Na Ponta do Disco

Seu Carlão do Peruche, o griot do samba paulistano completa 90 carnavais
por Bruno Sanches Baronetti

domingo, 24 de janeiro de 2021

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No dia 11 de setembro de 2020, Carlos Alberto Caetano, o Carlão do Peruche. um dos mais importantes sambistas de São Paulo completou 90 anos dedicados ao nosso carnaval. Seu Carlão, como todos o chamam com a devida reverência, é um dos personagens centrais para a construção do atual modelo de desfiles carnavalescos de escolas de samba na cidade. Sua vida se confunde com a trajetória do samba da Pauliceia em todos os aspectos. 

O samba paulistano possui raízes rurais e religiosas, oriundas das festividades afro-católicas que eram praticadas no interior do Estado, em regiões cafeeiras. A mais importante delas era a festa de Bom Jesus de Pirapora, realizada no mês de agosto na cidade de Pirapora do Bom Jesus, hoje praticamente incorporada a Grande São Paulo. Na cidade de São Paulo, o samba era praticado no início do século XX, principalmente em três bairros com características de “baixada”, sujeitas a enchentes, possuíam moradia a baixo custo próxima a região central da cidade: Barra Funda, Bixiga e Glicério. Eram bairros distintos, mas com características sociais próximas: bairros operários da capital, com grande concentração de afrodescendentes e imigrantes. Eles tinham em comum o fato de se encontrarem próximos ao centro urbano e comercial da cidade. Foram neles que surgiram os primeiros cordões carnavalescos e escolas de samba da cidade.

Fotos de Rodolfo Gomes e Heitor Feitosa

Seu Carlão nasceu em 1930 na Rua Pirineus, no bairro da Barra Funda. Antes do final da adolescência, frequentava com grande desenvoltura os três territórios negros da cidade. Ainda criança, Seu Carlão ia escondido de sua mãe com Geraldo Filme e outros amigos até o Largo da Banana observar os carregadores negros fazerem samba e jogar tiririca, a capoeira paulista. O Largo da Banana era localizado no final da Rua Brigadeiro Galvão, na parte de trás da antiga linha ferroviária E. F Sorocabana. Chegavam nesse local bananas, caixas de frutas e outras mercadorias, ali descarregadas por estivadores negros e transportadas pelos trens para outros destinos, via porto de Santos ou através do interior do Estado. Nos intervalos do trabalho e ao final do expediente, o menino Carlos observava os carregadores fazerem uma roda de samba com instrumentos improvisados. Nessas rodas eles cantavam sambas de sucesso do rádio, bem como apresentavam suas próprias composições, além dos cantos que remontavam ao tempo da escravidão nas fazendas de café no interior do Estado de São Paulo ao longo do século XIX entoados com palmas para animar as frequentes rodas de tiririca, a capoeira paulista. 

Seus pais o levaram desde criança às festas de Bom Jesus de Pirapora. E eram nesses espaços que se realizavam os encontros de sambistas e jongueiros de todo o Estado de São Paulo. E assim, ele foi aprendendo escutando os mais velhos a sambar e a jongar. 

Com pouco mais de 10 anos, foi morar com a família em outro território negro da cidade, o Bixiga (Bela Vista). Lá começou a frequentar a Praça da Sé e a se dedicar ao ofício de engraxate, muito comum para qualquer menino negro e pobre que morasse na região central da cidade. Foi como engraxate na Praça da Sé aos 13 anos que Seu Carlão aprendeu a batucar, a conhecer o telecoteco e os ritmos dos cordões, chamado de marcha-sambada. Nas rodas de samba e tiririca feitas no centro da cidade e nos salões de gafieira da época conheceu muitos meninos que se tornariam bambas da Pauliceia, como Pato N’Água, Germano Mathias, Cafézinho e Toniquinho Batuqueiro.

Aos 15 anos, começou a frequentar a escola de samba Flor do Bosque, na região do Bosque da Saúde, e logo se destacou como ritmista, sendo logo convidado para participar da escola de samba Lavapés. Lá, com Mestre Ginésio, o apitador da Lavapés, aprendeu todos os macetes de uma bateria de escola de samba. Ao lado de grandes nomes do carnaval de São Paulo, como Brandãozinho, Válter, Clodoaldo, Jacozinho, Boi Lambeu, Gilbertinho, Zé da Caixa, Mário Gago, Motorzinho e Joãozinho Boa Pinta, permaneceu por 10 anos na bateria da escola de samba da Madrinha Eunice, principal liderança feminina do carnaval de São Paulo. 

Após um desentendimento com a Madrinha Eunice, Carlão, que já estava morando na região do Parque Peruche, decidiu que era hora de fazer carreira solo e viu em um lugar carente de opções de sociabilidade e lazer para a população negra a necessidade de criar a sua própria escola de samba. Fundou então, em 1956, a escola de samba Unidos do Peruche. A escola, como seu Carlão costuma falar “já nasceu grande” e nos anos 1960 ganhou diversos campeonatos e permanece ainda hoje como uma das mais tradicionais do carnaval paulistano. 

