Amigo ao Peito

Um Abraço no Rafa
por Ricardo Dias

terça, 31 de outubro de 2017

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Já que vou escrever aqui cabe me apresentar. Sou músico, violonista clássico, e luthier -  construo e conserto violões. Há uns 30 anos transito nessa área, e aqui pretendo contar casos, compartilhar experiências, enfim, falar coisas sábias e profundas. 

Comecei na profissão no atelier de Mario Jorge Passos, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Ali conheci muita gente boa, gente que hoje faz parte da história, da música e da minha, como o Rafael Rabello.

Rafa nasceu em 1962, em Petrópolis. De família de músicos – entre os quais minha querida Luciana, cavaco de primeiríssima! – desde criança dava certeza que ia ser algo espetacular. E foi. Além da técnica, da velocidade, ele tinha um bom gosto, um senso inato de estilo que espantava. Tudo que ele tocava funcionava, ficava perfeito. E com uma sonoridade incrível. Lembro quando ele foi à oficina pela primeira vez, Mario Jorge comentou que viria um cara super recomendado, mas que não conhecia (éramos totalmente ligados no violão dito clássico, na época). Ele chegou, conjunto safari (calça e camisa do mesmo tecido e mesma cor), relógio enorme, um violão todo desregulado. E mudou todos os nossos parâmetros. 

Ao longo dos anos nos encontrávamos sempre, seja na oficina, seja em reuniões ou recitais. Uma vez, numa festa, ouvi o Paco de Lucia dizer que nunca tinha ouvido nada igual. Lembro de vê-lo tocando num palanque comemorativo de alguma data, com enorme cara de tédio, um programa ao qual era meio obrigado. Me viu, fiz cara de deboche, ele discretamente me mostrou o dedo do meio. Lembro de sua alegria quando nasceram as filhas, lembro do prazer com que falava de carros. Lembro das molecagens, uma das quais Henrique Cazes narra em parte em seu livro Suíte Gargalhadas: havia um excelente violonista que idolatrava o Rafa. Estávamos eu e Henrique conversando na oficina, enquanto o rapaz era atendido pelo Mario. Por falta do que fazer, levantei uma bola para o Cazes:

-E o Rafa, hein?

Não sabia o que o Henrique inventaria, sabia que boa coisa não viria. E naqueles tempos politicamente incorretos, ele mandou:

-Pois é, assumiu.
-É, eu soube. Que coisa, né?

O violonista visitante quase caiu da cadeira, mas sem dar pinta que estava prestando atenção na nossa conversa. Nessa época Rafael tocava com Ney Matogrosso, um excelente espetáculo com um excelente cachê.

-Parece que a coisa agora é pública, ele nem disfarça mais. 
-Mas e a mulher dele?
-Se conformou, ora!

Nesse momento, sem nenhuma combinação, aconteceu a coincidência inacreditável: entra na oficina Rafael, todo de lilás, e fortemente maquiado! Naqueles tempos pré Photoshop ele foi posar para a capa do disco e teve que se submeter àquilo. Ficou tão ridículo que resolveu aparecer para ser sacaneado.

Nossa vítima quase desmaiou, boca aberta. Em seguida entra a mulher do Rafa:

-Gente, vem ver nosso caro novo: foi o Ney que deu!

Ela queria dizer que foi comprado com o cachê do show, mas para nosso herói aquele dia vai ficar sempre marcado como o dia em que seu ídolo saiu do armário. Contei a história para o Rafa, que sempre que via o rapaz lhe lançava olhares convidativos. 

Outra foi quando eu estava com um cliente aguardando o Mario quando Rafael chegou. Nessa época era chamado pelo apelido, e seu rosto era pouco conhecido. O tal cliente estava tocando algo – mal – e Rafael avisou: essa música está errada. O cara mandou a goma:

-Quem me ensinou essa música foi o Rafael 7 Cordas!

E o próprio, tomando o violão:

-Esse Rafael não entende NADA de violão. É assim que se faz, ó!

Na última vez em que o vi conversamos e falamos da vida. Para ser mais preciso, seu assunto favorito, as mulheres bonitas. Ele atribuía seu sucesso com elas ao violão, e ficamos comentando isso, tecendo considerações serenas, puras e ponderadas. Depois de sua morte sem sentido, escrevi um poema (musicado pelo parceiro Vicente Paschoal) em homenagem àquele último papo, um resumo do que rolou: 


Violão, amigo ao peito
tuas madeiras sem serviço
seriam um caixão, um oratório,
a janela de um cortiço;
mas o destino aleatório
o fez cantante desse jeito

Violão, amigo ao peito, 
não é guitarra, como em Espanha.
É camarada, é companheiro,
bebe, canta, bate e apanha;
atura a noite  e o dia inteiro,
e ao fim o amigo liquefeito.

Violão, amigo ao peito,
encara berros, desafinos,
o humor do garçom, o falatório,
hinos pátrios, desatinos
coros ímpios, sustenidos,
contrição e desrespeito.

Violão, amigo ao peito,
mesmo com todo mau trato 
mesmo com todo o mau jeito
é preciso que se diga:
leva o sorriso à amiga,
e a amiga, sorrindo, ao leito


Saudades do Rafa.


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