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"Tudo é um": as muitas vozes de Zélia Duncan
Por: Tito Guedes

terça, 13 de agosto de 2019

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No dia 5 de abril de 2019, Zélia Duncan lançou, pela Biscoito Fino, o single que puxaria o lançamento de seu novo álbum de estúdio. A faixa escolhida foi O que mereço, composição de Juliano Holanda que fala de completude e do sentimento de estar de bem com a vida:

 E eu só quero o que mereço
Nenhum mar a mais, nenhuma gota a menos
Nenhum grão a mais, nenhum deserto a menos

Na capa do single, Zélia aparece nua, exposta (mas não vulnerável), fragmentada por uma série de espelhos que refletem os pedaços de sua pose serena e confiante. Quando, mais de um mês depois, o álbum completo chegou às lojas e às plataformas de streaming, a fragmentação deu lugar a um close no mesmo rosto sereno e confiante, que agora segura um espelho e reflete, ela própria, metade do seu rosto, completando-se a si mesma. Todos os reflexos e fragmentos reunidos num só lugar: Tudo é um, vinha escrito nesse espelho, indicando que é este o título do 15º álbum da cantora e compositora Zélia Duncan.


O novo disco marca o retorno de Zélia ao gênero que a consagrou em 1994 e que ela gosta de chamar de “pop-folk” ou “pop-acústico-brasileiro”. Marca também seu reencontro com o parceiro e amigo de longa data, Christiaan Oyens, que assina a produção de Tudo é um. Talvez por isso, o álbum tenha resultado tão íntimo e fraterno. Muito autoral (O que mereço é a única música do repertório que não foi composta por Zélia), o disco reúne antigos e novos parceiros para falar da importância dos afetos em tempos brutos. A mensagem é reforçada pelos delicados e elegantes arranjos, que dão serenidade e intimidade até a músicas de letras mais incisivas, como é o caso de Eu vou seguir e Sempre os mesmos erros.

Esse conceito, alcançado de forma irretocável no disco, se expandiu e ganhou tons mais politizados no show de lançamento de Tudo é um na cidade do Rio de Janeiro, no dia 10 de agosto, que teve como palco o Circo Voador. E, de fato, não poderia haver lugar mais apropriado: a famosa casa de shows da Lapa é tão acolhedora e politizada quanto o novo show de Zélia Duncan.

Antes, contudo, da estrela da noite aterrissar na lona, o show de abertura ficou por conta de Qinho, que apresentou seu projeto Qinho canta Marina Lima, disco também editado pela Biscoito Fino em 2018. Na apresentação, o cantor empolgou os que chegavam ao Circo com clássicos do repertório de Marina Lima, como Acontecimentos, Veneno, Fullgás e Charme do mundo. Traduzindo essas canções para seu próprio universo musical, mas sem descaracterizar a essência de repertório tão bem polido, Qinho soube homenagear Marina com reverência e personalidade, e obteve respostas entusiasmadas do público.