A música de

Um disco para ouvir e lembrar a saga do incapturável monstro sonoro de Arrigo Barnabé
Por Juliana Wendpap Batista

quinta, 10 de setembro de 2020

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Em 15 de novembro de 1980, no auditório da Faculdade de Arquitetura da USP, aconteceu o show de lançamento do LP "Clara Crocodilo", de Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno. Com ingressos esgotados, o show foi sucesso e obteve repercussão positiva na imprensa. Arrigo Barnabé (1951) era então um jovem músico, que estava em São Paulo há menos de uma década. Natural de Londrina, no Paraná, teria se mudado para a capital com o intuito de cursar a universidade. Na metrópole, encontrou motivações que o fizeram optar pela carreira de músico profissional. A projeção alcançada em 1980 foi fruto do trabalho iniciado em 1972, na cidade natal do compositor, quando, em companhia do amigo Mário Lúcio Cortes, ele compôs a primeira das oito canções que integram esse disco. Tal canção tornou-se a faixa-título e já trazia o personagem que ficou conhecido no Brasil e internacionalmente. A notoriedade da obra de Arrigo Barnabé iniciou-se quando ele ganhou o prêmio de melhor música, no Primeiro Festival Universitário da TV Cultura de São Paulo, em maio de 1979. A música vencedora foi "Diversões Eletrônicas", escrita em parceria com Lourdes Regina Porto. Gravada a primeira vez ao vivo durante o mesmo festival e lançada em disco pela Continental, essa canção foi regravada e consta entre as faixas do disco "Clara Crocodilo".

Capa do LP "Clara Crocodilo" (Foto: Reprodução) 

Com as músicas compostas em pleno vigor da ditadura civil-militar no Brasil, o lançamento do LP na fase inicial do processo de redemocratização foi marcante. O princípio do regime, na década de 1960, coincidiu com a era dos grandes festivais de música, que acabaram por instituir o que era, e quem fazia parte da MPB, em sigla com letras maiúsculas, conforme conhecemos hoje (Bastos, 2009). Nesse intermezzo, no meio de vozes como as de Chico Buarque e Elis Regina, surgiu o forte desejo de inovação estética dos tropicalistas, movimento musical liderado principalmente por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Herdeiro dessas tendências, Arrigo Barnabé almejou ir além do tropicalismo e chamou a atenção da crítica especializada da época com sua voz rouca, que cortava letras ácidas sobre a vida nas grandes cidades. Ficou conhecido como um personagem polêmico da pós-tropicália e foi parar nas páginas amarelas da revista Veja, no início da década de 1980 (Souza, 1982). O emblema de inovação se deve ao caráter dessa obra, um LP considerado importante e chocante pelas críticas realizadas nos dias que seguiram seu lançamento. Tal repercussão pode ser dimensionada por meio dos títulos de algumas das matérias veiculadas em jornais e revistas da grande imprensa. As críticas indicam a ousadia do músico em enunciados como: "Arrigo, o som novo com sabor de veneno" (Soares, 1980a), "O sabor de veneno do ousado Arrigo Barnabé" (Soares, 1980b) e "Arrigo, o desbravador" (Fiorillo, 1981).