Vire o Vinil

VII FIC - Mais vale uma 'Cabeça' pensante que...
Festival Internacional da Canção - 1972

quarta, 29 de abril de 2020

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O VII FIC - Festival Internacional da Canção - 1972, foi a última edição da chamada era dos grandes festivais, tendo o primeiro ocorrido no ano de 1966. Realizado no Maracanãzinho, foi transmitido pela Rede Globo em um até então inédito formato em cores. 

Das quase duas mil músicas inscritas, 30 foram selecionadas para as apresentações das eliminatórias nacionais, realizadas nos dias 16 e 17 de setembro, onde a primeira noite contou com o show de abertura do cantor norte-americano Wilson Pickett e a segunda ficou por conta de Gal Costa.

O juri, inicialmente, contava com Julio Medaglia, Sérgio Cabral, Rogério Duprat, César Camargo Mariano, Roberto Freire, Big Boy; dentre outros nomes, sendo presidido, até então, por Nara Leão.

Ao contrário das edições anteriores, muitos dos grandes nomes da MPB daquele período sequer inscreveram canções, sendo assim tido por muitos como "patinho feio" dos Festivais e segundo alguns já em "franca decadência"; Será? Acho que não, pois acabou revelando nomes como Fagner, Ednardo e Belchior; trouxe Sérgio Sampaio e o hino "Eu Quero é Botar o Bloco na Rua"; alavancou a carreira de Raul Seixas, que classificou duas canções, onde interpretou "Let Me Sing, Let Me Sing" e viu "Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo" ser defendida pelo grupo Los Lobos, tendo classificado ambas para a grande final. 

Alguns dos participantes desta edição não se tornaram conhecidos por parte do grande público, mas conseguiram posteriormente emplacar músicas, seja como intérpretes ou compositores. O cantor português Abílio Manoel se tornou conhecido por canções como "Pena Verde" e "Luiza Manequim", Renato Teixeira que é o compositor de "Romaria", grande sucesso na voz de Elis Regina, Edson Conceição e Aloísio Silva compuseram "Não Deixe o Samba Morrer", eternizado na voz de Alcione e gravado por tantos outros artistas; os baianos Tom e Dito que são os verdadeiros compositores do tema de abertura da série "A Grande Família", além do conceituado produtor musical Rildo Hora que defendeu "Diferenças", em dueto com Elizabeth Viana, que viria a ser conhecida como "A Rainha do Samba-Rock" e musa inspiradora de "Bebete Vãobora", sucesso de Jorge Ben Jor.

Bem! Vale destacar dois nomes que também despontaram a partir do quase esquecido VII FIC, os "bruxos" Hermeto Pascoal e Alceu Valença.

Mesmo ainda não sendo o cultuado artista que viria a se tornar, o virtuosismo e a criatividade já faziam parte da personalidade musical de Hermeto, onde desta vez seu ouvido absoluto e aquela coisa de extrair música de tudo que se move, ou não, o fez tentar levar ao palco dois porcos, com a alegação de que participariam da apresentação por emitirem uma sonoridade única. Não deu! Barram os suínos, mas tudo deu certo, afinal viu sua belíssima "Serearei" ser defendida pela grandiosa Alaíde Costa e classificada para a final.

Alceu Valença defendeu seu Coco/Embolada "Papagaio do Futuro" acompanhado por ninguém menos que Jackson do Pandeiro, mas parece que convencê-lo a participar não foi lá uma tarefa fácil... 

Alceu, acompanhado de Geraldo Azevedo, foi até a casa de Jackson, em um bairro do subúrbio carioca. Ao ver os dois cabeludos bater à sua porta com um papo de que queriam falar sobre música, o Rei do Ritmo fez cara de poucos amigos, pois com um ar desconfiado achou se tratar de artistas ligados à Jovem Guarda; mas quando os dois "cabras" tocaram a embolada, seu semblante mudou e o convite foi aceito.

Dentre os nomes já conhecidos que marcaram presença nesta edição, estão Ângela Maria, a rainha do rádio Marlene, Os Originais do Samba e Os Mutantes que defenderam "Mande um Abraço Pra Velha", uma crítica escrachada à Ditadura Militar e a censura, que claro não entenderam, marcando a despedida de Rita Lee do grupo.

Já que falamos em Ditadura, lembrando que em 1972 o país passava por um dos períodos mais duros e conturbados, Nara Leão se posicionou, sendo destituída da presidência do juri, situação que acabou por provocar o afastamento dos demais componentes da mesa, sendo substituídos por um corpo de jurados estrangeiro que acabaram por dar a vitória e a vaga na fase internacional do festival para "Fio Maravilha", composição de Jorge Ben que foi defendida por Maria Alcina e o segundo lugar para Diálogo (Baden Powell/Paulo César Pinheiro).

Mas essas teriam sido as escolhas do juri destituído? Não! Não teria sido a deles, não teria sido a minha e nem de muita gente. 

Quando se fala dos "vencedores" não podemos esquecer os grandes nomes envolvidos nas obras. Maria Alcina é uma artista incrível, a qualidade das composições de Jorge, Baden e Paulo César; inquestionáveis; só para que fique claro. 

Tudo talvez teria feito sentido se a galera fardada não tivesse ditado o tom do Festival, como de maneira arbitrária e covarde fizeram com tudo o que ousou florescer nesse período bizarro da nossa história e se dentre os concorrentes não houvesse as canções "Nó na Cana" (Ari do Cavaco/César Augusto) defendida por Mirna e Elson (que posteriormente fez sucesso conhecido como Elson do Forrogode) e...  A genial e a frente de seu tempo "Cabeça" de Walter Franco que certamente deu um "nó" nos acéfalos "de serviço". 

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