Na Ponta do Disco

Zé Keti, 100 anos

quinta, 30 de setembro de 2021

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"Eu sou o samba
Sou natural daqui do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões
De corações brasileiros"


Em 16 de setembro de 2021, comemoramos o centenário de nascimento de um dos maiores sambistas da nossa música popular Zé Kéti. Embora em seus documentos estivesse registrado a data de 08 de outubro, fato muito comum dentre os registros de pessoas das classes populares, José Flores de Jesus, sempre frisou que seu aniversário era em setembro.

Filho de Dona Leonor Santana, uma empregada doméstica e de Josué Vale de Jesus, cavaquinhista amador e soldado da Marinha de Guerra, ou da Armada de Guerra, como se dizia à época, Zé Kéti nasceu na Zona Norte do Rio de Janeiro, em Inhaúma.

Depois da precoce morte do pai, aos 33 anos, foi morar na casa de João Dionísio Santana, seu, avô materno no bairro de Bangu. Seu avô que era da turma de chorões do início do século e amigo de Índio (Cândido das Neves) e Pixinguinha.

Quando criança, gostava de ficar quietinho vendo os mais velhos tocar e cantar, daí nasceu seu apelido, Zé Quieto e que virou Zé Keti.

A carreira de Zé Kéti como compositor começou por volta dos 18 anos, no final da década de 1930, quando ingressou na Ala de Compositores da Portela. Antes, de entrar na escola de Oswaldo Cruz, morou no morro da Mangueira, em um período que lá estavam Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Alfredo Português e a geração de fundadores da escola de samba verde e rosa.

Ao longo da década de 1940, tornou-se figura conhecida dentro das rodas de samba e como compositor de sambas de exaltação e sambas de terreiro. No início dos anos 1950 finalmente começou a ter espaço dentro da concorrida indústria fonográfica brasileira. O seu samba Amor Passageiro, em parceria com Jorge Abala foi gravado por Linda Batista e fez muito sucesso no carnaval de 1952. Em 1954, emplacou outro grande sucesso com o samba Leviana, gravado pelo cantor Jamelão, já conhecido como intérprete da Estação Primeira de Mangueira.

Após um dos vários desentendimentos que teria ao longo da vida com a Portela, se afastou da águia azul e branco para participar de uma pequena escola de samba do bairro vizinho, a União de Vaz Lobo. Nesse período que compôs A voz do morro, um de seus maiores sucessos e que deu a tônica de sua carreira. A defesa cultura popular e das classes subalternizadas dos subúrbios, morros e favelas cariocas através de sambas que faziam denúncias sociais e retratavam a carestia e as dificuldades da maior parte da população carioca em seu cotidiano duro e sofrido.

Outra marca de seus sambas é a valorização do passado e de sua ancestralidade. Uma de suas canções mais famosas é a é Jaqueira da Portela, samba de exaltação a escola, gravada por Paulinho da Viola em 1975 no disco Amor à Natureza. A canção é uma exaltação de um passado da escola que não mais existe, uma vez que a jaqueira foi derrubada para inauguração de uma nova quadra mais moderna e coberta. A canção não critica a escola, apenas exalta os velhos tempos e os carnavais do passado, mas lamenta o fim do terreiro de terra batido, conexão com o rural e com a ancestralidade.

Zé Kéti sempre valorizou a influência da obra de Noel Rosa em suas composições, principalmente na capacidade de Noel ser um grande cronista do cotidiano de seu tempo. Em depoimento concedido ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 1967, Zé Kéti diz: “Foi um repórter musical e eu particularmente me considero um repórter musical por que eu procuro sempre fazer música falando de alguma coisa importante, uma coisa que tenha um sentido, uma história, entende? Um
enredo”.

Fazendo um paralelo com sambistas de São Paulo as canções de Zé Kéti dialogam com as de Germano Mathias, Adoniran Barbosa e Geraldo Filme, por exemplo, pois justamente analisam a cidade a contrapelo e estão na contramão do progresso. Para esses compositores o progresso representa perda e suas canções são exemplos de resistência às ações impostas pela classe dominante e pelo Estado – em especial, ao Estado enquanto promotor dos interesses da classe dominante. As canções apontam a construção de uma história dos vencidos na esfera do discurso simbólico que se posiciona contra um projeto de modernização elitista e higienista, que faz com que os negros e pobres dos morros, cortiços, favelas e malocas vivessem mais uma diáspora, agora dentro do próprio tecido urbano da urbe, que tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, viveram na segunda metade do século XX, um processo de periferização que levou década após década cada vez mais milhões de pessoas para as bordas e lugares de difícil acesso.

