Colunista Convidado

Zé Keti e o Samba em protesto

quinta, 23 de dezembro de 2021

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Falar em Zé Keti automaticamente é falar do Samba em Protesto, ou seja aquele samba que serve para denunciar a realidade e as injustiças vividas pelo povo que naquele tempo majoritariamente vivia no morro.

O sambista não foi o primeiro a ser censurado, mas com certeza foi ele quem marcou a repressão e o protesto do samba nos anos de chumbo. Onde uma palavra poderia ser sinônimo de subversão.

Zé foi apenas uma semente que rendeu frutos e o protesto no Samba foi algo frequente nos anos de chumbo e depois como vamos ver.

A perseguição ao Samba

A perseguição ao samba foi algo que desde sua criação aconteceu. O gênero originalmente criado por escravos, era associado a baderna e a marginais sendo durante muitos anos foi perseguido.

E mesmo após o samba ter ganhado o carnaval e ter dominado as rádios, ainda sim era visto como subversivo, atitude marginal e vulgar.

Isso só foi mudar um pouco de figura por volta dos anos 40 quando o samba canção passou a conquistar as donas de casa ouvintes das rádios e a fazer parte dos cassinos.

Outro fator que não podemos deixar de destacar é Aquarela do Brasil que ganhou o mundo após fazer parte da trilha sonora do filme “Alô Amigos” dos estúdios Disney.

A partir daí os sambas de exaltação e com um viés ufanista passa a ganhar destaque e fazer sucesso. Tanto que até o final dos anos 70 muitas as escolas de samba utilizam desta temática na maioria das vezes.

Mas com tudo isso o samba passa a ganhar novos ares pelos anos 40, 50 e início dos anos 60. Entretanto, o golpe militar mudou toda essa situação.

Nos tempos da Ditadura

Dentre outras coisas, os militares no período de ditadura zelavam pela moral e os bons costumes. E logo de cara o samba acabou sofrendo com as consequências do preconceito, pois ainda era um movimento periférico e associado à marginalidade e desordem.

Vale lembrar que os sambas bem aceitos eram com uma temática ufanista ou samba canção com uma temática romântica (E mesmo esses não eram tão bem vistos assim pelos mais moralistas, muito devido a sua associação com os cassinos e as cantoras eram muito mal vistas).

Deste modo os sambas de roda, até mesmo sambas enredo de carnaval não eram algo que agradava muito naquela época. Vale destacar que o primeiro LP com sambas enredos das escolas de samba só foi lançado em 1968.

O Carnaval das escolas de samba só começou a agradar a partir de meados dos anos 60, mas isso é uma outra história.

Mas é  neste cenário que entra o nosso protagonista Zé Keti. 

Zé Keti x Ditadura Militar

Apesar de sua carreira ter iniciado em por volta dos anos 40 com a composição de marchinhas como “Se o feio doesse” e “Tio Sam no Samba”. Talvez seu maior sucesso tenha vindo na década seguinte.

Tal qual Ary Barroso nos anos 40, José das Flores conseguiu seu maior sucesso na trilha sonora do filme “Rio 40 graus” de Nelson Pereira dos Santos, o samba “A voz do Morro” fez um imenso sucesso dando a sua carreira um outro patamar.

Em 1964 participou do espetáculo “Opinião” com João do Vale e Nara Leão, a peça fez um imenso sucesso junto com a música tema que relata a realidade vivida no morro em especial em um período de desocupação de algumas comunidades.

Aqui temos a transição de Zé Keti de um compositor de sambas carnavalescos para um compositor de protesto.

Mas vamos ver quais são os sambistas que seguiram o mesmo caminho e realizaram se tornaram cada um em seu tempo expoentes dos sambas de protesto.

Zé Keti

  • Canções de destaque: A voz do Morro, Opinião, Acender de Velas

Partindo para a fase de protesto de Zé, iniciando com “A Voz do Morro” que pode ser visto como um grito, uma forma até mesmo inocente de enaltecer o samba. “Eu sou o samba/A voz do morro sou eu mesmo sim senhor”, aqui temos uma exaltação ao samba e como ele pode é porta voz do povo que vive nas favelas.

