Escambo Sonoro

Tião Carreiro – Em Solos de Viola Caipira (1979)

sábado, 29 de outubro de 2022

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O respeito que os admiradores da viola caipira guardam por Tião Carreiro é gigantesco. Além das letras e das composições, seu lado instrumentista é venerado pelos amantes das dez cordas. O disco Tião Carreiro – em solos de Viola Caipira merece um escuta atenta e generosa. Atribuições que o gênero carrega desde seus primeiros acordes.

Malandrinho segue a conhecida fórmula de pergunta e resposta onde a composição tem mais força do que qualquer tipo de exibição técnica sem sentido. Em Cavalo Zaino, as frases executadas na viola de Tião Carreiro são tratadas com bastante esmero. Cada final de frase, cada acentuação é tocada com muita precisão e requinte. Sem contar nos contracantos tocados pelo violão. Além disso, surge uma espécie orgão hammond deixando a música com ares setentistas.

A Seleção de pagodes nº1 conta com clássicos do instrumento como Viola Divina, composta em parceria com Lourival dos Santos; A Grande Cilada é foi feita pela dupla mencionada agora a pouco e Arlindo Rosa e, finalmente; Carne de Aroeira temos Lourival dos Santos, Jesus Belmiro e Vicente P. Machado como compositores. Uma ótima faixa para quem curte a viola em seu estado mais tradicional. Viola Barulhenta apresenta um tema descendente muito curioso com notas executadas de uma forma diferente no instrumento, isto é, o jeito como o tema caminha flerta com outras práticas da música instrumental, revelando assim, a amplidão da escuta do nosso violeiro. 

Com letra de Guimarães Passos e melodia de autor ainda desconhecido, Casinha Branca da Serra é bastante conhecida pelos amantes da música sertaneja mais tradicional. Quem reconhece a letra logo começa a cantar junto dessa melodia formidável. A única música do disco que com voz é Malandro da Barra Funda e quem empresta seu gogó à canção é o próprio Tião Carreiro. A imagem do velho malandro, muitas vezes figurada no malandro carioca, é agora figurada com ares telúricos onde a viola se junto ao pandeiro. O som da letra R conforme os radialistas à pronunciam se destaca em meio a esse cenário singular.

A guarânia Cidade Morena é a faixa onde a viola se mostra de muitas formas distintas. A técnica de abafar as cordas com a mão direita é usada pela primeira vez no disco. Apresentando assim, uma sonoridade que até então não havia sido mostrada. O flerte rápido com o chorinho feito pelo violão na introdução de Vou Tomá de Pingão é um caso à parte. Aos poucos, a viola ganha o protagonismo da cena. No entanto, o violão tocando conforme o violão de sete cordas no choro volta a surgir mais uma vez. 

Desta vez, o pout-pourri Faz um ano / Beijinho doce começa com um ritmo que lembra alguma coisa do seu parente américa-nortista mais próximo, o bluegrass. A composição de Felipe Váldes Leal executada na versão de Nhô Pai é sem igual. A segunda música, também composta por Nhô Pai, é bem mais conhecida do que a primeira e dispensa apresentações.

O mineiro no pagode, como o próprio nome indica, é feito em grande estilo onde a viola deita e rola. O pagode é composto pelo trio Tião Carreiro/Leonel Rocha/Lourival dos Santos. A Seleção de polcas (Gercina / Mourão da porteira / Boiadeiro Errante) encerra o disco de forma magistral. A primeira, composta por Carreirinho/Joany possui certo ar de família aos ouvidos pouco acostumados às modas; Mourão da Porteira foi composta pela dupla Raul Torres e João Pacífico e foi gravada por diversas duplas caipira; a terceira e última música tem uma letra incrível.


Ficha Técnica: 
Artistas e Repertório – Odair Corona 
Arte Final – Mauricio 
Diretor Artístico – Milton José 
Pesquisa e Coordenação – Ediméia Silva, Pedro Junior
Técnico de Som e Mixer – Alberto Calçada


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