Foto de Rodolfo Gomes

Na década de 1960, Carlão do Peruche e os outros fundadores de escolas de samba, os chamados “cardeais do samba” foram os responsáveis pela construção do atual modelo carnavalesco dos desfiles das escolas de samba através dos Simpósios de Samba e do processo de oficialização do carnaval da cidade. Em 1968, os cardeais conseguiram se articular e se tornaram os mediadores das relações entre as escolas de samba e o poder público no processo de oficialização do carnaval da cidade. 

As lideranças negras, como Seu Carlão, Pé Rachado, Seu Nenê da Vila Matilde, Inocêncio Tobias e Jangada, foram as responsáveis pela fundação da UESP e levantaram bandeiras que, historicamente, o movimento negro iria defender, de maneira mais veemente, apenas no final da década de 1970. Esses sambistas tinham o objetivo de lutar não apenas pela igualdade racial, mas também por uma sociedade socialmente igualitária. Muitas das demandas dos sambistas obviamente não foram possíveis de serem cumpridas, mas as escolas de samba cumpriram um importante papel de aglutinador popular dentro dos bairros periféricos da cidade.

A partir dos anos 1980, a entrada dos canais de televisão e outras disputas entre os sambistas culminou em uma divisão entre as escolas de samba em duas federações (Liga e UESP), e no início dos anos 1990 houve a construção do Sambódromo, um projeto que também teve muitas ambiguidades. Com o Sambódromo está garantida a manutenção do carnaval das escolas de samba por anos a fio. Seu Carlão foi uma das lideranças que inicialmente lutou pela construção do Sambódromo como um grande projeto de possibilidade para valorização do samba e do carnaval além de um espaço educacional para a formação de jovens e crianças. Porém, ao não se concretizar esse modelo, Seu Carlão tornou-se um grande crítico do Sambódromo, pois tirou o carnaval do espaço público e o confinou em um espaço fechado e monitorado, longe da agitação e da vivência democrática das ruas, com a preocupação exclusiva de gerar lucros e transformar a festa popular em mercadoria e mera diversão, e não como um espaço legítimo que os negros e pobres encontraram historicamente, ocupando o espaço público das ruas sempre negado pelas classes dominantes. 

Seu Carlão dedicou-se a muitos outros projetos de preservação do nosso samba. Foi muito ativo na fundação da Embaixada do Samba, em 1995, e da Associação das Velhas Guardas Carnavalescas do Estado de São Paulo, em 2003, ao lado de outras personalidades históricas do nosso carnaval que passaram a ter suas próprias entidades no processo de disputa dentro das escolas de samba e do atual modelo carnavalesco. Seu Carlão também ocupa um papel central de griot do samba paulista. 

Os griots são personagens fundamentais para a preservação da cultura e da história de comunidades africanas. São eles que conhecem as tradições e os acontecimentos de um povo e narram essas histórias para as novas gerações. A oralidade é marca dos povos africanos antigos e o griot tem papel fundamental em sua estruturação. Ele é um grande conselheiro e autoridade moral dessas comunidades. O costume de sentar-se embaixo de árvores ou ao redor de fogueiras para ouvir essas histórias e os cantos perdura até hoje. Normalmente os griots também são músicos e suas narrativas são cantadas. Carlão recebe até hoje com grande entusiasmo e paciência muitos estudantes, jornalistas, historiadores e pesquisadores, e com grande generosidade vai contando, de maneira didática, suas narrativas e memórias, ajudando as novas gerações a compreender uma parte importante de nossa cultura. 

Como sambista e cidadão, Seu Carlão coleciona diversos títulos e prêmios, como a medalha Anchieta, a mais alta comenda da Câmara Municipal de São Paulo, Diploma da Ordem da Palheta Dourada, entregue pela escola de samba X-9 de Santos, foi o cidadão-samba no ano 2000. Durante as comemorações dos 500 anos do Brasil, foi enredo da escola de samba Quilombo; é embaixador-mestre da Embaixada do Samba, presidente de honra de sua escola, a Unidos do Peruche, entre outros títulos. Outro aspecto que não poderia deixar de ser abordado é a sua produção musical que está presente na forma de letras e partituras ao final do livro. Compositor de mais de 300 sambas, muitos deles perdidos ao longo do tempo, a obra de Seu Carlão se destaca com sambas-enredos, sambas de exaltação à sua escola e ao Salgueiro, além de um grande partideiro e dono de um grande talento para improvisar versos, adquiridos desde jovem nas rodas de samba da Praça da Sé. Permanece ativo aos 90 anos realizando diversas palestras, apresentações, lives e reuniões. Recentemente teve sua biografia lançada em livro e atualmente Seu Carlão prepara o lançamento de um documentário sobre sua trajetória e um CD com parte de seu repertório. 

Bruno Baronetti e Carlão do Peruche (foto de Malu Sanches)


por Bruno Sanches Baronetti
Historiador. É autor dos livros Transformações na Avenida. História das escolas de Samba na cidade de São Paulo (1968-1996) e O Cardeal do Samba. Memórias de Seu Carlão do Peruche.

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