Música

Vejam só que festa de arromba: a origem da Jovem Guarda
Parte 1 - TEMA DO MÊS de AGOSTO

terça, 04 de agosto de 2020

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O que fazer com as tardes de domingo? 

A Jovem Guarda nasceu quase por acaso. Embora o sucesso do programa fosse esperado e naturalmente almejado, ninguém poderia imaginar tamanho estrondo.

A atração surgiu por causa de um buraco aberto na grade da TV Record nas tardes de domingo. Naquele ano de 1965, a emissora havia perdido o direito de transmissão dos jogos de futebol porque os times reclamaram que a comodidade de se assistir às partidas no sofá de casa afastou os torcedores do estádio. 

Com isso, qual a solução? Contratar uma agência de publicidade (no caso, a Magaldi, Maia & Prosperi) para criar um novo programa musical. No início da década de 1960, a famosa Era do Rádio chegava ao fim, substituída pela ascensão da televisão como objeto de consumo cada vez mais popular e acessível. De repente, aparecer na TV se tornou a vitrine mais vantajosa para os músicos.

E a Record era líder em programas musicais de sucesso, como “Esta Noite Se Improvisa”, “Bossaudade”, “O Fino da Bossa” e, claro, os eletrizantes festivais da canção (leia mais aqui). 

Forma-se o trio da Jovem Guarda 

Dessa vez, a emissora decidiu criar um programa musical voltado para a “música jovem”, isto é, o rock´n´roll saltitante que já vinha fazendo sucesso entre os adolescentes. A ideia era reeditar o modelo de um antigo programa chamado “Tony e Celly em Hi-Fi”, apresentado pelos irmãos Celly e Tony Campello anos antes. Ela, já uma estrela precocemente aposentada em 1965, foi convidada para o novo programa, mas não achou suficiente o salário oferecido para o seu retorno triunfal e recusou a proposta. Com essa recusa, caiu por terra também o convite a Tony

Lembraram-se, então, de um cantor que já vinha fazendo sucesso nas paradas com uma música intitulada “Festa de arromba”, uma ode ao rock´n´roll brasileiro cuja letra descrevia uma festa imaginária em que se reuniam todos os artistas da música jovem da época: “Vejam só que festa de arromba/ Noutro dia eu fui parar/ Presentes no local, o rádio e a televisão/ Cinema, mil jornais, muita gente, confusão…”. O nome dele? Erasmo Carlos.

Em sua primeira conversa com Paulinho Machado de Carvalho, então diretor artístico da TV Record, Erasmo sugeriu que levassem em conta o nome de um grande amigo e parceiro seu, que também já estava fazendo sucesso nas rádios com músicas como “É proibido fumar”, “Splish splash”, “Parei na contramão” e “Não quero ver você triste”. O tal amigo se chamava Roberto Carlos

Dias depois, Roberto compareceu ao teste e a impressão que deixou em todos foi unânime: aquele jovem de modos tímidos e olhar melancólico seria uma estrela. Com isso, desistiram da ideia de um casal à frente do programa e decidiram que seria um trio. Faltava, então, a voz feminina que completaria o time. 

A escolhida foi uma menina loirinha e de voz doce que já emplacara sucessos como “Exército do surf” e “Sem endereço”: a “Ternurinha” Wanderléa

Roberto, Wanderléa e Erasmo: o trio que liderou a Jovem Guarda (Foto: Reprodução)

Assim, no dia 22 de agosto de 1965, há exatos 55 anos, foi ao ar o primeiro programa da Jovem Guarda. O sucesso avassalador da atração fez com que os três artistas principais, fora as dezenas de outras bandas, cantores e cantoras que participavam do programa, se tornassem a nova sensação da música brasileira. Por muito tempo, só se ouviria falar em Roberto, Erasmo, Wanderléa e mais outros tantos, como Renato e Seus Blue Caps, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, Golden Boys, Os Incríveis, Martinha, Sérgio Reis, Ronnie Von e por aí vai…

É importante ressaltar que se hoje a Jovem Guarda é interpretada por muitos como um movimento musical, na época ela não era lida dessa forma nem mesmo pelos seus protagonistas. Não se tratava de uma criação coletiva proposital, com objetivos estéticos e ideológicos definidos. Surgiu, ao contrário, de forma espontânea, sem muitas pretensões a não ser criar músicas que divertissem e agradassem. 

