe, que também se associam aos cantos repentistas do sertão do nordeste brasileiro, região que carrega fortemente as permanências de povos de cultura árabe.

“Esse canto é o mesmo na Arábia Saudita, [...] das terras malditas do Nordeste” 

Em seguida, a voz de Gil ganha duas personas que estabelecem um diálogo em conflito: a voz do sujeito ocidental, industrial e moderno que grita “Isso aqui é o Brasil! É o Ocidente! É uma nação Ocidental, rapaz, industrial! Não tenho nada a ver com isso não!”, enquanto o sujeito oriental se mantém em cantos, repetindo sempre a sílaba “nhá”, como um mantra. 

Essa contraposição no improviso pode ser considerada o ponto crucial da versão de "Oriente" na USP, pois potencializa a ideia de convergência entre o mundo ocidental e oriental no Brasil. O conceito de Oriente muitas vezes não é compreendido em sua complexidade, podendo muitas vezes ser generalizado, justificando um discurso de poder Europeu do chamado “mundo ocidental”. No entanto, esse "Oriente" que Gil traz pode ser interpretado justamente como as faces que enfrentam uma dominação de razão aristotélica e eurocêntrica.

Mas não foi somente nesse momento que Gil manifestou sua música pelas lógicas que fugiam aos padrões ocidentais. Em muitos processos de sua obra, podemos ver essas perspectivas se manifestando, como na própria Tropicália — movimento contracultural, do qual ele esteve à frente junto de Caetano Veloso

Segundo Tom Zé, os tropicalistas baianos tiveram contato intenso com a cultura da oralidade na infância, ligada às heranças árabes que suas regiões carregavam. Isso culminou em uma memória primária, denominada por ele de “creche tropical”. Ao terem contato com a educação europeia, as crianças se ocidentalizaram e jogaram na “lata do lixo cerebral” as memórias primordiais. Apenas posteriormente, com o momento da contracultura, há o resgate do “lixo jogado na memória da infância” e surge, então, a síntese daquela dualidade. A Tropicália: O “Lixo Lógico” desses artistas.

No caso de "Oriente", o canto e a comparação da “Arábia Saudita” com o nordeste brasileiro nos possibilita pensar na presença do mundo árabe na região, que se deu através de diversas origens, como pelos Moçárabes da Península Ibérica, pelos libaneses e sírios do Oriente Médio e pelos Malês, muçulmanos escravizados que instauraram uma espécie de “microislã” na Bahia. Esta última é importante de ser destacada, não somente pelo processo de apagamento que sofreu, mas pelas conexões que podemos traçar entre Ocidente, Oriente, África e Bahia - terra natal de Gilberto Gil

O Brasil recebeu milhares de escravizados de povos islamizados da África, principalmente na região do Sudão Central. Comercializados após a Jihad no Califado de Sokoto, esses povos eram compostos por diferentes etnias como Hauçá, Nupe, Bornu, Jeje e Nagô, configurando uma mudança na população étnica da Bahia no final do século XVIII e ao longo do XIX. Era através da Baía de Benin (uma das principais regiões de tráfico escravocrata no começo do século XIX) que os escravizados muçulmanos eram comercializados nas Américas. 

Com uma forte resistência e espírito de liderança, o islamismo se instaurou na Bahia principalmente pelos Hauçás, povo de grande concentração em território baiano devido a Jihad na África. No entanto, mais do que manter viva a religião, havia um processo de expansão do islã principalmente entre os africanos (escravizados e libertos) em que muitos sincretismos com as religiões afro-brasileiras ocorreram.

A africanidade anda junto com essa atmosfera Oriental proposta por Gil, se observarmos a descrição de Sheyla Diniz em seu artigo “Se oriente, rapaz...”:misticismo, dualidade e anomia na canção “Oriente”

“O ritmo sincopado, por sua vez, faz lembrar o suingue de um berimbau, especialmente o chamado “toque angola”, se executado em andamento mais acelerado. A alusão a esse instrumento, indispensável na capoeira (luta-dança de origem africana), reafirma a sensação de transe.”

São formas das heranças não ocidentais no Brasil que são manifestadas e lembradas pela voz do músico baiano e que podem nos remeter a essas presenças árabes em suas várias origens. As constantes idas a Salvador quando ainda morava em sua cidade natal, Ituaçu, poderiam deixar ainda mais viva essa memória no seu imaginário, uma vez que frequentava muito as festas da cidade, incluindo as do bairro de Santo Antônio, que tinha os árabes como importante parte de sua população.

"Oriente" é uma perspectiva. Uma das várias perspectivas que Gilberto Gil incluiu e inclui até hoje em sua existência. Mais do que se fixar em um lado, a genialidade do músico está na tentativa de sempre colocar em conversa e em conflito os lados do mundo. Nos faz entender que isso faz parte de ser brasileiro, e que o Brasil é também Oriental. Nos mostra através de sua trajetória que os modos de existência são plurais. É viver a infância no sertão e no litoral ao mesmo tempo, é juntar as referências da Banda de Pífanos de Caruarú e Lia de Itamaracá com Beatles. É dialogar Jackson do Pandeiro e Hendrix. É REsgatar e propor. No momento em que canta "Expresso 2222" na USP, Gil improvisa dizendo ao público que “tudo tem um lado, tudo certo, tudo errado”, e finaliza com a seguinte conclusão inconclusa: “é a chamada dialética”. 

Compor "Oriente" fora do Brasil não parece ter significado um distanciamento de sua origem. Pelo contrário, parece ter sido uma saudade e uma tentativa de reaproximação — tamanho foi o significado da música na carreira do artista. O show na USP, que simbolizava um ato de resistência à Ditadura Militar no país, traria uma perspectiva aos estudantes que significaria, na verdade, um resgate das faces pouco lembradas do Brasil. Naquele momento, o Brasil não era apenas a indústria, a modernização e o “Milagre Econômico” do governo Médici. Ele era algo a mais. Era um pensar diferente, era o Oriente, era o canto dos árabes, que era o mesmo no Nordeste. Era África e resistência. “A constatação de que a aranha vive do que tece” nos mostra que uma sociedade é feita de sua história, e que, assim como uma teia, é complexa. Gil traz para nós o Brasil do Ocidente e do Oriente. E ele quer ser conhecido, rapaz! “Vê se não se esquece”. 

Lara Tannus


Lara Tannus é graduanda em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). É produtora cultural, pesquisadora e musicista. 

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