Fábrica de Orvalho

TRENZINHO BRASILEIRO
por Paulo César Feital

segunda, 24 de julho de 2017

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Lá vem ele... 

Já ouço ao longe Os acordes estridentes  Do seu apito dolente Nos trilhos do descampado

Sugando os seios da serra Já surge do vão da terra  O trem dos desamparados.


Lá vem ele... Carregado de tristezas, Cheinho de desespero,

Se aproxima da estação,

Da vila da opressão, 

Meu trenzinho brasileiro.


Vem parando,

Lamentando,

Grita, chora, chora e grita

Chora e grita, grita, chora, chora, 

chor... cho...ch...ch...

  

Na estação não tem ninguém,

Ninguém espera quem vem,

Quem vem não tem mais ninguém,

Nem pai, nem mãe, nem parente.

E o viajante pressente

Que o Brasil, infelizmente, 

É o exílio do passado

Onde quem faz a história 

Não merece estar presente.


São dois vagões que formam a composição.

Na frente, em letras borradas pelo sangue das canções,

Se lê no primeiro carro,

Todo sujo pelo barro: 

"Vagão das Desilusões".

Nele viajam calados,

Com os olhos injetados

Do choro da solidão:

Pixinguinha, Orestes, Noel

João da Baiana, Donga e Sinhô,

Patápio, Custódio e Nazareth,

Francisco, Orlando e Ary,

Lamartine e Ataulpho,

Wilson, Geraldo e Ismael,

Antonio Maria e Dolores,

Ciro, Zéquinha e Dalva,

Lupicinio, Nelson, CartolaVinicius

Clara e Ellis, Zé ketti ,

Mauro Duarte e Dominguinhos

Monsueto, Wilson e Candeia,

João Nogueira e Jamelão,

Rafael , Paulo Moura e Jair

Pery, Emílio, Belchior, Tapajos 

Sivuca e tantos outros...


E sentada lá no fim, 

Num velho banco de couro,

Chiquinha com a rosa morta Do cordão "Rosa de Ouro" 

E o trem range sofrimento, Num soluço lento, lento, Destilando na fumaça

A memória de uma raça

No vagão do esquecimento.


Que povo é esse, meu Deus,

Que detesta ser chamado 

De colônia e filial,

Mas que brinca o carnaval

Balançado pelo funk e hip hop

E nas horas de aflição

Já te chama na oração

De "my brother,de "my God"?

Que povo é esse,meu Deus?


O segundo carro é o mais deprimente.

Gente que até muito pouco tempo

Fazia parte desse mundo muito louco,

Dando um pouco de alento

A índios, negros, caboclos,

Que no planeta da gente

São chamados de pingentes 


Chora , grita , grita, chora,

Grita, chora, chora, grita, 

chor...cho...ch..ch...


Que povo é esse , meu Deus,

Que detesta ser chamado

De colônia e filial

Mas que brinca o carnaval

Balançado pelo funk e hip hop

E nas horas de aflição

Já te chama na oração

De "my  brother",de  "my God"?

Que povo é esse , meu Deus?


Mas quem esquece não é o povo,é a"nata".

Gente que nunca viu a beleza das cascatas,

A jaçanã pelo mangue,

O tiê num vôo-sangue

Avermelhando essas matas,

Ou um mulato no sapê

Cantando as suas bravatas.


No último vagão ouvem-se gritos.

É o "Carro dos Alaridos",

O "Vagão dos Oprimidos".

Parece sardinha em lata,

É gente feito sucata,

Mortos-vivos e feridos.

É o "Carro dos Aguerridos"!

É tanta gente morena,

Um cheiro de alfazema

Misturado com suor,

Fragrância que eu sei de cor

Pelo vício dos sentidos.

É o "Carro dos Abandonados",

Dos párias, dos maus fadados,

Da miséria e caridade.

É o "Vagão da Humanidade"!

É gente que por mais que eles tentem,

A ternura jamais arrefece!

É o povo, gente. É o povo,

E o povo jamais esquece!


Chora,grita , grita , chora

Grita , chora, 

Se levanta e chor...cho.. ch...



E lá no final dos trilhos,

Correndo atrás do vagão,

Chegando assim tão sozinhos,

Gritando: -“Esperem, tinha uma pedra no caminho

No caminho tinha uma pedra”,

Em alta voz e bom som,

Os últimos dos esquecidos:

Antonio Carlos Jobim,

Poeta Carlos Drumond.


Chora ,grita ,grita ,chora,

Chor... Ch..Ch...


Vai maestro, leva o povo

Maquinista Villa Lobos,

Vai e não volta mais,

Leva esse negro pé-de-cana,

Esse mulato tão louco,

Esse povo meio gira, 

Vai cantando as Bachianas...

Vai rangendo as Bachianas...

Lamentando as Bachianas...

Meu trenzinho caipira!!


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