De acordo com o pesquisador Marcelo Fróes, autor do livro “Jovem Guarda: Em Ritmo de Aventura” (Editora 34, 2000), aquilo foi mais que um movimento: foi um momento musical importantíssimo para o Brasil, que “semeou uma infinidade de talentos nas diversas tendências que surgiram posteriormente em nossa cena musical”, resume. 

E esse momento/movimento, que durou de 1965 a 1968, foi na verdade um processo de continuação e consagração definitiva de um estilo que já vinha sendo desenvolvido no Brasil desde meados da década de 1950: o rock´n´roll, apelidado pejorativamente de “iê iê iê”. 

O público em frente ao Teatro Record para a gravação do programa (Foto: Site Oficial Roberto Carlos/Reprodução) 

A chegada do rock no Brasil

Os estudiosos creditam a primeira gravação de um rock no Brasil a Nora Ney. Isso mesmo, a cantora de canções de fossa como “Ninguém me ama”. O fato é que em 1955, quando o gênero despontou mundialmente, ela era a única cantora da gravadora Continental com o inglês afiado o suficiente para gravar “Rock around the clock”, sucesso de Bill Halley regravado por Nora em outubro daquele ano em um 78 rpm que não demorou a despontar nas paradas de sucesso. 

No ano seguinte, desembarcaram no Brasil os primeiros discos importados das estrelas do rock´n´roll mundial, como Bill Haley, Little Richard e Elvis Presley, que causaram profundo impacto em parte da juventude brasileira. No ano seguinte, em 1957, saiu a gravação do que muitos pesquisadores consideram o primeiro rock originalmente composto em português: “Rock and Roll em Copacabana”, composição de Miguel Gustavo lançada por Cauby Peixoto. Mas a música não foi um sucesso estrondoso, talvez pelo fato de Cauby ter sido também um artista muito mais associado a boleros e sambas-canção do que ao universo rebelde da música jovem. 

O Brasil só ganhou efetivamente seus primeiros ídolos roqueiros nativos em 1959, quando estreou quase simultaneamente uma trinca que fez história: Celly Campello, que explodiu com seu jeito doce e marotamente ingênuo e canções irresistíveis como “Banho de lua” e “Estúpido cupido”; Tony Campello, seu irmão, e o galã Sérgio Murilo, que fez sucesso com “Broto legal” e “Marcianita”. 

Celly Campello, a cara do rock nacional nos anos 1950 (Foto: Reprodução)

O sucesso desses cantores, embora bem posicionados nas paradas, era mais restrito aos jovens dos subúrbios e periferias das grandes cidades, especialmente de São Paulo, e concorreu com um movimento musical que aconteceu simultaneamente, mas entre os jovens abastados da Zona Sul carioca: a Bossa Nova

Portanto, quando a Jovem Guarda nasceu, Roberto, Erasmo, Wanderléa e cia. retomaram o processo de elaboração desse estilo, o modernizaram, adicionando a ele novos elementos e o tornando consideravelmente mais ousado, nacionalizando-o definitivamente. Já não era mais preciso ser jovem ou “antenado” para gostar de rock´n´roll. Quem estava vivo em 1965 ficou sabendo da Jovem Guarda e escutou suas músicas sem parar - espontaneamente ou não. 

Com o tempo, o programa extrapolou seus próprios limites e revolucionou a música popular feita no Brasil, fomentando um debate que mudou os rumos da nossa cultura. Incomodou e indignou muita gente, mas também conquistou uma imensa e calorosa legião de fãs. Foi, sem dúvida, o fenômeno midiático brasileiro mais próximo da chamada beatlemania, que assolou a Inglaterra com o surgimento dos Beatles

Mas essas são cenas dos próximos capítulos. Para se aprofundar sobre esse assunto, fique ligado nos próximos artigos sobre o tema, que lançaremos ao longo do mês de agosto aqui no IMMuB

Texto por: Tito Guedes


Este é o primeiro de uma série de 3 textos sobre os 55 anos da Jovem Guarda, movimento musical que revolucionou a música brasileira nos anos 1960 e Tema do Mês de agosto no IMMuB . Fique ligado em todos os capítulos dessa história: 

Parte 1 -  A origem a Jovem Guarda (lendo agora)

Parte 2 -  A explosão da Jovem Guarda

Parte 3 - O legado da Jovem Guarda

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