Prova disso está em “Opinião”, samba que relata o desejo do morador do morro de permanecer onde está. Os versos “Pode me prender/Podem me bater/Pode até deixar-me sem comer/Que eu não mudo de opinião/Daqui do morro eu não saio não”. No início dos anos 60 começou a remoção das favelas para o subúrbio do Rio de Janeiro e esta canção retrata um pouco de como foi este momento.

Por fim, "Acender de velas” como um todo é um retrato de como poderia ser duro viver no morro. Toda precariedade e as dificuldades que os moradores são obrigados a passar.

O doutor chegou tarde demais
Porque no morro
Não tem automóvel pra subir
Não tem telefone pra chamar
E não tem beleza pra se ver
E a gente morre sem querer morrer

Jorge Ben

  • Canções de destaque: Charles Anjo 45, Album Ben 1972.

Jorge Ben é visto por muitos como apoiador da ditadura militar ou até mesmo alienado, mas o que pouca gente sabe é que ele também sofreu com o regime até em uma de suas músicas mais ufanistas.

“País Tropical” por conta do improviso “Pa-tropi” foi visto pelos militares como um código subversivo, mas isso acabou desviando a atenção para outra letra que poderia ser mais maliciosa.

Charles Anjo 45 até hoje tem uma letra completamente misteriosa, apesar de ter sido aprovada pelos censores e ter até participado do “Festival da Canção”, a letra nada mais é do que uma exaltação a um criminoso, que é afastado de sua comunidade.

Muito se especula se a letra aborda o Tenente da Marinha Avelino Capitani que possui uma história parecida com a narrada pela Letra. Segundo Jorge, essa letra é baseada em um amigo de infância

Por fim a letra passou sem ser notada, mas essa não foi a única vez que Ben deu seu contra ao governo.

Babulina sempre teve uma letra difícil com o significado às vezes até mesmo incompreensível. Por último, vale o destaque ao álbum “Ben” de 1972 pode ter sido uma alfinetada ao regime e a situação vivida naquele momento.

Isso porque o disco abre com “Morre o Burro fica o Homem”,  “O Circo Chegou”, “Paz e Arroz”, “Moça”. Embora não haja qualquer relação das letras contra o regime militar, essas canções podem não terem sido organizadas desta forma por acaso.

Vale destacar a letra de “Moça” que se passa toda em um tom de despedida e uma tentativa de ver o que é positivo.

Moça, não chore não
Pois a vida é bela
O mundo é bom
O amor é lindo

Já não existe mais maldade
Veja os campos estão floridos

Faltam cinco minutos
Eu não posso te dizer
Mais nada, mais nada

A urgência em partir e a tentativa de deixar claro  de que estava tudo bem pode ser uma referência àqueles que estavam deixando o país naquele momento.

Mas a canção que pode ter sido um pouco mais ácida ao regime pode ser “Quem Cochicha o Rabo Espicha”, essa sim pode ter sido uma indireta aos delatores que denunciavam subversivos ou conversas suspeitas.

Mas isso tudo é hipótese, afinal não dá para compreender totalmente Jorge Ben e suas canções. Mas depois deste álbum o Babulina entra na sua fase mística e lança a “Tábua de Esmeralda” em 1974.

Martinho da Vila

  • Canções de destaque: Onde o Brasil aprendeu a Liberdade, Tribo dos Carajas, Sonho de um sonho

Martinho nos anos 60, 70 e 80 foi um assíduo compositor de sambas enredos, vale os destaques para os sambas “Quatro séculos de modas e costumes” e “Kizomba”. 

Mas nos anos 70 as coisas eram bem diferentes, o compositor teve alguns problemas com seus sambas enredos.

Alguns até chegaram a ser proibidos no carnaval.

“Onde o Brasil aprendeu a Liberdade” apesar de pouco teve seus problemas com os censores, isso porque a palavra “Liberdade” e a Revolução dos Guararapes não foi algo bem aceito, mas mesmo assim o samba passou. 