Zé Kéti tornou-se conhecido nacional e internacionalmente principalmente por sua versatilidade como ator, em sua participação no cinema e no teatro. Em 1955, participou do filme Rio, 40 graus, primeiro longa-metragem do cineasta Nelson Pereira dos Santos e considerado um dos maiores clássicos do cinema brasileiro e precursor do cinema novo. O filme narra as contradições econômicas e sociais do Rio de Janeiro, então capital do Brasil e em uma nítida influência do cinema do neo-realismo italiano, utiliza cenas filmadas fora dos estúdios e com atores não profissionais, como Zé Kéti, cujo personagem chama-se justamente Zé.

Além de atuar no filme, seu samba A voz do morro, foi incluído na trilha-sonora do filme, na voz de Jorge Goulart e com arranjos do maestro Radamés Gnattali. A partir deste trabalho pioneiro, Zé Kéti compôs músicas para mais de dez filmes, incluindo os de outros cineastas consagrados como Cacá Diegues.

Em 1962 a Portela foi hexacampeã do carnaval carioca ao desfilar com um enredo intitulado Rugendas, ou Viagem Pitoresca através do Brasil, em homenagem ao pintor alemão Johann Moritz Rugendas (ou João Maurício, como está na letra do samba) e ao seu livro Viagem Pitoresca através do Brasil e foi campeã do carnaval carioca. O samba-enredo foi uma parceria de Zé Kéti, Batatinha, Marques Balbino e Carlos Elias. Inicialmente eram dois sambas concorrentes, mas a direção da escola pegou a primeira parte do samba de Zé Kéti e juntou com a segunda dos outros parceiros.

No início dos anos 1960, após a remoção de uma favela próxima à lagoa Rodrigo de Freitas que incomodava as elites cariocas, Zé Kéti compôs o samba de resistência Opinião, em que denunciava as carências de viver no morro, mas sobretudo de resistência a um pedaço de chão que trazia ancestralidade, sociabilidade e referencial para sua gente.

Com o golpe de Estado e a instalação da ditadura militar em 1964, a primeira e mais rápida reação ao autoritarismo do Estado veio através do teatro. Com montagens de espetáculos musicais no Rio de Janeiro e em São Paulo, o teatro brasileiro já mostrava sua capacidade de resistência a um regime que duraria 21 anos. Na capital paulista, o Teatro de Arena montou a peça Arena Conta Zumbi, musical escrito por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal com música de Edu Lobo e poemas de Vinícius de Morais, no TUCA em setembro de 1965, foi encenada a peça Morte e Vida Severina, a partir do poema de João Cabral de Melo Neto, a peça contou com direção de Silnei Siqueira e Roberto Freire e música de Chico Buarque.

No Rio de Janeiro, em dezembro de 1964, estreou o show Opinião, também dirigido por Augusto Boal, do Teatro de Arena e produzido por integrantes do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). O texto era de autoria de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha e Paulo Pontes. No elenco Zé Kéti fazia o papel de um malandro do morro, João do Valle, um nordestino, e Nara Leão, uma intelectual da sociedade. O espetáculo era o encontro do Brasil urbano com o Brasil rural. João do Valle representava o repente, o Brasil das toadas, da musicalidade nordestina e a temática do sertanejo. Nara Leão e Zé Kéti representavam o Brasil urbano e cindido dos dois Rios de Janeiro, de um lado o Rio da Zona Sul, da intelectualidade e da Bossa Nova, e de outro o Rio da Zona Norte, do samba, das classes populares e dos morros. A canção-título do espetáculo que trazia músicas críticas ao regime era justamente a de Zé Kéti. Após sucesso de pública e crítica o show teve uma mudança no elenco. Em 1965, Nara Leão deixou o espetáculo e foi substituída por Maria Bethânia, jovem cantora, até então desconhecida, que trazia toda a musicalidade e religiosidade da Bahia para o espetáculo e a partir desse encontro com Zé Keti e João do Valle consolidou-se como grande intérprete.

