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Um Sorriso Negro de Liberdade e Resistência no Samba
Por: Gabriela Rodrigues

quinta, 28 de fevereiro de 2019

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Focadas na obra, batendo suas asas cansadas para o alto e renascendo a cada ato, com as almas sentadas em rebeldia elas vem abocanhando a presa, com bocas sempre abertas de sorriso fácil que fazem os corações sangrarem em um luto sem cura. E assim vão comendo o bem e o mal. Eu vos apresento o Slam das Minas RJ: Gênesis, é o fim ou o início.


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Explorando o lado lúdico da poesia através do desenvolvimento da potência artística das mulheres (sejam héteras, bis, pans, lésbicas ou trans, e pessoas queer, agender, não bináries e trans), o Slam das Minas atua como porta-voz de denúncias das mais profundas diretrizes da comunidade, principalmente a periférica e, no dia 15/02 elas não fariam diferente no Circo Voador. Com a missão de abrir o show de uma grande intérprete do Samba, as meninas metaforizaram com a natureza na voz da fundadora do Slam carioca, Letícia Brito; metralham suas línguas para dar visibilidade ao genocídio do povo preto que acontece diariamente neste grande centro urbano da cidade nada maravilhosa, como ecoam Mc Dall Farra e Andréa Bak; escancaram o racismo instaurado a partir de uma escravidão sem fim de reis e rainhas destronados de sua africanidade pelas profundezas de suas raízes, como esmurra a campeã do Slam 2018 Geise Gênesis; e ainda quebram os padrões estéticos impostos por uma sociedade que cada vez mais espartilha corpos em seus preconceitos longínquos, como faz a Rejane Barcelos. E depois que as almas foram lavadas e o palco foi esquentado, o Slam abre alas para o samba chegar, “Um Sorriso Negro” se abre para a reza começar.


“Bendita é a obra de Djanira (bendita é a obra de Djanira)
Bendito é o canto de Clementina de Jesus (bendito é o canto de Clementina de Jesus)
Bendita é a voz de Dona Ivone Lara (bendita é a voz de Dona Ivone Lara)...
Marielle presente! Marielle presente!
Vidas negras importam!”


O “Axé de Ianga” chega para saudar a todos na voz de Teresa Cristina e no batuque do Samba que Elas Querem. Abrindo o show cantando pra sua fé, Teresa vestida de Oxum empresta o seu som para os gritos daqueles que foram silenciados pelo genocídio, evocando um dia após 11 meses sem resposta, a presença de Marielle, um sorriso negro perfurado quatro vezes por lutar por reparação histórica e cultural. Com a emoção no peito e desatando os nós da garganta, Teresa explicita algo que há muito já deveria ser entendido: Vidas negras importam. VIDAS NEGRAS IMPORTAM! Os punhos se levantam contra aqueles que com gravatadas nos matam, sufocando, apagando, fazendo segurança extra para proteger seu racismo evidente.


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Depois de quebradas as correntes, o canto se abre bradando saravá ao mestre Pixinguinha, saravá a preciosa Jovelina Pérola Negra e assim mamãe Zimba mandou Teresa chamar a todos no Circo: “Vamos saravá, vamos saravá, vamos saravá...”. O berimbau surge pra trazer em suas cordas os sons dos ancestrais da Angola. Zé Keti chega pra “Acender as velas” da desilusão, “porque no morro não tem automóvel pra subir, não tem telefone pra chamar e não tem beleza pra se ver, e a gente morre sem querer morrer (...) É mais um coração que deixa de bater”. É mais um sorriso negro que a gente não vê.

O canto do mestre Luiz Melodia invade ao Circo para homenagear o Estácio junto com os delírios amorosos de Nei Lopes e Wilson Moreira. Nesse momento, as asas da liberdade são abertas sobre os circenses através da Senhora Liberdade. O samba vai seguindo, “agoniza mais não morre (...) ele é negro, forte, destemido, foi duramente perseguido na esquina, no botequim, no terreiro”, mas sempre alguém como Nelson Sargento lhe socorre e não deixa o samba morrer.

Entre homenagens a Portela de Candeia e a Mangueira do poeta Cartola, a emoção toma conta de todos que participam dessa grande roda de samba, os olhos se enchem de lágrimas ao ver que suas raízes agora não precisam mais se mascarar em um sincretismo para ser aceito, o culto aos orixás e a devoção as divindades de matriz africana podem ser adorados em alto e bom som porque a umbanda é de Deus, candomblé é de Deus, orixá é de Deus, nosso canto é de Deus. A permissão foi dada e agora chegou a fez de falar que "Preto é filho de Deus, crioula! Nossa gente é de Deus, crioula! Este som é de Deus, crioula! E o batuque é de Deus, crioula! Minha dança é de Deus, crioula! E nossa cor é de Deus, crioula! Ah, nosso santo é de Deus, crioula! E nosso sangue é de Deus, crioula!".


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E no batuque dos tambores, tamborins e pandeiros, no chorar do violão e cavaco, Angélica Marino, Bárbara Fernandes, Cecília Cruz, Giselle Sorriso, Júlia Ribeiro, Karina Neves, Mariana Solis e Silvia Duffrayer trazem seu canto forte que protagoniza a voz das mulheres no cenário das rodas de samba, para mandar o recado: "Está nascendo um novo líder no morro do Pau da Bandeira". E uma jóia rara chamada Jéssica Gaspar, filha das terras de Minas Gerais acrescenta no discurso: "Deus é uma mulher preta e por natureza sei que vou sobreviver. Deus é uma mulher preta, benção minha mãe para lutar e escreviver".


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E a felicidade se espalha no peito quem carrega a cor de respeito e tem em sua pele a luz da  inspiração. Felicidade que invade o silêncio do luto e que dança com a solidão. Felicidade que libertou as correntes dos destronados e fez da verdade a sua voz para resistir. Felicidade que mostrou o caminho da saudade de casa e eternizou o sorriso do amor. E em sua última canção, Teresa escancara os vastos sorrisos negros que agora podem declarar: "Negro é a raiz da liberdade"!



Texto por: Gabriela Rodrigues
Fonte das imagens: fotos de Michelle Castilho



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