Até porque o samba em si não faz nenhuma referência direta aos militares ou nenhuma crítica.

Entretanto “Tribo dos Carajás" não conseguiu passar como samba enredo da Vila em 1974, o samba vencedor daquele ano ficou com "Aruanã-Açu" de Paulinho da Viola.

O grande problema com o samba ficou devido às críticas que o mesmo fazia a recém inaugurada Transamazônica. E a situação das tribos indígenas que ali viviam.

Estranhamente o homem branco chegou
Pra construir, pra progredir, pra desbravar
E o índio cantou
O seu canto de guerra
Não se escravizou
Mas está sumindo da face da Terra

Neste trecho fica bem claro a crítica e com isso o samba acabou sendo deixado de lado pela Vila Isabel, mas gravado por Martinho em seu álbum lançado naquele mesmo ano.

Já em 1980 a ditadura não era mais a mesma e as coisas estavam melhorando. Prova disso é a lei da anistia um ano antes, e no carnaval seguinte o samba enredo de Vila Isabel “Sonho de um sonho” mostra que o momento era mais ameno.

Sonhei
Que estava sonhando um sonho sonhado
O sonho de um sonho
Magnetizado
As mentes abertas
Sem bicos calados

Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz
A clemência e a ternura por amor da clausura
A prisão sem tortura, inocência feliz

Podemos ver que os tempos eram outros e que uma letra que fala sobre a ditatura um pouco mais abertamente podia passar sem muito problema.

Bezerra da Silva

  • Canções de destaque: Pega eu, Violencia gera violencia, Se não fosse o Samba

Bezerra da Silva ou o “Embaixador das favelas'' viveu os últimos suspiros da ditadura, sendo ele um dos sambistas mais politizados mesmo sem ter tanta intenção em ser.

Já no seu primeiro compacto lançado em 1969 a canção “Viola testemunha” pode ser o cartão de visitas para tudo que o cantor e intérprete viria a fazer mais adiante. 

Em 1979 com “Pega Eu” é relatada com maestria a pobreza vivida nas favelas composta por Criolo Doido, Bezerra dá voz ao que para muitos é o seu maior sucesso.

Na letra apresenta tudo aquilo que um ladrão pode encontrar na casa de um pobre.

“O ladrão foi lá em casa, quase morreu do coração
Já pensou se o gatuno tem um infarto, malandro, e morre no meu barracão?
Eu não tenho nada de luxo que possa agradar um ladrão”

“É só uma cadeira quebrada, um jornal que é meu colchão
Eu tenho uma panela de barro e dois tijolos como um fogão
O ladrão ficou maluco de ver tanta miséria em cima de um cristão
Que saiu gritando pela rua "pega eu que eu sou ladrão"”

Mas em 1988 quando a nova constituição e assim dando fim à ditadura. Assim, no álbum de mesmo nome a canção “Violencia gera Violencia” composta por Gryllo/Reynaldo/Sérgio Fernandes, a crítica é totalmente escrachada em versos como “Veja quanta incoêrencia/O homem trabalhar na terra e sem terra pra morar”ou nos versos “E o índio, ele está perdendo o seu chão/É governante usando forma de sofisma, pra ludibriar esse povão”.

E ainda neste mesmo álbum ainda temos “Candidato Cao Cao” de Pedro Butina / Walter Meninão, a letra denuncia os políticos que fazem de tudo para conquistar votos nas campanhas eleitorais mas não cumprem com suas promessas.

“Ele subiu o morro sem gravata
Dizendo que gostava da raça
Foi lá na tendinha bebeu cachaça
Até bagulho fumou

Jantou no meu barracão e lá usou
Lata de goiabada como prato
Eu logo percebi é mais um candidato
Para a próxima eleição

Meu irmão
Se liga no que eu vou lhe dizer
Hoje ele pede seu voto
Amanhã manda a polícia lhe bater, podes crer

Não teria a menor condição de um samba como esse ter sido liberado nos anos de chumbo.

Mas Bezerra da Silva foi um dos expoentes contemporâneos do samba em protesto e infelizmente é tão pouco lembrado.


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