No teatro do Super-Shopping Center Cidade de Copacabana, na rua Siqueira Campos, além do musical Opinião, passaram a ser realizadas rodas de samba às segundas-feiras, que se tornou ponto de encontro de jornalistas, intelectuais, professores, estudantes com muitos sambistas populares que depois se tornaram nomes bem conhecidos e se apresentavam lá, como a mestra Clementina de Jesus, e outros jovens sambistas como Martinho da Vila, a nomes ligados às escolas de samba como Ancieto do Império, Xangô da Mangueira, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho, Casquinha, Padeirinho e outros.

Em 1967, a veterana cantora Dalva de Oliveira, gravou a marcha-rancho Máscara Negra de Zé Kéti e Pereira Mattos, e esta tornou-se imediatamente em um sucesso popular, sendo uma das músicas mais tocadas do país e convertendo-se imediatamente em um clássico do cancioneiro popular. O sucesso contribuiu para Zé Kéti ser eleito Cidadão Samba do carnaval carioca, em 1968. O Cidadão Samba era normalmente um baluarte e sambista símbolo do carnaval daquele ano, Zé Kéti conseguiu essa honraria aos 46 anos.

Na década de 1970, continuou tendo seus sambas gravados por inúmeros cantores, fez parcerias com jovens artistas como Hermínio Bello de Carvalho e Sidney Miller e alternou temporadas de shows entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

Mas viveu mais um período conturbado com sua escola do coração. Zé Kéti desligou-se da Portela em 1974. A saída foi devido a um desentendimento na escolha do samba-enredo que homenagearia Pixinguinha, seu ídolo de infância e amigo de seu avô. A direção da escola chamou a dupla de compositores de grandes sucessos de música romântica, Jair Amorim e Evaldo Gouveia para a disputa de samba-enredo. Zé Kéti, assim como outros sambistas da Ala de Compositores da Portela não aceitaram, pois, a dupla não fazia parte do time de compositores da escola, o que até então era uma cláusula pétrea para a agremiação. A partir da saída da escola mudou-se para Niterói, e se afastou temporariamente das viagens para shows, dedicando-se a administração de um restaurante especializado em peixes e frutos do mar, onde claro, ocorriam rodas de samba.

Na década de 1980, Zé Kéti mudou-se para São Paulo, onde abriu um escritório de produção artística, o Abrace-me, que agenciava cantores e cantoras e registrava composições, além de realizar a programação artística de algumas boates de São Paulo.

O próprio Zé Kéti era um dos artistas que se apresentava no elenco da produtora. Fez inúmeras apresentações em pequenos palcos, teatros e bares famosos da cidade, como o Lira Paulistana, que revelou inúmeros artistas da chamada vanguarda paulista como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Ná Ozzeti, Tetê Espíndola, dentre outros. Nos anos 1990, voltou a morar no Rio de Janeiro e passou a sofrer com diversos problemas de saúde. Isso não o impediu de comemorar seus 75 anos, com o lançamento de seu primeiro CD, intitulado 75 anos de samba, álbum que contou com participação de veteranos portelenses como Monarco, a nomes como Wilson Moreira, Cristina Buarque e Zeca Pagodinho. Também participou de shows ao lado de Marisa Monte e da Velha Guarda da Portela. Em 1998, foi premiado com o Prêmio Shell pelo conjunto de sua obra que conta com mais de 200 composições. Em 1999, Zé Kéti deixou o plano terreno, vítima de falência múltipla de órgãos.

É importante destacar que Zé Kéti teve um papel muito importante como cantor, compositor, agente cultural que uniu mundos que embora estavam geograficamente perto estavam separados, o dos compositores de morro com a intelectualidade de classe média do teatro e do cinema e contribuiu em várias frentes produzindo verdadeiras obras-primas da cultura brasileira.



Autor: Bruno Sanches Baronetti (Doutor em História Social pela USP e pesquisador da cultura popular brasileira)


Referências Bibliográficas.

BARBEIRO, Adriana Santorelli Villa. Uma questão de opinião: Zé Kéti, samba e
transformações urbanas na cidade do Rio de Janeiro (1950-1979). Dissertação de
Mestrado: PUC-SP, 2014.
MEIRELLES, Onésio. Zé Keti: o rei dos terreiros. IN: FERREIRA, Júlio Cesar Valente
(org). Festa e memória: perspectivas étnico-raciais. São Paulo: Pimenta Cultural, 2020.
ZÉ KETI. Dicionário Cravo-Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em:
https://dicionariompb.com.br/ze-keti. Acesso em 26 de setembro de 2021.

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